Rasteiras · Rock

Em números

De fato, eu nem precisava dizer, mas, vá lá: evidentemente, sucesso comercial não tem a ver com valor estético. Ao menos, não diretamente. Contudo, só por mera curiosidade, segue, abaixo, a lista dos discos mais vendidos nos EUA, desde 1952 (ano de fundação da Recording Industry of America Association – RIAA):

1. Thriller, Michael Jackson (Epic, 1982) – 30 milhões
2. Eagles: Their Greatest Hits, 1971–1975, Eagles (Asylum, 1976) – 29 milhões
3. Greatest Hits, Volumes I & II, Billy Joel (Columbia, 1985) – 23 milhões
4. The Wall, Pink Floyd (Columbia, 1979) – 23 milhões
5. Led Zeppelin IV, Led Zeppelin (Atlantic, 1971) – 23 milhões
6. Back in Black, AC/DC (Epic, 1980) – 22 milhões
7. Double Live, Garth Brooks (Capitol Nashville, 1998) – 21 milhões
8. Come On Over, Shania Twain (Mercury Nashville, 1997) – 20 milhões
9. The Beatles, The Beatles (Capitol, 1968) – 19 milhões
10. Rumours, Fleetwood Mac (Warner Bros., 1977) – 18 milhões

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Esse é só o top ten. Nas posições “inferiores” (todos com mais de 10 milhões de discos vendidos), ainda aparecem Guns (Appetite for destruction), Elton John (Greatest hits), mais Beatles (Sgt. Pepper’s lonely hearts club band, 1967-1970, 1962-1966), mais Zep (Physical graffiti, II, I), Metallica (álbum preto), mais Floyd (The dark side of the moon), Springsteen (Born in the USA), Boston, Journey, Santana, Steve Miller Band, Def Leppard e quetais. Note que, dos dez mais, seis são criações de artistas relacionados ao rock (Eagles, Led Zeppelin, Pink Floyd, AC/DC, Beatles e Fleetwood Mac), e que todos esses discos foram lançados entre 1968 e 1980.

Abaixo, a lista de artistas que mais venderam discos nos EUA:

1. Beatles – 178 milhões
2. Garth Brooks – 138 milhões
3. Elvis Presley – 136 milhões
4. Led Zeppelin – 111.5 milhões
5. Eagles – 101 milhões
6. Billy Joel – 82.5 milhões
7. Michael Jackson – 79 milhões
8. Elton John – 77 milhões
9. Pink Floyd – 75 milhões
10. AC/DC – 72 milhões

Em uma versão mais estendida, ainda seriam incluídos nomes como Rolling Stones, Aerosmith, Bruce Springsteen, Metallica, U2, Van Halen, Fleetwood Mac, Journey, Guns’n’Roses, Santana e Eric Clapton – todos com mais de 40 milhões de álbuns vendidos em solo norte-americano. Entre os dez mais, sete artistas são relacionados ao rock (Beatles, Elvis, Led Zeppelin, Eagles, Elton John, Pink Floyd e AC/DC), sendo que o mais novo da turma, o AC/DC, foi formado em 1973.

Rasteiras · Rock

John e Yoko, Paul e Linda

Hoje, vai a leilão uma carta escrita por John Lennon (e Yoko Ono), destinada a Linda McCartney (e Paul), que remonta a, provavelmente, 1971 e aborda aspectos espinhosos da separação do Fab Four. [Sobre a transação, os detalhes estão aqui.]

A missiva foi uma resposta à enviada por Linda, que continha críticas à declarações que Lennon havia feito à imprensa. Não dá para saber exatamente quais as críticas e quais as declarações, mas, lendo o documento com um olho na história do fim do sonho, é possível inferir bastante coisa. Usualmente, esse tipo de voyeurismo não costuma me interessar muito, mas, como ando meio romântico por esses dias, dois pontos me chamaram a atenção. Primeiro, embora a questão empresarial tenha sido determinante para a separação do grupo, especialmente após 1969, John tem noção da obra que os Beatles legaram à cultura pop (as tournées de Paul, desde a era Wings, confirmam, por outro lado, que McCartney não tem lá muita perspectiva estético-social do que foi o trabalho dos rapazes de Liverpool) e, mais, não cospe no prato em que comeu: continua orgulhoso de ser um beatle. Segundo, o bonito post scriptum, redigido em letras cursivas, que diz “about addressing your letter just to me – STILL…!!!” Eis aí a concretização do sonho mutante: John e Yoko eram uma pessoa só.

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Em tempo 1: o show do Kraftwerk em Buenos Aires vai acontecer, ao que tudo indica. Uma decisão da Justiça garante o acontecimento, marcado para o dia 23, no Luna Park.

Em tempo 2: eu não costumo registrar a morte de estrelas do universo rock porque, normalmente, todos os sites sérios o fazem. Mas, em função dessa questão sobre a música eletrônica, fica aqui a nota fúnebre sobre Jean-Jacques Perrey, inventor/compositor francês, pioneiro dos sintetizadores e samplers, morto aos 87, de câncer de pulmão, no início deste mês. Dois discos para ouvir por esses dias: The in sound from The Way Out, de 1966, e Kaleidoscopic vibrations: electronic pop music from Way Out, de 1967. E já que estou falando de gente morta, no início desta semana, foi-se o jazz sage Mose Allison, pianista norte-americano altamente influente na cena inglesa dos anos 1960.

 

Rasteiras · Resto

Por Dylan e por Robert

Ao se lançar no cenário da música popular, o jovem Robert Allen Zimmerman, cantor e compositor, escolheu fazer uma pequena homenagem a um de seus poetas favoritos, o galês Dylan Thomas (embora, recentemente, tenha dado declarações no sentido de relativizar a importância desse fato): tornou-se Bob Dylan. E, agora, Zimmerman é um ganhador do Nobel de Literatura.

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Eu não tenho a menor ideia de quais sejam os critérios que os suecos relevam para entregar aquele que é, no imaginário pop, o prêmio mais cultuado do mundo. Além disso, minha relação com a literatura é mais ou menos a mesma que tenho com carros (eu os guio, mas não faço a menor ideia de como funcionam). Por fim, embora não morra de amores pela obra de Dylan (o Bob, no caso), reconheço não apenas seus atributos como músico e letrista como, também, sua relevância no campo da música popular norte-americana. Digo isso tudo apenas para, do fundo da minha irrelevância, concluir, com Marx (o Groucho, no caso), que Zimmerman talvez não devesse aceitar um prêmio de literatura que lhe fosse destinado. Por óbvio, teria sido mais nobre, com uns 70 anos de atraso, premiar Dylan (o Thomas, no caso).

Rasteiras · Rock

That’s entertainment

Entre fraldas e pilhas de provas para correção, ando entretido com leituras rápidas (mas, de fato, deliciosas). Um pequeno trecho exemplificativo, escrito por Alex Ross (em The rest is noise – Beethoven was wrong: bop, rock and the minimalists. Londres/Reino Unido: Fourth State, 2013, posição 31 na edição para Kindle):

“Paul McCartney had been checking out Stockhausen’s Gesang der Jünglinge, with its electronic layering of voices, and Kontakte, with its swirling tape-loop patterns. At his request, engineers at Abbey Road Studios inserted similar effects into the song ‘Tomorrow Never Knows’. By way of thanks, the Beatles put Stockhausen’s face on the cover of Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, in and among cutout pictures of other mavericks and countercultural heroes. The following year, for the White Album, John Lennon and Yoko Ono created the tape collage ‘Revolution 9’, where, for a split second, the final chords of Sibelius’s Seventh Symphony can be heard. Adventurous rock bands on the West Coast also paid heed to the classical avant-garde. Members of both the Grateful Dead and Jefferson Airplane attended Stockhausen’s lectures in Los Angeles in 1966 and 1967, while the maverick rock star Frank Zappa spoke of his teenage love for the music of Edgard Varèse, whom he once looked up in the phone book and called out of the blue. Even the most jaded veteran of twentieth-century musical upheaval must have been startled to find that the postwar avant-garde was now serving as mood music for the psychedelic generation. The wall separating classical music from neighboring genres appeared ready to crumble, as it had momentarily in the twenties and thirties, when Copland, Gershwin, and Ellington crossed paths at Carnegie Hall. Classical record labels made amusing attempts to capitalize on the phenomenon by marketing abstruse modern repertory to kids on LSD.”

De Pequena história da música, de Mário de Andrade (São Paulo: Nova Fronteira, 2015, posição 2820 da edição para Kindle), um outro apontamento:

“Também uma das importantes descobertas musicais da atualidade, o aparelho eletromagnético inventado pelo russo Theremin, parece profetizar a música como simples movimento sonoro. Esse ‘instrumento de Ondas Etéreas’, cujos sons, em portamento constante (pelo menos por enquanto), são obtidos por movimentos da mão se aproximando ou se afastando dele, parece ter um futuro enorme, pois pode dar timbres variados, todas as intensidades e todas as gradações sonoras existentes dentro do intervalo de semitom. (…) Hoje o instrumento de ‘ondas musicais’, na solução que lhe deu Maurício Martenot, já está bastante difundido, e para ele Milhaud escreveu diretamente uma ‘suíte’. Era de esperar mesmo que em nossa época surgissem invenções importantes no domínio instrumental… Porque a ideia musical mais aparentemente nova da atualidade parece ser a música de timbre. (…) Atualmente a intenção de criar uma música feita de timbres é manifesta e mesmo expressa claramente por artistas e críticos. A bateria se desenvolveu muito nas orquestras. (…) A influência do jazz-band foi vasta no campo dos instrumentos melódicos. O jazz, invenção dos negros e judeus ianques, influenciou poderosamente a criação contemporânea. Na América do Norte, Eastwood Lane, Gershwin, Burlingame Hill, Luiz Gruenberg, Carpenter, Aaron Copland, Piston o desenvolvem artisticamente. Na própria Europa o jazz influenciou muito os compositores. Maurício Ravel o aplicou em peças de caráter americano. Kreneck produziu uma ópera-jazz que causou impressão bulhenta nos países germânicos, a ‘Jonny spielt auf’. Stravinski (‘Rag-Time’, ‘Piano Rag Music’), Wiener, o italiano De Sabatta, Hindemith, Lord Berners, Villa-Lobos, sofreram o influxo continuado ou apenas esporádico dele. Na Alemanha o estudo do jazz faz parte de conservatórios. A lição do jazz, isto é, a eficiência expressiva dos instrumentos de sopro; a influência da radiofonia, salientando o valor dos instrumentos de sopro; a fraqueza do preconceito orquestral clássico, baseado no quarteto de cordas; a riqueza de efeito dos instrumentos polifônicos de percussão (piano, celesta, balafon, xilofone) na orquestra: vieram corroborar as pesquisas de Debussy, com as sonatas da última fase dele. (…) Na Alemanha se desenvolveram muito a ‘Kammersinfonie’ (Sinfonia de câmara), nome empregado primeiramente por Schoenberg, e a ‘Kammermusik'(Música de câmara), orquestra de pequenos agrupamentos instrumentais virtuosísticos.”

Rasteiras

Três pontos…

Guitarras. Eu gosto de canções em que as guitarras estão na linha de frente.

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No ano passado, a australiana Courtney Barnett lançou seu primeiro álbum, o (bastante) bom Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit (Milk! Records). A estratégia comercial privilegia o lançamento regular de vídeos (engraçadinhos) interessantes, “quase” que emulando a relação que os artistas da antiga indústria fonográfica mantinham com o rádio (uso as aspas porque mídias como o YouTube e o Vimeo não são, nem de longe, similares às FMs, que foram tão vitais, nos EUA e Europa, para o rock).

O vídeo promocional de “Elevator operator” traz easter eggs legais. Esta canção é a que abre o mencionado LP e é um belo cartão de apresentação da musicista: sonoridade indie, apoiada em guitarras limpas (mas gentilmente saturadas em válvulas), bateria “reta e direta” (sob o comando seguro de Dave Mudie) e baixo rombudo (cortesia de Bones Sloane); o registro de estúdio conta, ainda, com o teclado que faz a cama, permitindo que o fio de voz soe confortável para contar a estória de “Oliver Paul, 20 years old/Thick head of hair worries he’s going bald”.

É só uma aposta, mas, ao que me parece, há um começo aqui. Para que isso não soe completamente gratuito, vale ver/ouvir este outro vídeo.

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Vem aí Head Carrier (previsto para setembro), sexto disco de estúdio dos Pixies (o primeiro sem Kim Deal, com Paz Lenchantin beliscando as quatro cordas). O aperitivo, “Um chagga lagga”, já era conhecida há pelo menos um ano e meio (Black Francis já havia disponibilizada uma demo da canção para alguns fãs no halloween de 2014 e a banda vem tocando sua própria versão desde meados do ano passado). Soa encorpada, com um contraste interessante entre as guitarras de Francis e Santiago; Dave Lovering desce a lenha nas peles dos tambores e os vocais de Paz não são nostálgicos.

Bem, bem, bem… Parece que eles conseguiram novamente.

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A “segunda melhor banda do mundo” (na avaliação de Noel Gallagher), o Teenage Fanclub lança novo single, “I’m in love”, anunciando o novo álbum (o décimo), Here (como Head Carrier, programado para setembro próximo). Na bela canção, estão presentes robustos power chords, extraídos a partir das guitarras saturadas de Norman Blake e Raymond McGinley, uma melodia etérea e vocais tratados cuidadosamente. Em uma palavra, powerpop. E dos bons.

https://soundcloud.com/theepema/iminlove

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Impressões digitais

Eu tenho ouvido apenas MP3. Mal aê… Volume quase ensurdecedor, função random ativada.

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Confesso outra fraqueza: se uma canção tem uma melodia assobiável, guitarras limpas, baixo pontuado e um baterista maneiro, vou gostar. Gostar, aliás, não: vou venerar. Esses dias, preso num trânsito infernal na Av. Nove de Julho, por volta das sete da noite, me dei conta disto. Você sabe – se não sabe, tudo bem, vou contar agora – eu ando por aí sempre com mais de 30 Gb de música; afinal, nunca se sabe o que se esconde na próxima esquina. Bom, na ocasião, calharam de rolar no player dois álbuns que fazem parte de minha formação moral: Remember Me, do Otis Redding, e Curtis, do Curtis Mayfield.

curtis

“(…) So keep on pushing/Take nothing less/not even second best/And do not obey/you must have your say/You can past the test (…)” (excerto da letra de “Move on up!”, faixa que abre o lado B da bolacha).

Curtis (Custom, 1970, produzido pelo próprio Curtis Mayfield) é das coisas mais inacreditáveis feitas pelo homem – daqui a uns séculos, quando escavarem nossos escombros, algum espírito iluminado há de ouvir esse petardo, coçar o queixo e esquadrinhar um argumento: “se eles já tinham alcançado esse nível nos idos de 1970 e, mesmo assim, destruíram-se quase que completamente nas décadas seguintes, então a sociedade moderna era realmente uma bosta”. Qualquer dia, escrevo especificamente sobre esse grande álbum.

Remember me, do Otis, é uma coletânea, meio picareta, lançada em 1992. Faz a festa do Santo Reis com várias sobras de estúdio e outtakes. Apresenta, entre outras 21 canções, “Try a Little Tenderness”, numa versão diferente da oficial. Cara, que música espetacular. Espetacular. A melhor de todos os tempos. Claro, com Otis na voz e Booker “T” & the MG’s como banda de apoio, a versão tinha que ser matadora, mas, o que me impressiona mesmo é que a canção é construída de maneira inusitada, melódica e harmonicamente. Possui uma métrica canhestra, que permite espaços entre os versos. Rimas ricas. Uma sucessão de acordes impressionantes. Uma melodia assobiável, mas fora do padrão. “Try a Little Tenderness”, em termos de arranjo, dá um banho em peso, coesão e ritmo. Imagine uma canção que some Rattus, Exodus, GBH, Slayer e Megadeth contra o som produzido por Steve Cropper, Donald Dunn, Al Jackson Jr. e Booker “T”. É pinto: “Try a Little Tenderness” é mais pesada. Muito, mas muito mais densa. A progressão final, com Otis Redding provando ser o maior vocalista da história, é impressionante, com o contraponto dos metais, com o pá-cum-pá-cum da caixa/bumbo martelados pelo Al Jackson, aquela guitarra LIMPA – deus, que dedilhado é aquele após o break? – do Steve “Colonel” Cropper… uma paulada, coisa de quem manja do riscado.

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Eu me lembro dos dias em que eu ia ao Big Dário, que era uma loja de discos lá de Rio Claro, no interior de São Paulo. A loja não tinha lá uma grande variedade, mas, tudo bem; pelos idos de 1985-87, eu meio que não sabia nada e, então, gostava de tudo. Tentativa e erro; dias de luta. Fui de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü, até Kommander of Chaos, da Wendy O. Willians, passando, por exemplo, por PsychocandyDarklands, do Jesus & Mary Chain, por Some Girls, dos Stones, por Remain in the light, do Talking Heads, e por London Sessions, do Muddy Waters. Eu tenho esses vinis até hoje, embora não os ouça há muito tempo. Foi lá, também, que eu comprei o Face Dances, meu primeiro disco do Who.

Ah, a descoberta do poder do dinheiro! Tinha moleque que gastava tudo em doces; moleque que comprava manoplas para a Extra-Nylon; moleque que ficava enchendo a cara de Coca-Cola; moleque que ia à banca do Anésio e comprava gibis de catequese. A bem da verdade, a imensa maioria dos moleques sequer ganhava mesada. Eu, que ganhava, gastava em vinis.

Deu no que deu.