Rock

Moog

O que “I feel love”, o hit  de Donna Summer, tem em comum com “I want you (she’s so heavy)”, do Fab Four? Ou o que está tanto em “A shot in the arm”, do Wilco, quanto em “Wish you were here”, do Pink Floyd? Bem, todas essas canções – assim como “Strange days”, dos Doors, ou “Heart of Glass”, do Blondie, ou “Cars”, de Gary Numan, ou “Flash light”, do Parliament, ou “SOS”, do ABBA (e também na ótima versão do Portishead), para ficar numa lista acanhadíssima de exemplos – devem sua sonoridade ao sintetizador Moog.

Criado por Robert Moog, um engenheiro estadunidense que fabricava teremins, entre 1964 e 1965, os sintetizadores analógicos Moog foram lançados comercialmente em meados de 1966 e rapidamente foram integrados ao arsenal dos artistas de rock e pop. Inicialmente, eram modulares – aparelhos separados, que processavam individualmente os sons gerados a partir de um teclado -, mas o sucesso permitiu o lançamento, no final de 1970, do Mini-Moog, unidade compacta, portátil, mais simples de operar e, sobretudo, mais barata. A despeito de sua ampla gama de sons, sua sonoridade mais facilmente distinguível é aquela produzida pelos três osciladores que emulam frequências mais baixas: as “ondas” sonoras repetidas, que funcionam também como marcadores de ritmo nos arranjos.

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Mini-Moog, model D

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Reza a lenda, inclusive, que, dentre os diversos fatores que determinaram a saída de Rita Lee dos Mutantes, um deles envolve o famigerado Mini-Moog. Segundo narra Carlos Calado, em A divina comédia dos Mutantes (2ª ed., São Paulo: 34, 1996, 290-292), por volta de 1972, “(…) Rita vinha percebendo que seu papel na banda se tornava cada vez mais decorativo, principalmente depois que os rapazes começaram a flertar com os longos e eruditos improvisos do rock progressivo. (…) Nem mesmo a iniciativa de comprar o Mellotron e o Mini-Moog na Inglaterra surtiu efeito. Quando Rita tentou usá-los durante os ensaios da banda, sem saber ainda como operá-los direito, acabou virando motivo de gozação. Provavelmente, havia uma dose de machismo nessa atitude dos rapazes (…), mas Rita não tinha mesmo bagagem técnica para virar tecladista, de um dia para o outro. No fundo, jamais teve um real interesse em ser uma instrumentista”.

rita lee
Da direita para a esquerda: Lovely Rita, uma boneca e o pomo da discórdia.

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Eis que a guerra de tarifas comerciais que Donald Trump declarou à China afeta diretamente a fabricação dos sintetizadores Moog. Se não houver sobressaltos, amanhã, dia 6 de julho de 2018, entra em vigor, nos EUA, a famigerada alíquota de 25% no imposto sobre mercadorias chinesas. Como metade das peças necessárias para montar os instrumentos Moog vêm das terras comandadas pelo camarada Xi Jinping, o impacto nos preços dos mesmos será brutal. Por isso, a empresa lançou uma campanha para que os consumidores norte-americanos escrevam para os congressistas da Carolina do Norte, para tentar dissuadir Trump de prosseguir com a medida.