Rock

A primeira vez

O Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival, realizado no Sydney B. Cushing Memorial Amphitheatre, no Mount Tamalpais, Marin County, California, entre os dias 10 e 11 de junho de 1967 (uma semana antes do Monterey Pop), reuniu 4.000 pessoas para ouvir cerca de 30 bandas, dentre as quais Byrds, 5th Dimension, Doors, Iron Butterfly, Jefferson Airplane, Canned Heat e Kaleidoscope. A promoção e a organização do negócio estavam a cargo da rádio KFRC 610, a FM local.

Reunir um grande número de artistas em um único evento não era, propriamente, uma novidade: desde o surgimento do rock’n’roll, era usual que promotores organizassem tournées em que um punhado de artistas – geralmente, os iniciantes one-hit-wonders e os manjados, que agonizavam lentamente rumo ao oblívio – eram agrupados para criar alguma densidade comercial. A estratégia fazia sentido em um momento em que o alcance da TV era consideravelmente menor e a internet não existia nem nos sonhos do milico mais atilado. Eram, enfim, uma espécie de programa de rádio em carne e osso, levado de cidade em cidade. O que, então, fez da Fantasy Fair algo diferente, singular?

O formato, para começo de conversa. As bandas iriam apresentar o seu show e não apenas tocar o hit do dia. E o evento não estava endereçado ao teenager, que, entre um cheeseburger e a lição de matemática, encontrava tempo para pegar na mão da sweet sixteen ao som de Pat Boone. O público esperado era outro, interessado em novidades que não estavam nas gôndolas do 7-Eleven. A garotada que, anos antes, havia rebolado o iê-iê-iê estava, agora, na universidade. Beijo na boca era bom, mas insuficiente. A liberdade da infância baby-boomer foi tornada individualidade. Não era preciso andar sobre as pegadas do pai. Muita gente não queria matar gente em outra parte do globo só porque “eles” – os velhos, os políticos, o governo, o sistema – criaram alguma confusão por aí. Aliás, talvez o mundo fosse algo muito maior e mais perigoso que a matinê das tardes de domingo.

“Fair” não tem “e” no final…

Mas não apenas isso. A música também havia mudado. Cantar sobre o amor não era mais o único conteúdo possível de uma canção popular e nem todo rock tinha de ser roll. Música para a cabeça – até para bater cabeça – era o que se avistava no horizonte. O Fantasy Fair foi, assim, o primeiro festival, embora menor. Por que “menor”? Bem, de saída, saliente-se que o line-up do Fantasy Fair era essencialmente americano e o tamanho do público foi também inferior (na melhor comparação, o Monterey Pop atraiu pelo menos seis vezes mais público; na pior, o Fantasy Fair foi vinte vezes menor). Além disso, a estrutura era muito pior, tanto no que respeita aos aspectos técnico-artísticos, mas, sobretudo, na organização do público: não havia estrutura adequada para receber tanta gente. Faltavam banheiros. Não havia ambulâncias ou médicos à disposição. O policiamento era inexistente e, pela primeira vez, os Anjos do Inferno foram contratados como “segurança”. E, claro, havia oposição dos moradores e comerciantes locais.

Ainda assim, sem mortos ou feridos, mal documentado e quase esquecido, o Fantasy Fair foi um sucesso. Deu a senha para o seguinte – Monterey, sim, foi gigante, o titã que apontou o Olimpo. E os festivais foram importantes não apenas porque reuniam grandes audiências; também representam uma vitória essencial da indústria fonográfica e, ainda, do desenvolvimento técnico e tecnológico. Os equipamentos disponíveis permitiam a amplificação adequada e, não por acaso, não ocorria a ninguém a preocupação com a amplificação das imagens.

Mas, há algo mais. Os festivais marcaram uma transformação fundamental no rock. Quando o gênero apareceu, em meados da década de 1950, a transgressão estava muito mais ligada à expressão individual da sexualidade e a construção da identidade pessoal como consumidor. A partir do “verão do amor”, o rock também passou a ter o papel de expressar a insatisfação coletiva com o estado das coisas e, eventualmente, com a construção de uma utopia social, em torno de um mundo justo. Deixou de lado a inocência, prometeu a expansão da mente. Flertou com a arte. Em termos mais alegóricos, a partir de 1967 homens e meninos estão apartados: o single perdeu sua hegemonia para o álbum. O rock poderia ser adulto, tanto quanto seu apreciador (mal formado, certamente, mas, ainda assim, um adulto). Poderia?

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