Rock

Deus dá, deus tira

Dois alemães estão sentados em um café quando reparam na aproximação de um japonês cabeludo, emitindo, em alto volume, os sons mais estranhos, que ora lembram palavras, ora parecem apenas grunhidos sem sentido.

Não, isso não é a frase de abertura de uma anedota. A cidade é Munique, em alguma tarde de maio de 1970. Os alemães são Holger Czukai, baixista e ex-aluno de ninguém menos que Karlheinz Stockhausen, e Jaki Liebezeit, baterista. Ao lado do tecladista Irmin Schmidt (também ex-aluno de Stockhausen) e do guitarrista Michael Karoli, formavam o CAN, banda de Colônia, que àquela altura já tinha dois álbuns gravados (embora apenas o segundo, o fabuloso Monster Movie, tivesse sido lançado, em 1969; o primeiro, gravado no ano anterior, só veria a luz do dia em 1981, sob o sugestivo título Delay 1968). As gravações haviam contado com os vocais de um norte-americano chamado Malcom Mooney, que abandonara subitamente o grupo logo após o lançamento do disco, justamente quando as coisas pareciam se encaminhar para melhor. O fato é que, meses antes, Mooney havia sofrido um colapso nervoso durante um show: na ocasião, sem um motivo claro, ele permaneceu 3 horas gritando, ininterruptamente, “upstairs downstairs”, entre palco e coxia, até desmaiar, exausto. Depois do episódio, foi enviado de volta para a América, para um merecido tratamento psiquiátrico.

Noves fora, o CAN (um acrônimo para Comunism, Anarchism e Nihilism?) não tinha mais um vocalista e, de todo modo, na noite daquele fatídico dia, enfrentariam o palco do lendário clube Blow-Up (que já havia abrigado desde o Floyd com Syd Barrett até o então sucesso do momento Yes). Uns anos atrás, Czukai contou à revista Prog que o tal japonês estava “rezando para o sol” e que, na hora, sacou a parada; cutucou Jaki: “eis o novo vocalista da banda”.

Kenji “Damo” Suzuki, então com 20 anos, vagava pela Europa desde 1968, quando abandonou Kobe, sua terra natal. Inicialmente, fora viver em uma comuna na Suécia e, de lá, passou pela Dinamarca, França, Inglaterra e Irlanda, antes de desembarcar na Alemanha. Experiência musical? Mínima: aprendeu a manejar a flauta doce quando criança; adolescente, presidiu um fã-clube dos Kinks; e, jovem adulto, passou a fazer busking – cantar em locais públicos para ganhar trocados. Em Munique, conseguira um papel na montagem local de Hair, mas sentia-se profundamente frustrado com o fato de ter de cantar as mesmas canções todos os dias. No tempo livre, cantava “para o sol” de improviso – justamente o que impressionou Czukai naquele dia.

O convite foi aceito na hora. Sem nenhum ensaio, Damo encarou a apresentação e impressionou geral. A partir daquele momento, o CAN despontou no cenário. Sua música fluida, montada a partir de improvisos surpreendentes (e, paradoxalmente, baseados na repetição – como explicava Liebezeit, a ideia era “tocar monotonamente”), funcionava mantricamente. Com esse escrete, o CAN produziu os geniais Soundtracks (1970), Tago Mago (1971), Ege Bamyasi (1972) e Future Days (1973), com faixas perigosamente lindas, sem começo e sem fim.

Após quase quatro anos, Damo, já convertido em uma testemunha de Jeová, abandonou os companheiros germânicos e partiu para outra. Após mais de uma década errando aqui e ali, formou o Network, projeto que o leva a toda parte (esteve no Brasil, inclusive, um tempo atrás) cantando/grunhindo o que lhe vem à cabeça na hora em que entra em ação.

Dersu Uzala? Damo Suzuki, circa 2009

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