Rock

I wanna hold your hand

No início dos anos 1970, na grade de disciplinas eletivas do curso de graduação em Artes do Sacramento State College, havia uma matéria denominada “Arte e xamanismo”. Era bastante procurada pelos estudantes, muitos dos quais atraídos pelo estranho programa, construído a partir do livro de John Marco Allegro, The Sacred Mushroom and the Cross: A Study of the Nature and Origins of Christianity Within the Fertility Cults of the Ancient Near East (Londres/Reino Unido: Hodder and Stoughton Ltd., 1970; Allegro, em sua obra, sugere que o cristianismo, a exemplo de outras religiões, nascera a partir de cultos de fertilidade, que incluíam a ingestão ritualística de certas plantas para provocar a expansão da mente, na busca por deus; a edição de 8 de junho de 1970 da Time trazia uma resenha sobre o livro, intitulada “Religion: Jesus as mushroom”); para outros tantos, o apelo residia no boato de que o professor usaria substâncias alteradoras da consciência em plena sala de aula.

No primeiro encontro da tal disciplina, no período letivo do verão de 1972, Kristy, uma garota californiana de 19 anos, fora uma das primeiras a chegar na classe. A despeito da multidão que começava a se acomodar nas cadeiras do lugar, estava sozinha e se sentara num canto isolado, onde permanecera roendo as unhas. A ansiedade nem era pelo que viria a ser apresentado no curso, mas, sim, proveniente da expectativa pela chegada de Erick, um sujeito do interior de Ohio, então com 26 anos. [Dias antes, voltando do campus para seu apartamento, Kristy tinha pego uma carona com o rapaz (e um amigo) e ficara muito bem impressionada – Erick era alto, esguio, cabeludo, tinha bom papo e, na ocasião, usava uma calça com pernas de cores diferentes (Erick, por sua vez, também se interessara pela menina ruiva, que usava top e shorts curto, com um pequeno rasgo no traseiro, que revelava o vermelho de sua calcinha). Ela trazia consigo um panfleto com as disciplinas disponíveis para o período, em que estava grifado “Arte e xamanismo”. Combinaram de se matricular no curso. Nas poucas e rápidas palavras que trocaram, ficara claro que tinham muito em comum.] Felizmente, poucos minutos antes do início da aula, Erick chegou – bem a tempo de ocupar o assento ao lado. Trocaram um olhar que, embora breve, era terno, indicativo de que algo estava prestes a acontecer. Iniciada a aula, o que se seguiu foi a encenação de um ritual, onde o professor urrava palavras mágicas e invocava a presença de certos espíritos. Organizados em círculo, os alunos, em um dado momento, “para fazer a energia fluir”, foram convidados a dar as mãos. Mãos dadas, o rapaz e a garota sorriram: foi a primeira vez de Erick e Kristy.

*

Em duas semanas, o casal já dividia um mesmo teto, a despeito dos conselhos (contrários) dos amigos. “As pessoas ficavam dizendo ‘isso não está certo, vocês não podem ficar juntos o tempo todo'”, lembrou Erick, em uma entrevista concedida à MTV mais de 20 anos depois, “e, mesmo assim, fazemos tudo junto até hoje”. Descobriram-se fetichistas obcecados por memorabilia dos anos 1950: além de móveis e eletrodomésticos, dedicaram-se a colecionar roupas de couro, adereços diversos, discos, revistas, livros, quadrinhos e filmes “B”. E, dividiam, claro, uma paixão profunda pelo rock’n’roll “de raiz”, clássico, americano, sensualmente provocador.

Lar, doce lar: Kristy Marlana Wallace e Erick Lee Purkhiser, circa 2000.

Anos mais tarde, em 1976, morando em Nova Iorque, o casal formou, ao lado de Bryan Gregory e Pam Ballam, a primeira encarnação dos Cramps: Kristy e Erick abandonaram suas identidades para se tornar Poison Ivy e Lux Interior, a dupla mais famosa da geração CBGB’s. Rockabilly com tinturas punkPsychobilly! Até 2009, quando encerraram as atividades (com a morte de Lux, em 4 de fevereiro daquele ano), os Cramps lançaram oito álbuns de estúdio irrepreensíveis (alguns verdadeiramente memoráveis, como Songs the Lord taught us, produzido por ninguém menos que Alex Chilton, em 1980, e A date with Elvis, em 1986) e fizeram shows inacreditáveis, como o clássico Live at Napa State Mental Hospital, lançado em glorioso VHS, registro do concerto realizado em junho de 1978, em uma instituição para deficientes mentais na Califórnia, EUA.

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