Rock

With a little help from my friends

Maida Valley é uma área residencial de altíssimo padrão, localizada em Paddington, na região oeste de Londres. Em meio a mansões construídas há séculos, uma animada festa acontecia em um flat, situado no quarto andar de um prédio luxuoso. A proprietária do imóvel, conhecida como Lady June, era uma pintora/poetisa/cantora muito querida e influente entre os músicos da cena de Canterbury; na ocasião, recepcionava convidados para a comemoração do aniversário da poetisa/vocalista/artista performática Gili Smyth, co-fundadora do Gong (ao lado de seu marido, o guitarrista australiano Daevid Allen). Era 1º de junho de 1973.

Àquela altura, já havia quase dois anos desde que Robert Wyatt saíra do Soft Machine (grupo que, aliás, contara com os préstimos de Allen nas suas origens, em 1966) – cedera as baquetas para Phil Howard no correr de agosto de 1971, justamente quando a banda de Canterbury estava começando a se tornar mais popular, com o bem-sucedido Third (CBS, 1970). A despeito de ter abandonado (e ter sido abandonado pelo) o grupo que fundara e no qual depositara tanto suor e criatividade, o baterista/vocalista não estava, propriamente, passando por uma fase ruim. Pode parecer paradoxal, mas, embora seu novo grupo, o Matching Mole (uma piada com “machine molle”, “Soft Machine” em francês), tivesse se desmanchado em setembro de 1972, após uma tournée europeia (em que, de forma bastante madura, foi a banda de abertura para concertos do Soft Machine), Wyatt tinha remontado o combo com novos parceiros (o baixista Brian MacCormick, o tecladista Frank Monkman e o saxofonista Gary Windo) e se preparava para entrar em estúdio para trabalhar no sucessor de Matching Mole’s Little Red Record (álbum produzido por Robert Fripp, lançado pela CBS em novembro de 1972, em que as preferências políticas de Wyatt começam a ficar mais claras – o título do disco faz referência ao livro vermelho de Mao).

Robert Wyatt, circa 1971

Se no âmbito profissional as coisas iam se encaminhando, a vida pessoal de Robert não estava exatamente em um ponto alto. Encontrara, é bem verdade, o amor de sua vida, a poetisa Alfreda “Alfie” Benge, com quem mantinha um feliz relacionamento desde meados de 1971; contudo, aos 28 anos, Wyatt, começava a enfrentar problemas sérios com o álcool. O curioso é que tinha começado a beber relativamente tarde – iniciara sua “formação” na área com ninguém menos que Jimi Hendrix, Mitch Mitchel e Noel Redding, durante a tournée que o Experience e o Soft Machine fizeram pelos EUA no verão de 1968. E, prosseguindo sua pesquisa, conquistara uma “pós-graduação”, cum laude, sob a supervisão de ninguém menos que Keith Moon. [Em uma entrevista para a Uncut, publicada na edição de 23 de setembro de 2008, Wyatt lembra da “lição do mestre” e drinking buddy, aprendida no Scene Club, em Nova Iorque, no início dos anos 1970. Na ocasião, Keith o pegou pelo braço e explicou: qualquer gambá consegue encher a cara, mas, só os experts é que conseguiam ficar bêbados de verdade. E passou-lhe uma receita “infalível”. O negócio era começar a noite tomando uma boa dose de SoCo (Southern Comfort, uma espécie de licor de bourbon); como o drink era picante e adocicado, o lance era rebater com um shot de tequila e sal. Mas, aí, como a boca ficava “amarrada”, era necessário reiniciar o processo: uma nova dose de SoCo… Na entrevista, Robert lembrou do episódio com saudade – “obrigado, Keith”, riu e explicou para o repórter, “aquilo não me fez nada bem no longo prazo – e muito menos para ele (Moon morreu em 1978, de overdose de um medicamento para combater os efeitos da abstinência de álcool) -, mas, caramba, Keith era o cara. Que baita cara legal”.]

Na festa de Gili Smyth, Wyatt reencontrou o velho amigo Kevin Ayers (baixista original do Soft Machine), que trouxera uma garrafa de whisky para o bate-papo. Entre as boas memórias e os excitantes planos para o futuro, a dupla ia ficando cada vez mais animada. Apoiado no batente da janela da sala de estar do flat, em algum momento Robert sentiu que estava voando: “e eu realmente estava!”, afirmou, bem-humorado, ao repórter da mesma Uncut. Bêbado, o baterista, de algum modo, despencara do 4º andar. Levado ao Stoke Mandeville Hospital, a péssima notícia rapidamente se espalhou: Robert Wyatt, baterista e vocalista do Soft Machine e do Matching Mole, estava paraplégico. E, como nenhuma desgraça verdadeira é uma obra acabada, o músico não só não possuía nenhum plano de cobertura médica como, também, não tinha nenhuma poupança. “No hospital”, lembrou, “eu e Alfie tínhamos ‎£15 no bolso”.

É um clichê: quem tem amigo tem tudo. Primeiro, Ronnie Scott – o proprietário do famoso Jazz Club que leva seu nome, localizado no SoHo londrino, cujo palco foi frequentado por toda nata de bandas inglesas na segunda metade dos anos 1960 -, sabendo da situação, enviou ao casal ‎£100. John Peel fez um apelo em seu lendário programa Top Gear e, depois, coordenou uma pequena campanha de arrecadação de fundos para o amigo. O radialista ainda ajudou a organizar dois concertos do Pink Floyd – ambos realizados em 4 de novembro de 1973 – no Rainbow Theatre, em Londres, que garantiram a Wyatt incríveis £10.000 (à época, renda suficiente que ele e Alfie se mantivessem bem durante uns dois anos).

Mas o verdadeiro gesto de amizade ainda estava por vir. Nick Mason, baterista do Floyd, encarregou-se de produzir sessões de gravações que contaram com as mãos de Mike Oldfield, Fred Frith, Gary Windo, Richard Sinclair e Ivor Cutler, entre outros amigos. O resultado, lançado pela Virgin em 26 de julho de 1974, foi Rock Bottom, um álbum aclamado pela crítica e amado pelos fãs. Nada que indicasse ressentimento ou infelicidade – até porque as canções nele registradas foram compostas antes do acidente -, muito ao contrário; suas seis faixas são inspiradas e inspiradoras, com experimentações sonoras e líricas. Se há alguma marca, algo que identificasse a desgraça enfrentada por Wyatt naquele momento, aparecendo nos sulcos daquele vinil, talvez fosse a sutil ausência do bumbo nas singelas intervenções de bateria ao longo das músicas. Nada relevante, para falar a verdade: talvez seja exagerado dizer que Rock Bottom é um disco “para cima”, mas, certamente, não é, de modo algum, o registro de um lamento. Em uma entrevista para o Independent, em setembro de 1997, Wyatt comentou aquele período: “levou bastante tempo para que eu superasse o acidente, mas há um mal entendido. Eu não estava traumatizado por ele – o achava novelesco, para falar a verdade – e minha depressão não tinha nada a ver com aquilo, ao menos não que eu me desse conta disso. (…) Eu saí do hospital, casei-me com Alfie [no mesmo 26 de julho, dia do lançamento de Rock Bottom], e, de repente, aquilo foi minha primavera, quando senti que o mundo era um lugar confortável, um lugar excitante para se estar”.

*

Dois meses após o lançamento de Rock Bottom, novamente contando com auxílio do mate Nick Mason, Wyatt pôs nas paradas (#29 no Reino Unido) o single “I’m a believer” (canção de Neil Diamond, mais conhecida na versão dos Monkees). Em setembro de 1974, Robert foi o primeiro artista a aparecer em uma cadeira de rodas no Top of the Pops, no horário nobre da BBC.

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