Rock

Selvageria

Com quantos acordes se faz um clássico do rock? Não é preciso ser um connaisseur para saber que o número mágico é três: afinal, o formato de doze compassos que é típico do blues é baseado na transição entre três acordes (que expressam a tônica, a quarta e a quinta). É uma maneira basicamente intuitiva de acompanhar as melodias simples que foram construídas para abrigar versos igualmente simples. A “intuitividade”, no caso, aponta sobretudo para o fato de que esse formato é tão flexível que as variações que comporta são praticamente infinitas.

*

Foi em uma madrugada perdida no segundo semestre de 1965 que o compositor country Chip Taylor (que já tinha escrito hits para gente como Johnny Cash e Willie Nelson), premido pela necessidade – havia se comprometido com Gerry Granahan, empresário dos Wild Ones, a apresentar uma canção original para a banda gravar -, armou a progressão A/D/E/D/A no violão. A sessão estava programada para as 17h; eram 14h e Taylor ainda não tinha dado conta do recado. Segundo o compositor contou para a Mojo (em setembro de 2008), a letra era o problema e, dado o adiantado da hora, quase no desespero, resolveu que iria escrevê-la no estúdio, no último momento. Assim, ligou para Ron Johnson, engenheiro de som do Dick Charles Recording Studio (que ficava na 7ª avenida, em Nova Iorque), e pediu para que deixasse uns microfones armados, para que ele registrasse a demo a tempo de apresentá-la aos artistas.

Quando chegou (faltando meia hora para a sessão dos Wild Ones), pediu para Johnson apagar as luzes e gravar o que quer que ele tocasse. Acomodou-se em um banquinho na sala de gravação e meneou afirmativamente a cabeça para o engenheiro. Bateu firme contra as cordas do violão e fez a progressão soar, armando, assim, uma introdução para a canção. Subitamente, parou e, sem pensar muito, mandou: “Wild thing, I think I love you/But I wanna know for sure/So come on and hold me tight/You move me”. Repetiu a progressão e o verso improvável, substituindo, “you move me” pelo inventivo “I love you”, e voilà: a mágica estava feita. [Embora o “breque” onde o verso foi encaixado tivesse sido criado de maneira quase espontânea, ele, na verdade, remonta à tradição do blues – repare o fraseado e a métrica e a forma como são acomodados na melodia. Há quem diga, com razão, que essas quebras lembram muito o arranjo de “Heartbreak hotel”, de Elvis.] De fato, Granahan gostou muito do que ouviu e, animado, comandou a sessão de gravação. Lançado em novembro de 1965, o disco dos Wild Ones acabou dando em nada.

Meses depois, na Inglaterra, Larry Page, então produtor dos Kinks, estava animado com sua mais recente descoberta: uma banda de Andover, Hampshire, chamada Troggs. O cantor, Reg Presley, também escrevia boas músicas, mas Page procurava material profissional, de primeira linha. Foi por meio de um catálogo de demos da RCA Records que Larry descobriu “Wild thing”, a tal canção de Chip Taylor. Imaginou que desse um bom “lado B” para “Did you ever have to make up your mind”, sucesso do Lovin’ Spoonful que o produtor tinha escolhido para os Troggs gravarem. Quando a banda ouviu a demo de Taylor, peitou Page e decidiu que “Wild thing” tinha de ser o “lado A”. Dois takes depois – dez minutos! – um dos principais hits de 1966 (e da história do rock) estava pronto para ganhar as ruas.

the-troggs-wild-thing-atco-(mcrfb)
O single da Atco: note o crédito equivocado, dado a Reg Presley.

De volta aos EUA. Lá, a Atco estava muitíssimo interessada em lançar alguma banda britânica em solo americano, para aproveitar as ondas da invasão capitaneada pelos Beatles. Quando souberam de “Wild thing”, sentiram que estavam diante de um sucesso. A canção estava prestes a ser lançada pela Fontana na Inglaterra e a Atco tratou de negociar com Page o lançamento estadunidense. O que não notaram era que a Fontana também atuava nos EUA e, claro, possuía o direito de preferência para promover o compacto na América. Assim, entre a última semana de abril e o início de maio de 1966, curiosamente, “Wild thing” foi lançada nos EUA por duas companhias distintas – Atco e Fontana -, causando certa confusão no mercado. A Billboard, publicação responsável pela parada “oficial” da indústria fonográfica daquele país, resolveu considerar a soma das vendas dos dois lançamentos e, na apuração, em 16 de julho, o single alcançou o #1 das charts norte-americanas. Com dinheiro rolando, é evidente que a pendenga foi parar nos tribunais.

 

Os trogloditas de Andover, circa 1966: (da esquerda) Ronnie Bond (bateria), Reg Presley (voz), Chris Britton (guitarra) e Pete Staples (baixo). Segundo Lester Bangs, seriam “os progenitores do punk“.
the-troggs-wild-thing-fontana-(mcrfb)
A versão da Fontana: crédito correto.

A versão gravada pelos Troggs é, para dizer o mínimo, rude. A começar pelo timbre da guitarra de Chris Britton – que, à época, estava experimentando um dos primeiros pedais de distorção comercialmente lançados na Inglaterra -, passando pelo arranjo “naïve” de bateria e culminando no inesperado solo de ocarina (!), “Wild thing” não se parece com nenhuma gravação de seu tempo. Os vocais de Reg Presley soam raivosos, grunhindo as notas ao invés de cantá-las. A insinuação sexual que caracteriza a letra ganha, neste arranjo, uma feição agressiva, típica “de macho” (só para efeito de comparação, a versão ao vivo que o Experience registrou no Monterey Pop mostra um aspecto muito mais “sexy” da canção, aspecto este acentuado, inclusive, pelos ruídos e impromptus da guitarra de Hendrix), que está totalmente adequada com a compleição troglodita da banda. Nunca a tosquice e a completa falta de formação tinham sido tão bem-sucedidas entre o grande público.

A edição da Billboard de 3 de dezembro de 1966 noticiou que o problema comercial fora resolvido pelas companhias proprietárias da Atco (Atlantic) e da Fontana (Mercury): o disco continuaria a ser produzido e comercializado pela Fontana – os lojistas poderiam vender o seu estoque da versão Atco normalmente – e a Atco receberia um percentual dos royalties de futuros lançamentos norte-americanos dos Troggs. [Após “With a girl like you”, #29 (em 10 de setembro de 1966), e “I can’t control myself”, #43 (em 12 de novembro de 1966), os Troggs conseguiriam um respeitável #7 com “Love is all around” (em 18 de maio de 1968), antes de desaparecerem das paradas estadunidenses. No Reino Unido, o sucesso da banda se manteve comercialmente consistente por algum tempo, mesmo após sua separação (em meados de março de 1969).]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s