Rock

Uma aventura no Caribe

I went to the place where every white face is an invitation to robbery
Sittin’ here in my safe european home – don’t wanna go back there again

“Safe european home” (Strummer/Jones)

Na segunda quinzena de novembro de 1977, Bernie Rhodes, o empresário da banda, colocou Joe Strummer e Mick Jones em um avião, com destino a Kingston, Jamaica. A ideia era que a dupla aproveitasse uma pequena folga de dez dias para escrever material novo para o segundo álbum do Clash. Para Rhodes, havia, basicamente, duas razões para a viagem: em primeiro lugar, férias eram necessárias – o grupo estava extenuado, por conta de uma agenda massacrante de, na média, um show em uma cidade diferente a cada dois dias; e, depois, porque Joe era fã da música jamaicana (embora o verdadeiro fã de reggaedub fosse, sobretudo, o baixista Paul Simonon, que, para sua furiosa frustração, fora deixado de lado na viagem e, como compensação, rumara para Moscou, no mesmo período; a justificativa que o empresário dera para tal fato era até razoável – a viagem envolvia trabalho e os compositores do grupo, àquela altura, eram Strummer e Jones; a primeira contribuição de Simonon ao repertório original do Clash foi a clássica “Guns of Brixton”, em 1979) e isso começava a aparecer no repertório do grupo.

A dupla foi instalada no Pegasus Hotel, em New Kingston, no coração financeiro da capital da Jamaica. A escolha já refletia uma certa preocupação com a segurança, embora Joe e Mick estivessem bastante interessados em conhecer os guetos da cidade. Logo na chegada, tentaram, em vão, contato com Lee “Scratch” Perry, lendário produtor jamaicano, responsável pelas gravações de Bob Marley e Junior Murvin (co-autor, com Perry, de “Police and Thieves”, que o Clash gravara em seu début, naquele mesmo ano). No primeiro passeio, ficou claro que aquelas férias seriam inesquecíveis: sentiam que eram as únicas caras brancas circulando por Kingston. Segundo Strummer (cf. SALEWICS, Chris. Redemption song: the ballad of Joe Strummer. Londres/Reino Unido: Faber & Faber, 2006), ele e Mick ficaram boa parte dos primeiros dias zanzando pela região portuária. “Não sei como nós não fomos fatiados e servidos com batatas fritas (…) Acho que nos confundiram com marinheiros, mercadores dos mares, porque nós estávamos andando por Kingston usando nossos trajes punk – devem ter deixado a gente andar por aí porque pensaram que éramos loucos ou algo do tipo”, lembrou o guitarrista.

clash
A reunião que nunca aconteceu: Clash, 2002. Da esquerda para a direita: Joe Strummer, Mick Jones e Paul Simonon (onde estaria Topper Headon?)

[A Jamaica da segunda metade dos anos 1970 não era, definitivamente, um lugar seguro. O país era governado pelo primeiro-ministro Michael Manley, do People’s National Party, que estabelecera, a partir de 1972, uma agenda de reformas estruturais com tinturas socialistas (que incluía a expropriação de empresas e a nacionalização de certos setores econômicos; na política externa, contudo, a Jamaica de Manley não se alinhava com o “imperialismo soviético”). A oposição era encabeçada pelo conservador Edward Seaga, do Jamaican Labour Party, que contava com apoio nada velado da CIA e das lideranças empresariais locais. Na ocasião, a luta política havia ganhado as ruas; defensores de ambos, Manley e Seaga, enfrentavam-se abertamente, em escala crescente no nível de violência. Em junho de 1976, a Jamaica entrou em estado de emergência e, mesmo assim, centenas de pessoas eram assassinadas por armas de fogo (a despeito da lei que estabelecia o controle de armas entre os civis, promulgada em 1974) em rixas de cunho político (em dezembro de 1976, Bob Marley, que vinha tentando organizar uma frente pacifista, sofrera uma tentativa de homicídio à bala, em Kingston).]

Após serem assaltados duas vezes, Joe e Mick conseguiram, finalmente, comprar uma boa quantidade de erva – o suficiente, inclusive, para Strummer garantir seu estoque para as festas de fim de ano em seu seguro lar europeu. Resolvida esta questão fundamental, os jovens punks passaram os dias restantes em um circuito quarto-piscina-cinema. Piscina? Segundo Mick, sua principal lembrança era estar desfrutando da piscina do hotel enquanto a chuva caia – afinal, a chuva é constante na Inglaterra, mas o frio londrino impede qualquer recreação molhada, de modo que a situação lhe parecia notavelmente paradoxal. Cinema? Sim. Jones e Strummer aproveitavam a escuridão da sala para observar os tipos locais e, de quebra, assistir pela vigésima vez Balada sangrenta (The harder they come, dirigido por Perry Hanzell, Jamaica, 1972), estrelado por Jimmy Cliff. Mick ainda lembra que “quando andávamos pela rua, rumo ao cinema, Joe me disse que a Jamaica parecia os lugares que ele conhecera mais jovem.” – Strummer era filho de um diplomata britânico – “‘Isso é exatamente como quando eu era um garoto’, ele me disse. Aquele era um tempo em que você podia realmente sentir a presença colonial”.

*

A viagem não produziu muitas canções, mas, de fato, não foi nada perdida. Ok, somente em 10 de novembro de 1978, Give ‘em enough rope, o esperado segundo disco do Clash, produzido por Sandy Pearlman, foi lançado pela CBS. E, sim, o single que promoveu o álbum foi “Tommy gun”/”English civil war” – faixas roqueiras tradicionais, sem qualquer requebrada ou remelexo. Talvez a única presença jamaicana esteja no petardo de abertura do LP, “Safe european home”: porém, nada de reggae, ska ou raggamuffin’; na interessante letra da música, Joe e Mick assumem seu pavor com a bandidagem de Kingston e reconhecem a posição confortável de se morar em um estado social (que estava em vias de ser desmontado, é verdade). O verdadeiro legado da viagem surgiria só depois, em 1979, no repertório do espetacular London calling. Aliás, a senha já estava dada no trecho final do “lar europeu”: “Rudie come from Jamaica/Rudie can’t fail”.

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