Rock

Outras duas histórias (ou “a história não se repete porque, afinal, ela não chegou a mudar”)

Para encerrar as historietas das últimas semanas, um pouco mais de Morrissey: “O Brexit foi magnífico” e “Marine Le Pen venceu o debate eleitoral francês, mas a BBC ‘não contará a verdade’“.

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Lembremos, agora, uma velha tradição do bom e velho rock’n’roll, em mais dois pequenos atos.

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Birmingham, Inglaterra, 5 de agosto de 1976. No Odeon Theatre, quase 2.500 pessoas presenciam um concerto de Eric Clapton. Lá pela metade do set, visivelmente transtornado e (quimicamente) alterado, o guitarrista fala à audiência: “Há algum estrangeiro aqui hoje? Se sim, levantem a mão… Eu quero dizer, gente escura… estou olhando para vocês, onde estão? Sinto muito, mas algum escuro… árabe, sabe? Algum árabe passou a mão na bunda da minha mulher. Claro, isso tem de ser dito: é para isso que todos esses estrangeiros e escurinhos estão aqui. Nojento. Cadê vocês? Bom, onde quer que estejam, eu acho que deveriam ir embora. Não aqui do teatro, mas do nosso país! Eu não quero vocês aqui, no meu auditório ou no meu país!”.

Ante o ataque inesperado de sua intervenção, um silêncio de perplexidade abafava os sons de alguns aplausos e o uivo pontual de certas vaias decididas. Sem articular muito, Clapton prosseguiu: “Eu acho que a gente deveria votar em Enoch Powell. Enoch é o nosso cara. Eu acho que Enoch está certo, acho que deveríamos mandar todos de volta. Evitar que a Grã Bretanha vire uma colônia negra. Expulsar os estrangeiros. Expulsar os escuros. Esses sauditas lazarentos estão tomando Londres. Bastardos! O Reino Unido está ficando lotado! Vamos manter a Grã Bretanha branca! Esses escurinhos não são daqui! Isto aqui é Inglaterra, este é um país branco! Nós temos de deixar claro que eles não são bem-vindos. A Inglaterra é para brancos!.. É preciso manter o Reino Unido branco!”.

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No espírito de deus, como afirma Macca, só o cego é que não vê: ébano e marfim, vivendo juntos em perfeita harmonia.

[Na mesma Birmingham, em 20 de abril de 1968, o parlamentar Enoch Powell, falando em um encontro de seu partido, Tory (conservador), fez um discurso duro, para atacar o Race Relations Act 1968. Esta lei tornava ilegal, no Reino Unido, negar abrigo, emprego ou acesso a serviços públicos a alguém por causa de cor, raça, etnia ou nacionalidade. No argumento de Powell, não apenas era impossível criar “relações comunitárias harmoniosas” na Commonwealth, mas, sobretudo, que uma tentativa nesse sentido – como preconizado na referida norma jurídica – criaria bases para uma guerra entre diferentes. Em seu discurso, Powell citou Virgílio (em um canto de Eneida, o poeta romano alude a uma visão do rio Tibre se transformando em um “rio de sangue”, por conta da disputa entre os povos) e, por isso, seu discurso entrou para a história como “Rivers of blood”.]

Clapton está limpo desde o final dos anos 1970. Em 2007, o guitarrista reafirmou sua posição contrária ao Race Relations Act.

[O episódio parece ter instigado a imaginação de Roger Waters. Em “In the flesh”, composição gravada em The Wall (1979), a letra diz “Are there any queers in the theater tonight?/Get them up against the wall!/There’s one in the spotlight, he don’t look right to me,/Get him up against the wall!/That one looks Jewish!/And that one’s a coon!/Who let all of this riff-raff into the room?”.]

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A edição de setembro de 1976 da Playboy norte-americana traz longa entrevista com David Bowie. Nela, o entrevistado afirmou que “os rock stars são fascistas. Adolf Hitler foi uma das primeiras estrelas do rock.” Quando o entrevistador lhe pediu mais explicações, o camaleão mandou, na lata:

“Pense nisso. Veja alguns dos filmes e como ele (Hitler) se movia. Acho que é tão bom quanto Jagger! É impressionante. E, meu, quando ele subia no palco, ele trabalhava a audiência. Meu deus! Ele não era um político – ele era um artista da mídia. Ele usou a política e o teatro e criou essa coisa que governou e controlou o show por 12 anos. O mundo nunca verá nada assim novamente. (…) As pessoas não são muito inteligentes, né? Eles dizem que querem liberdade, mas quando têm a chance, abandonam Nietzsche e escolhem Hitler, porque ele marcharia em um auditório para falar e a música e as luzes surgiriam em momentos estratégicos. É praticamente um concerto de rock’n’roll. Os moleques enlouquecem – as garotas se excitam e os caras ficam desejando que fossem eles lá no palco. Isso, para mim, é a experiência do rock’n’roll.”

Bowie, de fato, era fissurado em memorabilia do terceiro Reich e seu fascínio pelo tema não era segredo para ninguém. À época, causou controvérsia ao desembarcar em Londres, vindo da bem-sucedida tournée de lançamento de Station to station. Nas palavras de Paul Trynka (Starman: David Bowie – the definitive biography. Londres (Reino Unido): Sphere, 2012), “ele chegou e foi fotografado, para sua vergonha, na estação Victoria, fazendo o que pareceu ser uma saudação nazista”.

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Exagero? Bowie declarara, em 1974: “O Reino Unido está pronto para um líder fascista… Eu acho que a Grã Bretanha poderia se beneficiar de um líder fascista. Afinal, o fascismo é, na verdade, nacionalismo… eu acredito firmemente no fascismo. As pessoas sempre responderam com grande eficiência a uma liderança regimental…”

Nos anos 2000, por várias vezes, o Thin White Duke se retratou dessas suas declarações dos anos 1970, alegando estar envolvido pelo vício em pó.

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Ah! Essas drogas…

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