Rock

Duas histórias

 

Reza a lenda que, numa tarde perdida no ano de 1950, em Los Angeles, um jovem chamado Jerome, de meros 17 anos, bateu na porta da casa de um outro rapaz, batizado Mike, da mesma idade. Nunca haviam se encontrado antes, mas tinham amigos em comum que atestavam a possibilidade uma amizade proveitosa. Tinham, sim, falado muito brevemente ao telefone:

– Alô?
– Mike, você não me conhece. Meu nome é Jerome. Sei que você aprecia blues e R&B.
– Sim.
– Cara, eu adoro esse tipo de som… escuta, eu rascunhei umas coisas… bem, por que não nos reunimos um dia desses para escrevermos juntos?
– Não.
– Bom, mas vamos, pelo menos, nos encontrar… a gente podia conversar sobre isso.
– Não.

No primeiro encontro, o tímido Mike notou que o expansivo Jerome – ou, simplesmente, Jerry, como, mais tarde, ficou conhecido – trazia um caderno. Jerry (que estranhou o fato de que Mike possuía olhos de cores diferentes, um azul e outro marrom), naquela tarde, levava, em seu caderno, rascunhos de letras para canções. Mike era um pianista clássico talentoso, com ouvidos criados com discos 78 rpm de jazz e blues.

– Quem é você?
– Sou o Jerry. Você é o Mike, certo?
– Sim.
– Escuta, me dê uma chance. Vamos escrever canções de blues.
– Não existem canções. Existe blues.

Nesse instante, foram interrompidos pela mãe de Mike: “filho, não seja mal-educado. Convide seu amiguinho para entrar e tomar um refresco”. Obediente, Mike deixou Jerry entrar. O resto é história.

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Da esquerda: Mike (Stoller), um jovem de Tupello e Jerry (Leiber), circa 1957, enquanto trabalhavam em “Jailhouse rock”, o filme.

*

Johnny era um garoto de 18 anos que trabalhava como assistente de vendas em uma loja de roupas chamada X-Clothes, em Chapel Walks, próximo ao centro de Manchester, no Reino Unido. Havia cerca de um ano, travara amizade com Joe, à época com 34 anos, dono da loja ao lado, a Crazy Face. O garoto tinha ficado impressionado com as fotos que decoravam a loja de Joe – posters de várias bandas (em especial, dos Stones) – e com a trilha sonora que embalava o ambiente – uma lista controlada a mão de ferro pelo dono. Ambos eram aficionados por rock’n’roll e costumavam passar algumas horas diárias falando sobre música, fumando maconha e, eventualmente, empunhando guitarras – Johnny já era, então, um exímio instrumentista e Joe apenas um esforçado aprendiz.

Joe sabia que Johnny queria formar um novo conjunto. As tentativas anteriores até tinham funcionado – seu grupo mais recente, àquela altura, o Freak Party, tinha até vencido um concurso promovido pelo NME -, mas não haviam dado em nada. Para Johnny, a principal questão era encontrar o vocalista adequado, alguém com o carisma necessário para ser o frontman do combo. Eis que, em uma tarde de maio de 1982, estavam no escritório da Crazy Face, quando Johnny encontrou uma fita VHS. Nela, Joe informou, havia um documentário sobre Leiber & Stoller, a lendária dupla de compositores da primeira fase da história do rock’n’roll, produzido pelo South Bank Show. Assistiram. Joe chamou a atenção de Johnny para um momento específico da narrativa: o primeiro encontro da dupla.

Alguns dias antes, Johnny recebera uma indicação, através de Rob Allman, cantor do White Dice: o antigo vocalista do Nosebleeds talvez fosse o cara que o guitarrista procurava. Ao saber disso, Joe foi incisivo:

– Johnny, você tem o contato desse cara?
– Quem, o vocalista do Nosebleeds?
– Sim, esse mesmo.
– Não tenho, mas o Stephen Pomfret sabe onde ele mora.
– Johnny, meu chapa, por que você não vai até a casa do cidadão e se apresenta?

No dia seguinte, o expansivo Johnny, acompanhado do amigo Stephen, dirigiu-se ao número 384 da Kings Road, em Stretford, Manchester, e, do nada, bateu na porta. Uma senhora os atendeu e os fez entrar. Pediu, contudo, que aguardassem um pouco, porque seu filho, Steven Patrick, era um rapaz muito tímido e quiçá mal-educado. Eles esperaram. O resto é história.

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Da esquerda: Steven Patrick (Morrissey) e Johnny (Marr), circa 1984.
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