Rock

Brass in pocket

Em um palco obscuro, em Akron, no nordeste do estado de Ohio/EUA, ela empunhou a guitarra em público pela primeira vez. Ao final da rápida apresentação, o Sat. Sun. Mat recebeu aplausos raros e mornos, mas o vocalista Mark (Mothersbaugh, que alguns anos mais tarde faria grande sucesso com o Devo), mais que frustrado com o insucesso, estava mesmo era surpreso com o carisma da guitarrista: embora ela mal soubesse o desenho dos acordes que tentava tocar, sua presença era algo especial.

Era 1973 e a garota mal completara 22 anos. Recém saída da Kent State University (local em que presenciara o horror no fatídico 4 de maio de 1970, quando a Guarda Nacional abrira fogo em direção aos estudantes que protestavam contra a invasão estadunidense no Camboja, durante as operações da guerra no Vietnam), onde estudara artes, ela agora ganhava a vida como garçonete. Com o saco cheio de ideias e expectativas, abandonou a vida pacata e mudou-se para Londres, munida apenas com alguns niqueis no bolso e muita coragem. A decisão fora tomada após ler um artigo sobre um de seus ídolos, Iggy Pop, publicado em um semanário britânico sobre música popular, o lendário New Musical Express.

O texto decisivo havia sido escrito por ninguém menos que Nick Kent. Segundo ele narra em suas memórias, certa feita, no verão de 1974, estava em uma festa em um casarão qualquer no norte de Londres, em que “(…) nada estava acontecendo realmente para constituir uma atmosfera de celebração (…) Eu estava me preparando para dar uma desculpa qualquer e ir embora quando, de repente, uma magrela alta entrou na sala (…) Então, ela abriu a boca, sem se dirigir a ninguém em particular. Seu sotaque era imediatamente reconhecível para mim: vinha do meio-oeste norte-americano (…) ‘Cara’, ela começou, ‘minha vida está uma merda no momento (…) e a pior coisa é que alguém roubou a minha coleção de discos dos Stooges. Agora, não tenho mais razão para viver’. Naquele instante, um laço invisível foi criado entre nós. Naqueles dias, fãs dos Stooges eram tão raros e distantes que, sempre que encontrava algum ‘apóstolo’ dos caras (como eu), imediatamente fazia questão de conhecê-lo melhor” (KENT, Nick, The new music journalism. Faber Forty-Fives: 1973-1974. Londres/Reino Unido: Faber and Faber, 2012, posição 548 na versão para Kindle, tradução livre minha, OAJ). Rapidamente, viraram um casal e Nick conseguiu para a namorada uma posição no NME; ela, em pouco mais de seis meses, produziu artigos e entrevistas com gente como Brian Eno, Suzi Quatro, David Cassidy, Tim Buckley e Mose Allison.

Embora tivesse um talento evidente para continuar no jornalismo musical, a garota simplesmente se encheu. Acabou largando o NME e, como as contas continuavam chegando, arrumou um emprego de vendedora em uma loja na King’s Road, chamada Sex. Os donos do empreendimento eram, ninguém mais, ninguém menos, Malcom McLaren e Vivienne Westwood. O local havia se tornado a Meca da então nascente cena punk londrina. Era 1975 e seu visto estava em vias de expirar. Ela detestava a ideia de ter de voltar para Ohio e, então, fez uma proposta a um moleque que passava todo dia pela loja: “escuta”, disse ela em algum raro dia ensolarado da primavera londrina, “será que você não se casaria comigo? Isso me quebraria um galhão…” John – esse era o nome do rapaz, apelidado de “Podre” por seus companheiros de algazarra – titubeou e não respondeu, ao menos não claramente. Mas, Simon, um garoto ainda mais novo, que estava ouvindo a conversa de orelhada, ofereceu-se para a tarefa: “você terá a honra de ser a sra. Sid Vicious!”, ele gargalhou. No dia seguinte, foram ao cartório, mas deram com os burros n’água: estava fechado, por conta de algum feriado obscuro, específico daquele ofício. Para piorar a situação, no outro dia, Sid tinha que comparecer à corte para responder por alguma contravenção menor. O resultado foi que a menina teve de embarcar para Cleveland, às pressas, para evitar a deportação.

No início de 1976, resolveu tentar a sorte na Europa novamente. Enquanto resolvia questões burocráticas para conseguir um visto permanente no Reino Unido, estabeleceu-se em Paris, onde assumiu o contrabaixo dos Frenchies. Era, basicamente, isso ou affamer. A coisa melhorou quando ouviu a notícia de que Chris Spedding estava por aquelas bandas para gravar. Montou acampamento em frente ao hotel do guitarrista inglês e, com a usual cara-de-pau, conseguiu uma maneira para, finalmente, voltar a Londres (que, nesse momento, vivia o furacão punk em toda a sua intensidade). De volta à chuvosa metrópole, rapidamente, enturmou-se com o pessoal do 999, mas não conseguiu passar no teste para a vaga de guitarrista (Tony James, futuro Generation X e Sigue Sigue Sputnik, também falhou em sua tentativa para a posição). Após um breve flerte, tentou montar um grupo com Mick Jones, mas este estava muito ocupado com o Clash, que, a essa altura, era, ao lado dos Pistols, the next big thing no cenário.

O jeito foi procurar McLaren novamente. A essa altura, ele havia se tornado empresário de bandas punk e, por sua indicação, a menina assumiu as seis cordas do Masters of the Backside (que, meses depois, tornaria-se a primeira banda punk inglesa a lançar um compacto, com a célebre “New Rose”, assinando o disco como Damned), mas durou apenas alguns ensaios. Nos meses seguintes, participou das bandas de Johnny Moped e de Nick Lowe, mas foi demitida de ambas por deficiência técnica – anos mais tarde, ela lembrou do incidente, falando de quão imensa era a frustração em ver, naqueles dias, gente que tocava metade do que ela era capaz virando guitarristas-solo de combos que estavam lançando discos e frequentando as paradas de sucesso. Dois outros grupos, os Moors Murderers (com Steve Strange) e os Berk Bros., falharam miseravelmente em conseguir qualquer atenção. Quando uma tentativa de parceria com Johnny Thunders (que lutava para construir uma carreira solo consistente, após o fim dos New York Dolls) foi a pique, pensou em voltar para os EUA.

No segundo semestre de 1977, um amigo, Lemmy (que, dois anos antes, fora demitido do posto de baixista do Hawkwind, por “usar as drogas erradas” – tinha sido preso por porte de cocaína no Canadá e fizera a banda perder algumas datas), suportou os lamentos bêbados da garota durante uma noite inteira. Depois de tudo que escutou, foi firme: aconselhou-a a insistir na carreira, mesmo diante dos reveses cada vez mais frequentes. Fez mais, aliás. Apresentou-lhe o empresário Tony Secunda, que havia trabalhado com grupos como Moody Blues, Move e T. Rex. Secunda havia contratado o conjunto que Lemmy montara, o Motörhead, e, agora, o empresariava. Após algum papo e uma sessão com a guitarra, Tony notou todo o potencial criativo da garota. Propôs financiar a gravação de algumas demos e lhe fez sugestões para conseguir o sucesso que tanto almejava. Mesmo pressionada pelo estômago, a menina gentilmente recusou a direção artística oferecida, mas topou registrar suas canções. Dias depois, Secunda apresentou-a para Dave Hill, que estava saindo da Anchor Records para montar um selo próprio.

Hill ficou impressionadíssimo com o que ouvira. “Olhe, Dave, o lance é o seguinte”, articulou a garota, “eu não tenho banda – Malcom Foster e Phil, do Motörhead, têm me ajudado, mas eles são profissionais e eu não tenho um puto para pagá-los… Aliás, eu tenho um monte de dívidas por aí e estou quebrada”. “Sem problemas”, respondeu Hill, “eu pago tudo e, amanhã, vamos colocar um anúncio na Melody Maker procurando músicos para tocar com você”. Alguns meses depois, em julho de 1978, ao lado de Pete Farndon (baixo), Jim Honeyman-Scott (guitarra) e Martin Chambers (bateria), a garota de Ohio gravou, sob produção de Nick Lowe, uma versão para uma velha canção dos Kinks, “Stop your sobbing”, que, finalmente, alcançou o #34 da parada britânica em janeiro de 1979.

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