Rock

A supremacia roqueira

“Queimar era um prazer.”

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Traduzido por Cid Knipel. São Paulo: Globo, 2007, p. 15

Estados Unidos, 1979: durante a crise desencadeada pelo segundo choque internacional do petróleo, a inflação alcança dois dígitos; o desemprego grassa. A quantidade total de LPs comercializados em solo estadunidense acusa queda de quase 11% em relação ao biênio anterior. (cf. GRONOW, Pekka. “The Record Industry: The Growth of a Mass Medium.” Popular Music 3, 1983, pp. 53-75).

*

Havia algum tempo que o bordão “Disco sucks!” era ouvido nas ondas da WLUP-FM, estação de rádio de Chicago, Il. Essa verdadeira pérola do pensamento ocidental fora cunhada pelo DJ Steve Dahl, que tinha sido demitido de uma emissora concorrente, a WDAI, quando esta abdicara do rock, em sua programação, em favor da – adivinhe – disco music. Na América do final dos anos 1970, existia no ar uma tensão entre esses gêneros de música popular; Dahl propunha à sua audiência a organização de uma brigada “anti-Disco“, que defendesse o “puro” rock’n’roll contra um tipo de música que, na sua opinião, era horrível.

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Steve Dahl, 1979.

[A disco music surgira no início da década de 1970, a partir do cruzamento entre o “Philadelphia soul” e o soul de Nova Iorque – ambos os estilos desdobrados a partir do R&B, do som da Motown e da hard soul music sulista. A origem da disco não pode ser compreendida sem que se considere o estado da luta pelos direitos civis naquele momento histórico: é um gênero que brota no gueto e se espalha pelos clubes frequentados pelas comunidades gay e latina.]

Dahl estava longe de ser um pregador no deserto. Um outro detrator da disco, um sujeito chamado Mike Veek, era, à época, diretor de promoções do White Sox, time de baseball de Chicago. Aliando o ódio com a vontade de vender, Veek imaginou que seria uma boa jogada de marketing organizar, no intervalo de um jogo, uma fogueira com vinis de disco music. O cálculo era bastante simples (simplório, até): baseball e rock eram atrações populares tipicamente americanas e contavam com grandes públicos; e, claro, um evento com essa radicalidade geraria manchetes e, possivelmente, seria lembrado por anos a fio. Contando com o apoio de Dahl e o alcance da WLUP-FM, Veek organizou, então, a Disco Demolition Night: uma ocasião em que os fãs roqueiros do esporte “mostrariam sua cara” e, sobretudo, um momento em que promoveriam sua declaração de que não mais assistiriam passivamente a “perda de terreno” para o “inimigo”.

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Como dizia um alemão do século XIX: a primeira como tragédia, a segunda como farsa

[Em 20 de janeiro de 1979, o Chic alcançou o topo da Billboard com o single “Le freak”. Pouco menos de um mês depois, Rod Stewart desbancou o grupo de Nile Rodgers com “Da Ya Think I’m Sexy?” (uma “parceria” com Jorge Ben!). O #1 da parada mudou em 10 de março, com a chegada de “I will survive”, de Gloria Gaynor. Até a semana da Disco Demolition Night, sucederam-se no posto de canção mais comercializada dos EUA os Bee Gees (“Tragedy” e “Love you inside out”), os Doobie Brothers (“What a fool believes”), Amii Stewart (“Knock on wood”, versão para o clássico hard soul de Eddie Floyd), Blondie (“Heart of Glass”), Peaches & Herb (“Reunited”), Donna Summer (“Hot stuff”) e Anita Ward (“Ring my bell”).]

A demolição foi marcada para o dia 12 de julho daquele ano. Planejou-se uma jornada dupla entre o White Sox e o Detroit Tigers no Comiskey Park: entre os dois jogos, Steve Dahl acenderia a fogueira com LPs de disco music. A WLUP-FM dedicou a parte nobre de sua programação para promover o evento. Veek bolou um esquema para atrair o público: a entrada custava U$0,98, mais um LP de disco music [nos EUA, os preços dos tickets regulares para jogos de baseball equivaliam, à época, a algo entre U$3,00 e U$6,00 (os ingressos na World Series de 1979 alcançaram U$12,00) e um LP comum era vendido por cerca de a U$7,99 nas lojas do país]. Veek estimara que, com toda a divulgação e o caráter espetaculoso da parada, seria possível atrair cerca de 35.000 pessoas ao estádio – a média de público naquela temporada era de 17.000 torcedores (para uma capacidade de acomodação de 45.000). Qual não foi a sua surpresa quando mais de 60.000 fanáticos resolveram aparecer – muitos, inclusive, sem sequer ter adquirido o ingresso. Veek havia contratado apenas 50 homens para fazer a segurança. Acabaram sendo admitidos no estádio mais de 47.000 pagantes.

O primeiro jogo entre os Sox e os Tigers foi morno e terminou por volta das 20h15. O público aguardava com muita impaciência o ponto alto do espetáculo. Às 20h40, Dahl, vestido com uniforme militar e um capacete, fez sua entrada triunfal, a bordo de um jipe. Ouvia-se por toda parte o mantra “Disco sucks!”. Uma pilha imensa de discos foi montada no meio do campo e, para gáudio geral, explosivos foram detonados e originaram uma pira inacreditável (que acabou, aliás, por prejudicar severamente o palco de jogos, inutilizando-o por semanas). Como os seguranças arrolados pelos Sox estavam guardando os portões, não havia praticamente nenhum obstáculo entre o público e o gramado. Cerca de 7.000 pessoas invadiram o campo, causando confusão: pequenas fogueiras acesas com restos de plástico, tufos de grama arrancados, bases e tacos furtados, algumas brigas e danos gerais às instalações. Às 21h10, o reforço policial chegou e, dadas as condições, o saldo foi extremamente positivo: apenas vinte feridos (dez de forma mais grave) e outros trinta e nove presos.

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Na edição de 22 de dezembro de 1979 da Rolling Stone, Dave Marsh matou a questão a pau: “homens brancos, de 18 a 34 anos de idade, são os que mais tendem a ver a disco como um produto de homossexuais, negros e latinos.” E, dado o desenrolar dos acontecimentos, talvez não seja de se estranhar que, em março de 1980, o Queen tenha alcançado o #1 da Billboard com “Crazy little thing called love”, para ser sucedido por Pink Floyd (“Another brick in the wall”), Paul McCartney (“Coming up”), Billy Joel (“It’s still rock’n’roll to me”) e Olivia Newton-John (“Magic”).

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Resultado de imagem para kkk burning crossEssa movimentação não estava restrita ao mainstream. Primeiro, porque a disco havia alcançado o topo – que o diga o rebolado de Tony Manero. No underground, as coisas não eram tão diferentes; os punks americanos detestavam a música tocada nos clubes da moda e, ainda que por caminhos tortos, alinhavam-se com o movimento anti-Disco [É notório que o punk inglês e o punk estadunidense são muito diferentes, em termos sonoros. Na América, em um arroubo de sinceridade infeliz, Legs McNeil (do fanzine Punk e co-autor de Mate-me por favor) declarou que “os hippies sempre quiseram ser negros. Nós éramos mais ‘foda-se o blues‘, ‘foda-se a experiência negra’. A disco é o resultado de uma união espúria entre homossexuais e negros”. Claro, você tem bandas como Blondie e Talking Heads flertando com a black music e a música para dançar, mas são exceções. É do outro lado do Atlântico que ecos da música negra estadunidense eram mais facilmente encontrados nas canções das bandas punks.]

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Na América, o rock’n’roll foi a música que embalou os anos dourados das décadas de 1950 e 1960. No final dos anos 1970, a saudade de uma “América grande” apertou.

Em 20 de janeiro de 1981, iniciava-se a administração Reagan.

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