Rock

One of the boys

Londres, Inglaterra, 1° de novembro de 1965 (uma segunda-feira chuvosa), aproximadamente 10h da manhã: o telefone toca.

“Hounslow 7353”, atende, sonado, o rapaz de 20 anos.

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O empresário Don Arden, em 1968.

Do outro lado da linha, ruge a voz decidida, com um proeminente sotaque de Manchester: “Aqui quem fala é Don Arden. Ian McLagan está?”

“Sou eu”, respondeu o rapaz, sem muita firmeza. Na cabeça, a dúvida: quem diabos é esse Arden? Era certo que já ouvira esse nome antes. Com toda certeza, era alguém do showbizz.

“Está interessado em trabalho, garoto? Tenho uma banda que necessita de um tecladista”, ofereceu Don. “Você pode vir ao meu escritório lá pelas 15h? Aí, eu lhe explico tudo”.

Ian havia se profissionalizado fazia pouco tempo. Tocara na noite londrina com os Muleskinners (grupo que, certa feita, acompanhara Howlin’ Wolf, em sua passagem por Londres, no palco do Mojo Club) e, havia apenas um dia, demitira-se de uma boa posição como tecladista e guitarrista do Boz People (grupo liderado por Boz Burrel, que, anos mais tarde, alcançaria grande sucesso como baixista do Bad Company). A proposta não poderia ter vindo em melhor hora.

Saindo do metrô (estação Oxford Circus), Ian checou ansiosamente a placa que indicava a localização: Carnaby Street. Umas quadras vencidas e lá estava, em frente à porta identificada pelos números 52/55, logo ao lado da lendária loja de John Michael. Muitos degraus depois, o rapaz se viu diante da recepcionista, em uma antessala decorada com fotos dos grupos empresariados por Arden: The Animals, The Nashville Teens, Small Faces e The Clayton Squares. A moça pediu que aguardasse o chefe e parecia estar bastante atarefada, alternando-se entre as teclas da máquina de escrever, o cinzeiro, o chiclete e o telefone. Ian sequer sabia qual vaga estava sendo oferecida e a recepcionista, questionada sobre isso, nada esclareceu. Algumas pessoas entraram na sala, risadas foram ouvidas e berros também; pessoas saíram, a menina levou alguns papeis para dentro e saiu com outros. O tempo se arrastava e a ansiedade crescia. Passadas duas horas, Ian finalmente foi recebido pelo baixinho obeso e foi convidado a entrar na sala onde, além de Arden, estavam Ron King, Pat Meehan e Bill Corbett, agentes de promoção e managers de estrada.

Os sorrisos profissionais que acompanhavam os apertos de mão protocolares tornavam o ambiente mais intimidador e Ian, corretamente, calculou que tudo aquilo – a espera, inclusive – era um mise en scène necessário para lhe quebrar o espírito e tornar a negociação mais favorável a Arden. Mas, de forma surpreendente para seus 20 anos, o rapaz se controlou e esperou polidamente que as cartas fossem postas na mesa. “Quanto você está ganhando hoje, garoto?”, Don o inquiriu. A resposta exata seria “quase ‎£5 por semana, senhor”; contudo, sem piscar, Ian trucou: “‎£20 semanais”. Arden o encarou por longuíssimos segundos, enquanto chupava seu cigarro com vigoroso apetite e, não antes de uma baforada cinematográfica, propôs: “ofereço ‎£30. Por ora, você estará sob experiência, mas, se daqui a algumas semanas for aprovado, ganhará o mesmo que os outros rapazes do grupo.” A curiosidade apertou: “que rapazes?”. Arden, sem contrair um músculo sequer: “os Small Faces, oras bolas”.

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Small Faces, circa 1965: (da esquerda): Ian McLagan, Ronnie “Plonk” Lane, Kenney Jones e Steve Marriott

Ian mal podia acreditar naquilo tudo. Parecia algo surreal entrar para uma banda da qual já ele já era um fã entusiasmado e que estava pronta para estourar nas paradas (o single de estreia do grupo, “Watcha gonna do about it” fora lançado em setembro daquele ano e alcançara um respeitável #14 na semana anterior), com a agenda lotada de shows e de aparições na TV. E, não menos importante, £30 (equivalentes a quase R$2.000,00 hoje) era o salário semanal de um profissional de escritório bem posicionado, coisa para poucos – só para ter uma ideia, seu pai, mecânico de automóveis, ganhava dois terços desse montante e conseguia manter uma família de quatro pessoas com razoável conforto.

O aperto de mãos selou o acordo e foi a senha para que Steve, Kenney e Ronnie entrassem na sala, fazendo a bagunça habitual. O resto do dia e da noite foi gasto em um luxuoso quarto do Russell Square Hotel, no West End londrino, onde Arden mantinha a banda hospedada. Litros de álcool e pacotes inteiros de cigarros embalaram animadas conversas sobre Muddy Waters, Booker “T” & the MG’s, Tamla Motown e Stax. Na manhã seguinte, Bill Corbett apanhou os quatro e os levou para gastarem rios de libras esterlinas em roupas nas lojas de Carnaby Street. Após o almoço, fizeram uma rápida parada no Sound City, onde adquiriram uma guitarra Fender Telecaster creme para Ian acompanhá-los na execução de “I’ve got mine”, o novo compacto do grupo, no programa “Ready, Steady, Radio”, da rádio Luxembourg (uma fórmula estranha: o show era performado para uma plateia real, mas as músicas eram dubladas).

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Placa comemorativa, inaugurada em 2007, posicionada na parede do edifício localizado no 52-55 Carnaby Street, em Londres

No dia seguinte, sem qualquer ensaio, uma apresentação no Swindon Town Hall: foi só aí que a banda se certificou de que Ian era o cara certo para pilotar o órgão. Nas curvas onde o antigo tecladista do grupo, Jimmy Winston, parecia estar lutando uma peleja épica, transbordava a naturalidade das teclas conduzidas por Ian (à boca pequena, o boato era que Jimmy somente havia sido inicialmente aceito nos Small Faces porque seu irmão tinha uma van e estava disposto a levá-los para toda parte, quando necessário). Como ficou claro naquela noite, a combinação musical era perfeita, para dizer o mínimo. Steve, empolgado, acabou comandando uma longa jam instrumental e, mesmo assim, os meninos e as meninas do auditório foram à loucura.

Semanas se passaram e muitos shows foram feitos até o Natal. Quando não estavam nos palcos, os rapazes tinham trabalho promocional a ser feito, comparecendo a programas de rádio e TV, dando entrevistas para revistas e jornais ou posando para fotos promocionais. Passadas as festas de final de ano, um novo single foi gravado e foi muito bem recebido nas lojas britânicas: “Sha La La La Lee” (lançado em 16.02.1966, alcançou o #3 da parada oficial). “Em janeiro, eu estava com a banda já havia dois meses e estava começando a me preocupar se este arranjo ia ou não ser permanente”, comentou Ian (tradução livre minha, OAJ), em sua autobiografia (All the Rage: my high life with The Small Faces, The Faces, The Rolling Stones and many more. Londres, Reino Unido: Pan Books, 2000, posição 1185 na edição eletrônica para Kindle). “Como me sentia mais próximo a Ronnie, tomei coragem e lhe perguntei qual era o acordo, explicando que Don havia me posto em período de experiência por um mês”, completou. “Do que você está falando??? Claro que você está na banda”, Ronnie foi direto ao ponto. Quando Steve e Kenney tomaram pé da situação, encheram-se de coragem e foram, sem marcar hora, para o escritório de Arden. Fulos, os meninos (à época, Ronnie tinha 19 anos; Steve, 18; e Kenney, 17) não obedeceram o aviso da recepcionista e invadiram a sala do empresário:

“Don, isso não está certo! Ian está conosco já há dois meses. Já fizemos um monte de shows e ele gravou conosco. O que você está fazendo não é justo – ele tem de ser tratado como um igual!”, esbravejou Ronnie para o homem de negócios, que permanecia impassível, sem esboçar qualquer reação.

“Nós não tocamos com ‘músicos contratados’!” – Steve entrou na discussão – “nós somos uma unidade! Ou ele ganha como nós ou nós rompemos com você!”, ameaçou, com confiança, o guitarrista. Don Arden – cujo epíteto era “o Al Capone do rock” – não era conhecido pela tolerância ou pelo amor que mantinha na cavidade toráxica. Pouca gente tinha coragem de enfrentá-lo; ameaçá-lo nunca pareceu uma estratégia inteligente para uma pessoa desarmada. Mas, desta feita, diante de suas estrelas em ascensão, o empresário permaneceu completamente calmo. Mal balbuciou um “ok, providenciarei imediatamente”. Os carinhas deixaram o escritório radiantes. Tinham agido como adultos e garantido uma vitória justa.

Na segunda-feira seguinte, qual não foi a surpresa de Ian, ao receber seu contracheque. Mostrou-o a Ronnie e este lhe deu um tapinha nas costas: “agora sim, hein? Finalmente, você é um de nós!”, festejou o baixista. Ian McLagan, tecladista oficial dos Small Faces, havia recebido seu pagamento semanal: £20.

*

Na manhã do dia 7 de junho de 1965, Steve Marriott, Ronnie Lane, Jimmy Winston e os pais de Kenney Jones assinaram, no escritório de Don Arden, um contrato que estipulava que a banda Small Faces seria por ele empresariada e, contra os serviços prestados, cada membro do grupo receberia £20 semanais, 0,5% dos lucros de gravação e mais uma cota semanal nas lojas de roupas de Carnaby Street. Arden ficaria com 99,5% dos lucros das gravações [os Small Faces obtiveram 18 singles no top 20 britânico entre 1965 e 1968; e lançaram, no mesmo período, três álbuns: Small Faces (Decca, 1966; #3 nas paradas), From the beggining (Decca, 1967; #17 nas paradas) e Ogden’s nut gone flake (Immediate, 1968; #1 nas paradas).] e todo dinheiro movimentado em direitos autorais, shows, merchandise e demais receitas comerciais. Este contrato somente foi rescindido, após anos de batalha judicial, em 1997.

 

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