Rock

Na Trioblóidí

Há alguns dias, remexendo meus empoeirados vinis, deparei-me com um petardo gravado pelo Dexys Midnight Runners: Don’t stand me down, de 1986. Embora estivesse com ele à mão, por conta de seletas memórias (bastante distantes e anuviadas), o que acabei levando aos ouvidos foi o excelente Searching for the young soul rebels (EMI, 1980), o primeiro álbum lançado pelo idiossincrático grupo de Kevin Rowland. É um registro único – a bem da verdade, cada disco do Dexys é incrivelmente diferente do outro (até porque Rowland é o único membro fixo da banda) -, onde, de um modo geral, as faixas são guiadas por vocais esganiçados e emocionantes, conduzidos por guitarras saturadas em válvulas e pontuadas por intervenções malucas de um consistente naipe de metais.

Este LP é um marco fundamental para entender uma parte da cena londrina do final dos anos 1970. Com o fim dos “anos dourados” do capitalismo e o arrocho econômico que abateu as aspirações da classe trabalhadora da ilha, “movimentações” juvenis ressurgiram com força por lá. Uma horda de rapazes e moças bárbaros e sem perspectivas fez ressurgir os “modernistas” – ou, como ficaram conhecidos, os mods –, nas entranhas do punk e da new wave. [Aqui, a determinação, obviamente, não está explicada, mas, acredite, ela existe. Pretendo, algum dia, escrever sobre os “modernistas” ingleses. Há literatura sobre o assunto, inclusive material academicamente relevante.] De repente, centenas de jovens faces se reuniam em antros insalubres para dançar, movidos a comburentes poderosos, como a dexedrina (daí o inusitado nome do grupo de Rowland). Se, na década de 1960, o paladar musical dos mods girava em torno do R&B e da soul music (via Tamla-Motown e Stax-Volt) estadunidenses, nos anos 1970, havia espaço para o reggae e o ska jamaicanos, e, sobretudo, para o chamado northern soul (que, embora surgido na metade final dos anos 1960, tornou-se particularmente popular na segunda metade dos anos 1970). É neste nicho peculiar que a música gravada em Searching… pode ser melhor compreendida.

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Imagem relacionada
Dexys Midnight Runners, 1980: a fase estivadora (Kevin Rowland é o do bigode, logo aí na frente).

Kevin Rowland é neurótico. Dizem que ninguém consegue trabalhar com o cara por muito tempo, por conta de suas obsessões e, sobretudo, pelo autoritarismo. Em 1978, quando formou o Dexys, submeteu todos os músicos a uma rotina rigorosa de 9h diárias de ensaios, proibindo o consumo de álcool e drogas durante os trabalhos. Impôs um figurino específico, cobrava certa atitude dos envolvidos, controlava os arranjos e o repertório com mão de ferro. Em julho de 1979, Bernie Rhodes, empresário do Clash, assinou com o grupo e, sob a encomenda de Rowland, impôs uma agenda lotadíssima para o grupo que, em pouco tempo, passou a ser conhecido entre os jovens ingleses interessados em two-tone (skareggaenorthern soul). Foi Rhodes quem produziu o primeiro single, “Dance stance” (regravada, depois, como “Burn it down”, faixa que abre Searching…), que, a despeito da lamentável produção, obteve um respeitável #40 nas paradas britânicas (em 19.01.1980). O compacto fora lançado pelo selo Oddball Records.

Rhodes costurou com o selo Late Night Feelings, que era distribuído pela poderosa EMI (à época, a piada, nos bastidores do showbizz, era que o acrônimo indicava “Every Mistake Imaginable” ao invés de “Electric and Musical Industries”), um acordo para o lançamento do primeiro álbum. Como empresário do Clash, ele havia conseguido, junto à CBS, inacreditáveis £100.000,00 e diversas outras regalias. Para o Dexys, contudo, fechou um contrato ridículo em que, afora um adiantamento tão exíguo que seria consumido integralmente apenas no tempo de estúdio e de produção do álbum, impunha royalties de parcos 6% das vendas (o habitual na indústria, mesmo para combos iniciantes, era de 10% a 12%). Um Rowland pressionado pelo estômago sabia que estava assinando um contrato ruim, mas era o que havia sido colocado em sua mesa.

Foi uma grande surpresa quando o primeiro lançamento via EMI, o single “Geno”, alcançou o #1 no Reino Unido, em 22 de março de 1980 (permanecendo um total de 14 semanas entre os mais vendidos). Rowland imaginou que seria uma excelente oportunidade para renegociar os termos do contrato, mas uma EMI feliz com a féria prontamente rechaçou qualquer conversa nesse sentido. Os Dexys resolveram, então, tomar uma medida mais drástica.

Em fins de março de 1980, fechados ao longo de quase duas semanas no Chipping Norton Recording Studio, em Oxfordshire, no sudeste da Inglaterra, sob o comando de Pete Wingfield, a disciplina rigorosa e a experiência que a banda havia acumulado se provaram bem sucedidas: as faixas gravadas soavam excepcionais, diferentes de tudo o que tocava nas rádios e, segundo Rowland, “tinham alma”. Quando a última música do álbum estava em processo final de mixagem, o grupo pôs em prática seu plano. Aguardaram até Wingfield sair para tomar um café e, como narra Paolo Hewitt, “trancaram a porta do estúdio, deram um jeito de atrasar o engenheiro e levaram todas as fitas nas quais puderam pôr as mãos. Depois, correram para os carros e as levaram para a casa dos pais de Rowland, em Birmingham” (HEWITT, Paolo. 50 fatos que mudaram a história do rock. Rio de Janeiro, Campinas: Verus, 2013. Posição 3431 na edição eletrônica para Kindle). Logo depois, a banda saiu em uma longa tournée. Ninguém na EMI acreditou no que estava acontecendo: o disco havia sido sequestrado. O pedido de resgate era, evidentemente, um aumento nos royalties. Sem muito o que fazer, restou à gigante do disco ceder: os Dexys conseguiram 9% (e, claro, não renovaram o contrato para outros lançamentos). Searching for the young soul rebels alcançou o #6 da parada britânica (em 26 de julho de 1980) e, em 2006, apareceu em um respeitabilíssimo #16 na lista, publicada pelo New Musical Express, dos “100 melhores discos britânicos de todos os tempos”.

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Resultado de imagem para Searching for the Young Soul Rebel

A bela capa do disco é, ao seu próprio modo, icônica. Ela retrata, em primeiro plano, um jovem carregando malas, algo desajeitado. Durante muito tempo, eu contemplei a foto e nunca soube exatamente o que ela significava.

Há alguns anos, li uma reportagem que explicava seu contexto. O rapaz em questão é Anthony O’Shaughnessy, que, na época tinha 13 anos. Ele era um jovem irlandês, morador de Belfast, que, no dia 9 de agosto de 1971, viu-se sob risco, nas ações da operação Demetrius – uma intervenção militar promovida pelo governo britânico na capital da Irlanda do Norte. O objetivo era acabar com os “problemas”- termo que designava o conflito surgido naquelas paragens no final dos anos 1960 em torno da questão da independência daquele território em relação ao Reino Unido (a disputa recolocava na ordem do dia o velho embate entre católicos e protestantes, cujas raízes remontam às revoluções inglesas do século XVIII). A pretexto de combater o Exército Republicano Irlandês (donde os meninos da rua Paulo tiraram o nome para sua banda), naquele momento, os britânicos impuseram um regime onde prisões de “irlandeses suspeitos” podiam ocorrer sem ordem judicial ou garantia legal, estando autorizado, inclusive, o “uso  de força extrema” (tosco eufemismo para “tortura”) na obtenção de informações que auxiliassem as autoridades a resolver os “problemas”. No caso da foto, tirada em um bairro católico, o que se vê é a fuga da família O’Shaughnessy, em busca de refúgio.

Os Dexys usaram a imagem sem autorização. Reza a lenda que, anos depois, Anthony apareceu em um show da banda, usando uma máscara de papelão que reproduzia sua cara tal qual eternizada na capa do disco.

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