Rock

Road to ruin

“If we had ‘played the game’ and taken all the opportunities thrown at us things might have been different, but the lack of organisation on behalf of our management combined with the complete disarray the band was in after the incidents leading up to the fateful show in Cardiff left us not able or willing to take advantage of our success.”

Ray Davies

(excerto retirado de DAVIES, Ray. Americana – the Kinks, the road and the perfect riff. Londres, Reino Unido: Random House, 2013, posição 865 na versão para Kindle)

Em 19 de maio de 1965, os Kinks tocaram no Capital Theatre, em Cardiff, País de Gales, para cerca de 5.000 pessoas. Na ocasião, o baterista Mick Avory e o guitarrista Dave Davies se envolveram em uma briga memorável. Na noite anterior, os dois haviam chegado às vias de fato (por conta de uma bobagem, envolvendo o fato de Dave ter posto os pés no bumbo da bateria) no backstage do Gaumont Palace, em Tauton, e o baterista havia levado a melhor. O clima nada amistoso era apenas mais um elemento explosivo em uma mistura que envolvia um pouco de vaidade, muita imaturidade, um tremendo cansaço – a tournée encabeçada pelos Kinks e pelos Yardbirds, àquela altura, já havia visitado 15 cidades diferentes em menos de 20 dias -, e punhados generosos de anfetamina regadas à álcool.

Kinks, 1965
Os esquisitos, circa 1965: (da esquerda) Ray Davies, Pete Quaife, Dave Davies e Mick Avory.

Naquela fatídica noite em Cardiff, antes da terceira canção (haviam tocado o megahit “You really got me” e a versão para o sucesso de Chuck Berry, “Beautiful Delilah”), Dave virou para Mick e o provocou: “por que você não bate na caixa com o seu cacete? Vai soar melhor…”. O show acabou ali (e a participação dos Kinks na tour também; foram substituídos pelos estadunidenses Walker Brothers – famosos pelo single “The sun ain’t gonna shine anymore”, canção originalmente gravada por Frankie Valli, que alcançou, na voz dos “irmãos”, o #1 no Reino Unido e o #13 nos EUA, em janeiro de 1966). A reação de Avory foi instantânea: primeiro, lançou um de seus pratos contra a garganta do guitarrista e, errando o alvo, atirou o pesado pedal do bumbo contra a cabeça de Dave, acertando-o em cheio. Com o sangue jorrando, o guitarrista, inconsciente, foi levado às pressas para o Cardiff Royal Infirmary (onde acabou recebendo 16 pontos no fronte); enquanto isso, Mick foi aconselhado a fugir, pegando um voo para Londres ainda naquela noite. De todo modo, o baterista foi alvo de um inquérito policial, onde era acusado de tentativa de homicídio (com 5.000 testemunhas!), e a coisa só não ficou juridicamente mais enrolada por conta da firme atuação dos advogados de Larry Page (então, o empresário dos Kinks) e de uma declaração formal de perdão assinada por Dave Davies.

O que poderia ter sido um incidente “normal” na vida de uma banda comercialmente bem-sucedida se transformou em um baita problema na carreira do combo liderado por Ray Davies. Entre dezembro de 1963 e o final de 1964, os Beatles e os Stones haviam aberto as portas da América para os invasores britânicos; em um mundo consideravelmente “menor”, todo insider do showbizz sabia que a bufunfa de verdade estava do lado oeste do Atlântico. E, ao que tudo indicava, os Kinks eram the next big thing. Nos EUA, até o início da malfadada tournée de 1965 (entre 18.06 e 10.07 daquele ano), o grupo estava construindo uma carreira bastante consistente com os compactos “You really got me” (#7, em 28.11.1964; no Reino Unido, #1), “All day and all of the night” (#7, em 06.02.1965; no Reino Unido, #2) e “Tired of waiting for you” (#6, em 24.04.1965; no Reino Unido, #1). Contudo, a briga em Cardiff devastara internamente a banda e expusera aos promotores uma faceta nada promissora para as vendas (hoje, pode soar curioso, mas, naquele momento, uma postura agressiva ou chocante não era pensada como estratégia de marketing).

De acordo com Ray Davies, a coisa degringolou mesmo no final de junho. Larry Page havia acompanhado o grupo durante os primeiros shows, mas, passadas as primeiras duas semanas de trabalho, optou por retornar a Londres para cuidar de outros interesses (não era segredo que havia perdido fé no grupo após Cardiff). Em seu lugar, ficou Sam Curtis, um manager gente boa, mas muito inexperiente e completamente incapaz de lidar com as questões fundamentais da vida na estrada, como hospedagem, transporte e aluguel de equipamento de som. Para se ter uma ideia do caos, no início de julho, quando chegaram em San Francisco para tocar no prestigioso Cow Palace, não apenas não havia nada armado no palco como também não havia vivalma para explicar o que quer que fosse. O show estava agendado, mas não fora promovido e nenhuma outra providência tinha sido tomada.

Esse foi apenas um entre tantos outros contratempos. Também em nada ajudava o fato de que Ray Davies acabara de ser pai e que sua esposa e filha estavam sozinhas na região norte de Londres, em um apartamento alugado que estava sendo requisitado pelo proprietário. Por essa razão, o líder do grupo, emocionalmente abalado, tornara-se quase um recluso, negando-se a qualquer tipo de trabalho promocional. Ou, pior, quando obrigado às atividades públicas de uma estrela em ascensão, o que se via era um Davies mal humorado, incapaz de gestos amistosos. Isso foi particularmente prejudicial no trato com os representantes da American Federation of Musicians – o sindicato dos músicos americanos. Não é difícil imaginar que a invasão britânica não era especialmente bem vista pela corporação. Reza a lenda que, esperando sua vez para participar do programa de Dick Clark, o American Bandstand, acompanhado por praticamente um quarto da audiência da época, Ray foi provocado por um sujeito na coxia do teatro: “Quando os comunistas tomarem a Grã-Bretanha, vocês vão realmente querer se mudar para cá, não? Sua mulher é lituana… ela é comunista?”. A reação de Davies foi um soco no queixo do infeliz, que era um fiscal do sindicato.

Esse fato, isoladamente, talvez não repercutisse da maneira como repercutiu se os Kinks estivessem em seu melhor comportamento. Contudo, como a tournée era um desastre de organização, a promoção dos shows não havia sido das melhores e, como resultado, os primeiros apresentaram resultados econômicos decepcionantes para os promotores locais. Uma negociação atribuladíssima ocorreu nos últimos dias de junho, com Page mais preocupado em não perder seu avião de volta para casa. Os cachês foram revistos para baixo e, como retaliação, a banda diminuiu consideravelmente a duração de suas apresentações. Confrontados, fizeram pior: em Sacramento, tocaram uma tediosíssima jam de 45 minutos de “You really got me”. [Anos mais tarde, Ray Davies mostrou-se arrependido dessas atitudes, já que, para os membros dos Kinks, que ganhavam um salário semanal de £40 (hoje, equivalente a R$3.000,00), tanto fazia o valor que seu empresário faturava por cada apresentação do grupo.] Denúncias foram protocoladas junto à federação e a sanção foi gravíssima: banimento. Entre agosto de 1965 e outubro de 1969, os Kinks foram proibidos de se apresentar em solo americano.

*

Teria este banimento impactado a obra de Davies e de seu grupo? Teria este evento determinado algo na música popular britânica? Bem, pouca gente discordaria da afirmação de que os Kinks se tornaram a banda mais inglesa da Inglaterra. E é muito difícil imaginar como soariam bandas como, por exemplo, o Jam, o Oasis e o Blur sem sua influência decisiva.

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Um comentário em “Road to ruin

  1. “Isso foi particularmente prejudicial no trato com os representantes da American Federation of Musicians – o sindicato dos músicos americanos. Não é difícil imaginar que a invasão britânica não era especialmente bem vista pela corporação.”

    Parece que governo democrata da administração Johnson, para além de enfrentar protestos contra a leniência com as leis Jim Crow, coexistia ao protecionismo artístico promovido por sindicatos e por outros segmentos artísticos de lobby poderoso. Não parece diferir substancialmente da mesma pressão hoje existente nos núcleos cinematográficos. Interessante observar que as alegações de protecionismo econômico mais modernas são, em verdade, historicamente culturais.

    O desenlace do episódio, com as perguntas sobre a nacionalidade lituana (soviética), também dá boas doses do efeito macartismo nos segmentos mais sensíveis e incautos, que se prolonga em usos políticos atuais.

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