Rock

Barulho eterno

“I had no intention of letting music be anything other than troublesome to people. We really wanted to go out there and annoy people.”

John Cale

(retirado de HOWARD, D. N., “The Minimalists: Brian Eno and John Cale”, in Sonic Alchemy: Visionary Music Producers and Their Maverick Recordings. Milwaukee, WI: Hal Leonard, 2004, p. 168)

O Velvet Underground que realmente me interessa é o que conta com John Cale fazendo contraponto a Lou Reed: barulhos incômodos impedindo a fruição segura de melodias pop perfeitas.

Nos dois primeiros álbuns do grupo, e em especial em White Light White Heat, essa estranha combinação emulava, mais imediatamente, outras tensões que foram muito importantes para estabelecer a crucial influência da banda sobre as hordas posteriores e, sobretudo, para expressar a proximidade do limite criativo do rock. Afinal, de um lado, observa-se o formato típico da canção, com versos, refrões e ganchos, batendo-se contra letras ora bizarras, ora pitorescas; de outro, a rudeza e a monotonia dos ruídos afastam o consumo fácil dos ouvidos incautos. Em um segundo nível, a tensão presente na música do VU é, também, aquela presente entre o experimentalismo cabecista de Cale e a vocação rockstar de Reed – o que, certamente, reflete o eterno dilema entre uma possibilidade artística e um apelo comercial. [E, de repente, em um patamar mais rarefeito, a capacidade de se expressar, por meio do rock, a contradição específica da sociedade moderna. Sei que, neste tocante, estou, de certo modo, exagerando. Mas o que quero dizer é que o uso consciente de sons incômodos no cerne de uma gravação destinada ao consumo de massa (e sua inevitável fruição pelo ouvinte crítico) pode funcionar como um argumento. Que o alcance seja restrito e limitado é algo próprio da simplicidade do formato rock, mas a validade do pensamento aí expressado segue, a meu ver, intocada.]

*

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Em dezembro de 1966, no #3 da Aspen Magazine, foi distribuído um flexi-disc de 7″, em 33 ¹/2 rpm, contendo uma faixa, em glorioso monaural, intitulada “Loop”, composta por John Cale e atribuída ao Velvet Underground. Na prensagem original de The Velvet Underground and Nico, de 1967, esta faixa aparece ao final do lado B, mecanicamente encapsulada para que a repetição acontecesse indefinidamente. ATENÇÃO: em uma primeira audição, a faixa soa simplesmente chata e repetitiva (“loop”, certo?). Na segunda e nas seguintes, também.

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