Rock

O inverno de 1963

Ao sair da estação, Giorgio acelerou o passo. A chuva insistente e fria, como que coroando aquele que havia sido o inverno londrino mais rigoroso desde 1740, era uma boa razão para a pressa, não havia dúvida. Mas o que realmente o motivava era o atraso para o encontro marcado no saguão do Station Hotel (então localizado no nº1 da Kew Road, em Richmond, Londres). Temia perder a chance de alugar o salão dos fundos daquele prédio. Mesmo não sendo um ambiente tão espaçoso, Giorgio julgava ser aquele o local perfeito para sua nova empreitada. Seu antigo bar, o Piccadilly Club, havia fechado nas últimas semanas de 1962, por conta de um contrato de locação muito mal redigido. Não se deixaria enganar, agora.

Papeis assinados, Giorgio Gomelsky, um jovem georgiano de 28 anos, sorriu, com grande alívio. Afinal, não havia sido nada fácil convencer o proprietário de que poderia fazer daquele espaço um negócio de sucesso. Havia muitas razões para isso, mas, àquela altura de sua vida, poucas coisas o assustavam. Tinha emigrado da Geórgia, então território soviético, durante a primeira infância. Desde então, vivera na Síria, no Egito, na Itália e, no final das contas, assumira cidadania suíça. No final dos anos 1940, sua mãe, uma destacada designer de chapeus, fora contratada para trabalhar na capital inglesa. De lá, enviava para seu pequeno Giorgio edições da Melody Maker, que eram lidas com a mesma voracidade que o rapaz dispensava à publicação parisiense Les Cahiers du Jazz. Aliás, desde os 10 anos, quando se encantou pelos programas de rádio na Itália, Gomelsky havia se convertido em um ferrenho aficionado por gêneros da música negra norte-americana. Agora, sentia que finalmente tinha a chance de realizar um grande projeto: um clube de jazz e R&B bem no coração de uma área nobre, onde jovens como ele pudessem apreciar boa música e diversão.

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Giorgio Gomelsky, com um jovem deus, circa 1964

Desde 1959, Gomelsky estava envolvido com o showbizz. Além de uma pequena passagem como baterista de uma banda semi-profissional, havia trabalhado incansavelmente ao lado de Harold Pendleton para criar o “National Jazz and Blues Festival” (que, por vias tortas, deu origem ao atual festival de Reading). Após alguns anos, a relação dos dois tinha se deteriorado – Harold suspeitava que Giorgio desejava “roubar” o público do evento para algo só seu. Por isso, Richmond parecia ser o lugar certo: longe do Soho e dos bares do centro, para além da influência de Pendleton. A aposta de Gomelsky era que a estudantada das prestigiosas instituições locais, especialmente do Kingston Art School, adorariam seu novo clube. O nome? Um compacto de Bo Diddley acabou dando a dica: “everybody are doin’ the craw-daddy!”.

Giorgio estava ciente que o Crawdaddy precisaria de uma estratégia que fosse além de bebida boa e barata. Após matutar um pouco, chegara à ideia de incorporar à casa uma banda residente, que conseguisse cativar o público. Agora, no ano novo de 1963, a burocracia estava resolvida e era preciso encontrar o grupo certo para o clube. Gomelsky não começaria do zero. Já havia algum tempo, trabalhava ocasionalmente com a Dave Hunt Rhythm & Blues Band. Com um par de telefonemas, resolveu a questão: agendou-os para tocar em todos os domingos, em uma temporada indeterminada.

Aquele foi, contudo, um inverno frio pacas. Uma nevasca, no sábado, dia 5 de fevereiro, impediu que Hunt e seu grupo voltassem a Londres, após realizarem alguns shows no norte. Desanimado, Giorgio cogitara nem abrir o clube na noite seguinte, mas a propaganda já havia sido feita e um burburinho estava se formando. O jeito era arrumar um conjunto substituto. Mas, quem?

Foi aí que Gomelsky se lembrou de um jovem loiro chamado Brian. Não muito tempo antes, conhecera-o, por acaso, em um bar. Espantara-se com o conhecimento que o garoto tinha sobre a música negra norte-americana e, mais ainda, com os sons que ele tirava de sua harmônica. Aliás, no verão de 1962, Brian convidara Giorgio para ver um dos primeiros shows de sua recém-formada banda. No flyer que lhe passou, lia-se, singelamente, “O Red Lion Pub apresenta Brian Jones and Mick Jagger and the Rollin’ Stones”.
No aperto, Giorgio sentiu que aquele combo seria capaz de satisfazer o público daquele domingo. O concerto daquele fatídico 6 de fevereiro de 1963 foi a estreia do novo line-up dos Rollin’ Stones: somaram-se a Jones (harmônica, guitarra e percussão), Jagger (vocais), Keith Richards (guitarra) e Ian Stewart (piano), os já experientes Bill Wyman (que substituíra Dick Taylor) e Charlie Watts (proveniente do Alexis Korner Blues Incorporated). A noite foi um tremendo sucesso.

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Crawdaddy Club, 1963, da esquerda: Bill Wyman, Charlie Watts, Ian Stewart, Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards

 

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