Rock

O beijo

I, I can remember (I remember)
Standing, by the wall (by the wall)
And the guns, shot above our heads (over our heads)
And we kissed, as though nothing could fall (nothing could fall)

Excerto de “Heroes” (Bowie/Eno), gravada por David Bowie, no álbum epônimo.

Em julho de 1977, David Bowie deu início aos trabalhos do que viria a ser o álbum Heroes (o segundo da trilogia berlinense). O processo de gravação aconteceu no Hansa Tonstudio, localizado a pouco menos de 500 metros do muro que separava as alas ocidental e oriental de Berlin. “Gente da Deutsche Volkspolizei nos observava com binóculos superpotentes”, comentou o co-produtor Tony Visconti em sua autobiografia (Tony Visconti – the autobiography: Bowie, Bolan and the Brooklyn Boy, Nova Iorque/EUA: Harper, 2007), “foi um período intenso e tenso”. À época, o casamento de Tony (com a cantora galesa Mary Hopkin, mais conhecida pelo hit de 1968, “Those were the days“, produzido por Paul McCartney e lançado pelo selo Apple, dos Beatles) estava em frangalhos e o trabalho na Alemanha não apenas era uma obrigação profissional relevante, mas, também, uma espécie de terapia. Numa noite daquele verão, em um clube de jazz, Visconti se encantou com uma cantora alemã, Antonia Maaß. Interessado, convidou-a para participar de sessões de gravação – o registro está na faixa de abertura de Heroes, “Beauty and the beast“.

Um dia, no estúdio, Bowie estava com alguma dificuldade para finalizar a letra de uma música e pediu para ficar sozinho, para poder se concentrar. Tony e Antonia saíram, então, para um passeio e, após alguns minutos, acabaram sentados em um banco de concreto (instalado na parte ocidental da cidade), localizado bem abaixo de uma guarita de vigilância (erguida na porção oriental) do muro de Berlin. O clima esquentou e logo estavam trocando um beijo. O que ambos não sabiam era que, de uma janela do Hansa, David podia vê-los e, por sinal, esse episódio quase banal ficou eternizado em “Heroes”: a ideia de um casal (que, na letra, é formado por pessoas de lados diferentes da divisória) que se une em meio à separação proposta pela guerra fria foi a pedra fundamental da canção-chave da carreira do camaleão.

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Fripp, Eno e Bowie no Hansa Tonstudio, 1977

A gravação sintetiza aquele momento estético de David Bowie. Sobre uma base bastante tradicional – tocada por Carlos Alomar (guitarra), Dennis Davis (bateria) e George Murray (baixo) -, ergue-se o fabuloso arranjo proposto pela Les Paul de Robert Fripp, com ruídos, notas e riffs inacreditavelmente sustentados por seu amplificador Marshall. Ao fundo, a ambiência criada pelos sintetizadores e osciladores de Brian Eno, como que pilotando o estúdio para ser o seu instrumento musical, dialoga com o krautrock (o título da faixa foi escolhido antes da letra ser escrita e faz referência a “Hero”, dos alemães do Neu!) e confere à canção um sabor especificamente europeu (mais ritmo, menos blues). A performance vocal de David, aproveitando-se do reverb natural da imensa sala de gravação do Hansa, é, provavelmente, uma de suas melhores na carreira. À época de seu lançamento como single, em fins de setembro de 1977, “Heroes” não foi exatamente o sucesso que se esperava – as vendas mornas lhe alçaram ao número 24 da parada britânica e o compacto nem chegou a emplacar nos EUA. Hoje, porém, ninguém ousa duvidar de seu estatuto de “clássico”.

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