Artista: The Charts
Selo/Ano: Suck My Discs, 1996
Produção: The Charts
Notas pessoais: é muito difícil avaliar o impacto que o Charts teve na minha vida. Na verdade, é até doloroso escrever este post – o mais sutil perfume de nostalgia me provoca cãibras estomacais. Mas, há muito que desejava falar sobre este disco e, principalmente, pensar um pouco (muito pouco, na verdade) sobre o período 1990-1992 na minha vida pessoal. Calhou de ser este o momento.

*

Bom, em 1990, eu era um garoto que morava em uma cidade do interior do estado de São Paulo, que sonhava em se mudar para a capital e virar mod. Havia lido em uma edição da Bizz sobre um show que a banda paulistana Faces & Fases havia feito no Dama Xoc, com a participação de Edgard Scandurra nos vocais, tocando um repertório de covers do Who. Por meio do próprio guitarrista do Ira! – de quem eu tinha o telefone, à época -, consegui entrar em contato com o baixista Sandro Garcia e com o guitarrista/vocalista Flávio Telles. Foi aí que fiquei sabendo do fim do F&F e da formação do Charts, com Roberto Thomé nas baquetas e Edu Pedroso na segunda guitarra. Essa formação acabou dividindo o palco com o Esses Caras, minha banda adolescente, em agosto daquele ano. Ainda tenho algumas fotos do evento e acredito que exista um VHS registrando nossas atuações.

Mudei-me para São Paulo na quarta-feira de cinzas do carnaval de 1991. A partir daí, a convivência com os caras me possibilitou conhecer a cena da época – Retrô, Satã, Höelish, Der Tempel e quetais – e formar o Ultimates, ao lado de Fábio Pedroso (irmão do guitarrista Edu, que acabou saindo do Charts e me substituiu quando eu saí dos Ultimates para formar os Movers) e Fábio Barbosa (que viria a substituir Roberto Thomé, após o lançamento de Carbônicos). Minha coleção de discos, especialmente os de soul e R&B, cresceu consideravelmente nesta época. Meu conhecimento sobre a metrópole e sobre outros aspectos relevantes do comportamento juvenil também progrediu bastante. Tudo aconteceu muito rápido e intensamente, de forma que, lá pela metade de 1992, eu já estava envolvido com outros sons, outras batidas e outras pulsações.

*

Vi uma boa parte do repertório de Carbônicos sendo criado. Os Ultimates costumavam ensaiar antes do Charts, na casa do baterista Roberto “Vovô” Thomé e, então, testemunhei a primeira execução de “Vamos dançar em outro lugar” e o seu processo de arranjo e detalhamento (aliás, participei de um videoclip, feito por estudantes de cinema da USP, para a versão demo dessa canção). Lembro de um show do Charts no Espaço Retrô (com abertura do Ultimates), no final do inverno de 1991, em que uma versão primitiva de “Pegue seu parca” foi apresentada. Lembro de uma noite, no balcão de um boteco sujo no baixo Augusta, em que Flávio Telles me contava, animadíssimo, sobre a onomatopeia na letra de “Andando ao seu lado”. Acompanhei com muita atenção os riffs que ele tirava de sua guitarra preta sem marca; foi uma conquista iluminadora quando consegui reproduzir um pequeno lick no acorde A7 que Flávio fazia entre os versos de “Outdoor” (metade do que eu sei tocar foi roubado dele – a outra metade eu roubei dos discos de Steve Cropper, Wilko Johnson e Pete Townshend).

As conversas sobre rock, bandas e artistas, contudo, fluíam muito mais com Sandro Garcia. Seu conhecimento enciclopédico sempre me assombrou. Nos idos de 1991, não havia muitos meios de se conseguir esse tipo de informações e, então, conversar com gente mais preparada era fundamental. E, por outro lado, muitas amizades começaram assim. Talvez a verdadeira importância social do rock seja essa fabulosa possibilidade de se alienar do mundo e encontrar sua identidade entre pares. Naquele momento, um pequeno grupo de mods começou a se formar em torno do Charts; ainda tenho uns flyers de shows da época que evocavam a rixa (britânica) entre modsrockers. Havia, então, um considerável público para as bandas psychobilly, que pululavam especialmente no ABC. Também havia, claro, punks, skinheads e góticos. Cada um desses grupos tinha sua música preferida, suas bandas e ícones.

*

Quando Carbônicos foi lançado, em 1996, eu não fazia mais parte daquela turma. Acompanhei de longe a divulgação, embora tenha visto o Charts em ação no Centro Cultural São Paulo e no antigo Aeroanta, mais ou menos naquela época. Lembro de ter achado o disco bem morno, já que o meu critério de comparação era o que eles faziam ao vivo anos antes. E, a bem da verdade, o álbum carece de uma certa unidade sonora, porque foi gravado em momentos, estúdios e por mãos muito diferentes até, finalmente, ser lançado (até a década passada, colocar um LP no mundo era uma tarefa muito mais cara e complicada). A inclusão da cover de “You’re too much”, dos Eyes, indica que o tempo já era outro, diferente da essência R&B das mencionadas “Outdoor” e “Vamos dançar em outro lugar”. Ao vivo, o Charts já estava tocando uma versão para “Bluebird”, do Buffalo Springfield, que denota, inclusive, uma outra influência (que, na minha opinião, foi aflorar no Continental Combo, banda comandada pelo incansável Sandro Garcia).

*

Ao longo dos anos, quase não mantive contato com Flávio Telles e Roberto Thomé. Em 2006, Edu Pedroso (ao lado de Rodolfo Rufino) chegou a empresariar muito brevemente o Motax, banda que mantive, com idas e vindas, durante alguns anos. Por muito tempo, fui cliente de Sandro Garcia em seu estúdio, o Quadrophenia, um bastião paulistano da resistência subterrânea. Aliás, tive a honra de acompanhá-lo em alguns shows (ao lado do baterista Marcelo Badari), por ocasião do lançamento de seu disco solo, o excelente Enigma Central Park, em 2005.

*

Faz tempo, muito tempo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s