Na canhota · Rock

[Na canhota] Um balanço da luta

“Black Power meant different things to different people, see. To some people it meant black pride and black people owning businesses and having a voice in politics. That’s what it meant to me.” (BROWN, James. The godfather of soul – an autobiography. Boston (EUA): Da Capo Press, 1990, p. 165).

Decidi dar uma pequena atravessada no samba. Mexendo em meus vinis, esbarrei em uma (quase) arruinada cópia de The Revolution Will Not Be Televised (Atlantic/RCA, 1974, 1988), coletânea que reúne pérolas de Gil Scott-Heron. Daí, ficou muito difícil evitar a menção neste espaço, ainda que Gil não seja um roqueiro (definia-se como um “bluesologist”) e a sublime canção que dá nome ao álbum esteja mais próxima ao jazz e ao R&B que ao rock do final dos anos 1960.

Em 1970, o groove e o estilo falado de “The Revolution Will Not Be Televised” eram uma novidade. Aliada à letra (recheada de referências à cultura pop e que ataca ícones “brancos”), soava como provocação. Na boca de um artista negro, que se interessava pela BAM (Black Arts Movement, movimento estadunidense do final dos anos 1960, conectado ao Black Power e ao Nation of Islam, que propunha o estudo/valorização dos temas e formas afro-americanos no teatro, na música, na poesia e na literatura), era caso de polícia.

O problema racial não está, evidentemente, superado nos EUA e nem em lugar algum do planeta. Assim como ocorre com a questão do feminismo em sua luta contra o machismo, o enfrentamento deste preconceito não é necessariamente uma bandeira da esquerda. Aliás, muitas vezes, esse enfrentamento se dá de maneira confusa. Note como na letra de Scott-Heron há espaço para um perigoso maniqueísmo (“The theme song will not be written by Jim Webb, Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink or the Rare Earth”) e para um indisfarçável chauvinismo (“There will be no highlights on the eleven o’clock news and no pictures of hairy armed women liberationists”). Mas, ao mesmo tempo, embora aleatórios, os ataques ao establishment (Nixon, Jackie O, a violência policial, a mídia tendenciosa) e a símbolos do capitalismo (Xerox, Coca-Cola) revelam preocupações que vão um pouco mais além.

[Uma pequena digressão: a confusão a que me refiro, no mais das vezes, é causada pela tentativa de se enquadrar objetivos imediatos da ação política concreta (o fim do “lugar de negro, lugar de branco”, por exemplo) em categorias conceituais abstratas, que se pretendem fundamentos para uma teoria geral. No limite, talvez isso ocorra por conta de uma incoerência inerente à própria coerência: talvez seja uma característica da própria racionalidade patrulhar violentamente suas fronteiras. Se assim for, a aposta em uma emancipação coordenada é tendencialmente furada, tão furada quanto a tentativa de imposição de uma espécie de harmonia social pelos aparatos estatais. Se desdobrado adequadamente, esse argumento conduz à inafastável conclusão de que o totalitarismo também seria essencialmente racional. Afinal, a racionalidade seria a totalidade e a totalidade seria a racionalidade?]

Para mim, a verdadeira nota à esquerda de “The revolution will not be televised” está no choque entre o balanço típico do jazz com a dureza de cintura da palavra declamada. Não se trata, aqui, de um rap: não há “ritmação” da poesia. De fato, o que há é a resistência explícita contra o que se espera desse tipo de levada: o convencional, em 1970, é que negros cantem sobre amor ou sobre dor-de-cotovelo, levando, por meio do stress vocal, as rimas pobres aos limites das notas, sem fugir, no entanto, do enquadramento métrico e melódico típicos. Gil Scott-Heron faz exatamente o oposto. Sua luta contra o verso prisioneiro é similar à luta do negro confinado à negritude. Consciente ou não, esse movimento é mais ousado que qualquer palavra de ordem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s