Rock

Escola do rock

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Os Wholigans: uma banda Pop Art.

O que há de específico no rock britânico dos anos 1960? Esta é uma questão importante para mim (e para outros apreciadores desse tipo de som, imagino), mas ainda não consegui destrinchá-la satisfatoriamente. Sempre que penso sobre o tema, parto da mesma constatação: diferentemente do que aconteceu na América, onde o artista-solo foi o suporte para a música, o combo foi a plataforma preponderante na ilha. Ao que me parece, esse dado é determinante para compreender a característica própria daquela sonoridade. Trata-se, contudo, de uma discussão bastante complexa, até porque é necessário observar que houve ao menos três ondas muito distintas de bandas da british invasion.

Pois bem: naquilo que se poderia chamar de “segunda onda”, há um dado que certamente não passa despercebido para quem gosta das bandas daquele lugar e época. O que John Lennon (Beatles, Dirty Mac, Plastic Ono Band), Pete Townshend (Who), David Bowie (King Bees, Spiders From Mars), Ronnie Wood (Birds, Faces, Rolling Stones), Brian Ferry (Roxy Music), Keith Richards (Rolling Stones, Dirty Mac), Eric Clapton (Yardbirds, Cream, Dirty Mac, Blind Faith, Derek & the Dominoes), Ray Davies (Kinks) e Jimmy Page (Yardbirds, Led Zeppelin) têm em comum em sua formação? Todos eles, e mais um sem-número de artistas que fervilharam a swingin’ London, frequentaram a art school. Esta é uma instituição especificamente britânica, praticamente sem paralelo no mundo.

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Pode soar estranho, mas, acredite, nos anos 1960, à exceção da Turquia, a Inglaterra era o país europeu ocidental com menos jovens matriculados no ensino superior. Normalmente, o destino dos filhos da classe trabalhadora era o ensino técnico, em instituições públicas, que os preparava tanto para o chão de fábrica quanto para toda uma gama de serviços e profissões de escritório. Destas, a art school era a instituição que formava profissionais para trabalharem no mundo da publicidade e do marketing. Artistas relevantes eram professores ou palestrantes e praticamente todos os ramos artísticos eram cobertos nos currículos dos cursos oferecidos.

Sobre a art school, Jim Curtis argumenta que “in the early sixties, it was more than vocational school; it was a lively place tolerant of nonconformity where Pop Artists such as Peter Blake taught. (Blake designed the cover for Sargeant Pepper).” (CURTIS, Jim. Rock eras – interpretation of music and society – 1954-1984. Bowling Green/EUA: Popular Press, p. 180). A instituição oferecia mais que conhecimento: era um ambiente que realmente importava. Era o lugar onde jovens criativos, com interesses e origens similares, estavam reunidos e seus orientadores, dentro de limites institucionais bastante rígidos, esforçavam-se em fazê-los conhecer e pensar em termos artísticos. Não era o reino da liberdade – os alunos mantinham o hábito de fumar escondido nos banheiros, por exemplo. Era o principado da alienação juvenil britânica.

Nos anos 1950, os teenagers dos Estados Unidos da América puderam expressar sua individualidade e se rebelar contra a geração de seus pais consumindo toda sorte de mercadorias lícitas e ilícitas que abundavam nas gôndolas. Puderam ouvir rock’n’roll na rádio e dançar a valer, até mesmo nos bandstands promovidos pelos canais de TV. Puderam comer hambúrgueres no drive-in, entre um amasso e outro no banco de trás de um rabo-de-peixe. Puderam errar pela imensidão das estradas que cortam aquele país. Mas, do outro lado do Atlântico, a vida não era tão farta e a chuva nunca parava de cair. Nos anos 1960, os jovens ingleses sonhavam em ser americanos (claro, o “jovem americano” idealizado; é curioso notar que, nos EUA, à época, o rock’n’roll era coisa do passado). Os youngsters britânicos tiveram acesso tardio aos discos de bluesR&B, que formavam a base sônica daquela música libidinosa, bem como a outras mercadorias interessantes, lícitas e ilícitas. O tráfico intenso de novidades que descambou na formação de todo uma geração britânica de novos músicos ocorreu, basicamente, nos portos e nos corredores das art schools.

Noves fora, uma primeira hipótese é que a art school não era uma mera estrutura material apropriada para formar artistas; era uma espécie de plataforma social que permitia que grupos criativos se formassem. Mas, embora esse aspecto seja muito relevante, ele, isoladamente, não seria suficiente para explicar por quais razões bandas de rock relevantes foram formadas por influência daquele ambiente e, mais importante, precisamente naquele momento da história. Para tentar responder essa indagação, antes de mais nada, o que me parece ser essencial é perceber que nas art schools dos anos 1960 as artes plásticas, os textos, a moda, a música e as imagens eram pensados como bens estéticos. O que se praticava/ensinava na art school era a Pop Art.

raison d’etre da Pop Art é a estetização da vida cotidiana. Mas, nesse universo, o que interessa não é o readymade, apenas; é a noção de que, em termos culturais (e não somente o objeto de arte), “tudo” era possível e relevante. O rosto estampado de Marilyn Monroe é uma obra tão importante quanto o sorriso da Gioconda; a identidade visual da lata de feijões Heinz é uma declaração artística tão necessária quanto o teto da capela Sistina; as estórias em quadrinho são uma expressão tão dramática quanto as fábulas de Esopo. Quanto mais novo e original, melhor. Nesse amplo quadro, a criação tem a ver com autenticidade, com questionar os cânones, com a coragem necessária para contestar a ordem posta. A meu ver, essa posição funciona, para o jovem britânico, de modo similar à liberdade de consumo para o jovem norte-americano. Por meio da arte – dessa formulação específica de arte -, era possível romper com os pais e, principalmente, deixar o trauma da guerra para trás. Ora, assim, o rock é uma declaração artística culturalmente relevante e uma maneira de chocar a velha guarda; é uma expressão de liberdade e é também um negócio (na época, bastante promissor). Os Beatles, em 1966, eram maiores que Cristo.

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Usar o rock’n’roll americano como base para a música popular juvenil na Inglaterra era uma ideia que ocorrera a muitos, estivessem matriculados em uma art school ou não; mas fazer do rock algo hip, com um sabor autenticamente britânico, capaz de sustentar toda uma cena e estabelecer uma supremacia comercial/cultural, bom, isso não ocorreria apenas porque certos meninos se interessaram em pegar em guitarras para fazerem uma “revolução” (na indústria, entenda-se). É preciso, claro, levar em consideração um grande número de fatores; só para citar alguns: o sistema de classes britânico e as duras imposições do período do pós-guerra, que demandavam uma determinada política educacional e de geração de emprego; o empenho econômico dos países ocidentais na reconstrução do mundo ocidental, face ao espectro que rondava a Europa; o baby boom; a tradição liberal consolidada há mais de três séculos; a proximidade cultural com os EUA. Mas, por fim, se a art school fosse apenas uma instituição tecnicista, que se concentrasse somente em ensinar os estudantes a reproduzir traços e imagens ou a compor jingles, é muito provável que não fosse o celeiro de tantos artistas de enlevo durante aquele período. Numa figura maior, tenha-se em conta que ela também se materializou nas minissaias usadas por Twiggy, no charme das aventuras de James Bond, na elegância do Mini Cooper e, sobretudo, na dramaticidade da Union Jack. Deu também no rock.

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Gustav Metzger, em Londres, 1961: pintura com ácido clorídrico

Pete Townshend, por exemplo, nunca esqueceu o impacto da palestra que o artista alemão Gustav Metzger proferiu na escola de arte de Ealing, por volta de 1964: a “arte autodestrutiva” foi inspiradora para que os hooligans de Shepherd’s Bush destruíssem sistematicamente seus equipamentos ao final de suas apresentações. Circa 1966, o Who, aliás, intitulava-se, uma banda Pop Art.

 

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