Na canhota · Rock

[Na canhota] Estrogênio e capital

Quando as bandas riot grrrls começaram a despontar, em meados dos anos 1990, confesso que não prestei muita atenção. Não por chauvinismo – quero crer -, mas porque, à época, eu realmente não estava muito interessado em novas bandas indie/punk/hardcore americanas. Aliás, só para lembrar aquele período, o grunge, do mesmo modo, não havia me interessado (e, sim, até hoje não me seduzo por esse baita saco de gatos). Foi só há alguns anos (e apenas porque decidi estudar o fim da indústria fonográfica e o consequente declínio do rock) que parei para ouvir grupos daquele período. Claro, acabei encontrando bandas e discos muito legais. Daí que, dando sequência à série de combos gauche, escolhi falar brevissimamente sobre o Sleater-Kinney.

Banda americana, oriunda da região de Washington, era formada, originalmente, por Corin Tucker (vocais e guitarra), Carrie Brownstein (vocais e guitarra) e Lora MacFarlane (bateria) [Janet Weiss substituiu MacFarlane em 1997, por ocasião do lançamento do terceiro álbum do grupo, Dig me out]. Para Robert Christgau, “(…) they were always tumultuous – a storm of longing, fury, aspiration, solidarity, and indomitable emotion whose early focus on sexual politics broadened into relationship songs that maintained their feminist edge because the frontwomen thought and felt so subtly (…) Their guitars battled and meshed in a bravura model of cooperative competition, and Brownstein was a clear, clever singer. But their sound was dominated by Tucker’s loud, vivid vibrato. Compared to most great bands, Sleater-Kinney make lousy background music. Usually, receding into the background is a function of groove, and Weiss isn’t a groove drummer. She’s a beat and noise drummer–a pure rock drummer devoid of swing or funk and not all that interested in simple punk timekeeping.” O vídeo acima bem confirma essa descrição.

A banda foi inicialmente ativa entre 1994 e 2005, período que rendeu sete álbuns (dos quais destaco o mencionado Dig me out, de 1997, e os “opostos” One beat, de 2002, e The woods, de 2005). Voltaram com No cities to love, no início do ano passado. [Vale a pena dar uma olhada no clipe de Courtney Barnett para “Elevator operator”, rapidamente comentado por essas plagas. As meninas aparecem por lá (mas estão presentes mesmo é no som da australiana).]

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É sempre importante lembrar que existem pouquíssimas mulheres em bandas de rock – ainda menos bandas exclusivamente femininas. Nas entranhas do negócio, há menos ainda: diga, de prima, o nome de uma mulher que tenha produzido um álbum de rock relevante. É preciso parar para pensar, certo? É impossível negar que há um problema de gênero rolando por essas plagas. Primeiro, o rock nasceu em uma América onde as mulheres eram explicitamente submetidas; segundo, a opressão ao gênero feminino está posta na natureza sexista desse tipo de música. Por fim, algo muito, muito, mas muito relevante mesmo. O rock, como venho argumentando há anos, é a primeira expressão musical especificamente industrial e, como tal, repõe uma questão fundamental na crítica ao modo de produção capitalista: como a forma social do valor é externa (que “envolve e recobre” as coisas, isso é, confere àquilo que é mera utilidade um significado socialmente concreto na relação de troca), abstrata (algo que se impõe como uma lógica que estrutura hierarquicamente os valores sociais e, desse modo, determina prioridades na ação concreta das pessoas) e real, certas crenças, dogmas e preconceitos, mesmo aqueles remanescentes de outros momentos históricos, podem perfeitamente ser harmonizados com a reprodução do mecanismo de autovalorização progressiva do capital. Nesse sentido, o machismo não é necessariamente contraditório com a igualdade formal, que é o princípio organizador da sociedade burguesa. Logo, certos feminismos também não propriamente anti-sistema. [As questões de gênero e raça são, desde sempre, pedras no sapato da crítica social fundada no marxismo.]

Mais mulheres no rock – seja no campo dos negócios, seja empunhando guitarras – não é necessariamente sinônimo de rompimento com qualquer ordem dada. Mas, considerando a tradição e o cenário atual, mais diversidade (sexual, racial, cultural, econômica) é uma condição necessária a qualquer pretensão de rebeldia.

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Em tempo: o Pussy Riot acaba de lançar uma nova canção/clipe: “Straight Outta Vagina”. Trata-se de uma resposta ao comentário lamentável do lamentável Donald Trump acerca de suas proezas galanteadoras.

Só para jogar gasolina no incêndio, note que, no discurso das meninas, “the owner of vaginas is not some narcissistic stupid orange ape who’d claim that he could easily grab women by their pussies. The owner of vagina is a woman.”

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