Na canhota · Rock

[Na canhota] Espetáculo sueco

Nessa sequência de seis ou sete posts que pretendo dedicar às bandas de esquerda, não quero incluir “obviedades” como o Clash ou o Rage Against the Machine. Não se trata de qualquer tipo de elitismo, mas, sim, de uma intenção sincera de apontar obras pouco conhecidas ou que estejam, de alguma forma, esquecidas (ou caindo no esquecimento). The (International) Noise Conspiracy se encaixa nesta segunda hipótese, acredito.

Se você acompanhou o rock dos anos 1990, certamente ouviu algo de T(I)NC, banda sueca com influências punk e garageiras. Veja o vídeo abaixo, para refrescar a memória.

Formada, por volta de 1998, em Umeå, a banda contava com os vocais de Dennis Lyxzén, a guitarra de Lars Strömberg, o baixo de Inge Johansson, a bateria de Ludwig Dahlberg e os teclados de Sara Almgren. Durante os dez anos de carreira, a sonoridade do (I)NC conheceu nuanças importantes, mas a base de sua música (a velha combinação melodia/peso/velocidade) meio que se manteve praticamente a mesma. As teclas conduzidas por Almgren eram um diferencial importante, que acentuava, em termos timbrais, a influência 60’s [é curioso como as bandas da “invasão escandinava” dos anos 1990 recuperaram o garage rock, inclusive visualmente, embora com um acento próprio] e, de maneira mais sutil, da soul music (mais especificamente, o hard soul típico dos artistas da Stax/Volt). O resultado era rock “para dançar”, bom para a pista, mas que nem sempre deixava clara a existência de uma posição política contundente. Em termos mais abstratos, o projeto estético da banda pode ser descrito pela máxima dos Tupamaros: “¡O Bailan todos, o no baila nadie!”: na proposição do grupo, sua música só é artisticamente válida quando tomada no contexto mais amplo de uma crítica social específica.

Mas a referência à guerrilha uruguaia era apenas uma nota em um buquê mais complexo. Nas palavras de Lyxzén, o (I)NC buscava combinar “Elvis Presley e Che Guevara” (ideia originalmente cunhada por Phil Ochs, cantor de protesto norte-americano, dos anos 1960). Ideologicamente, declaravam-se inspirados pela Internacional Situacionista (conforme informam nas notas de seu primeiro disco, The first conspiracy, de 1999). Eram entusiastas dos trabalhos de Raoul Vaneigem e, especialmente, de Guy Debord – eventualmente, as ideias de ambos apareciam em uma letra ou outra.

Se a pretensão era aparecerem no contexto do espetáculo – uma relação social social que necessariamente media o conhecimento da realidade -, foram muito bem-sucedidos. Mas, se o objetivo era romper com a identidade (psicossocial) entre indivíduo e sociedade por meio de intervenção artística, outras bandas foram mais além que essa conspiração internacional.

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