Resto · Rock

Na canhota

Durante os anos 1970, Jon King e Andy Gill eram estudantes da Universidade de Leeds, na Inglaterra. Nos intervalos das aulas – nutriam especial interesse pelo trabalho do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, conhecido, no meio acadêmico, como “teoria crítica” – e, entre um pint e outro, planejavam formar uma banda. Havia pouco, ambos tinham se embasbacado com a tournée encabeçada pelos Pistols, em 1976; num átimo, vislumbraram o futuro: no future!

Foi em um ébrio passeio noturno que um amigo (membro de uma outra banda sinistra, os Mekons) batizou o combo em gestação: Gang of Four, apelido dado à facção política liderada por Jiang Qing, esposa do então recém-falecido Mao Tse Tung. [A gangue dos quatro, na China, reunia, além de Qing, Yao Wenyuan, Zhang Chunqiao e Wang Hongwen. Foram importantíssimos durante a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, mas, com a morte de Mao, perderam espaço na luta política no interior do Partido Comunista e acabaram presos.]. Com King nos vocais, Gill na guitarra, Hugo Burnham na bateria e Dave Allen no baixo, empunhando uma bandeira “neo-marxista”, o GoF rapidamente se tornou uma sensação no circuito alternativo. “Damaged gods”, o primeiro single, lançado em 1978, foi imediatamente adotado por John Peel, em seu lendário programa de rádio.

“There was something on the Gang of Four’s collective mind, picked up from books, painting (Manet ‘s especially), movies (notably Jean-Luc Godard’s Numero Deux), not-so-fast R&B (George Clinton’s Parliament-Funkadelic), and Leeds street politics”, argumenta Greil Marcus, com a habitual precisão (e alguma generosidade). “What was on their mind was the notion that everyday life – wage labor, official propaganda, the commodity system, but also the way you bought a shirt, how you made love, the feeling you had as you watched the nightly news or turned away from it – was not ‘natural’, but the product of an invisible hand.”

O GoF faz parte do restrito olimpo de criadores do pós-punk, tendo estabelecido parte importante de seus elementais. Musicalmente, a despeito da tosquice técnica dos envolvidos, seu som revela um raciocínio; oras, há um projeto estético original em curso: o tal “neo-marxismo” aplicado ao rock. O vídeo abaixo, “To hell with poverty” (canção registrada no álbum Another Day/Another Dollar, de 1982), é um bom exemplo disso. Tudo começa a partir da “angulosidade” dos ataques de Gill, fundada sobre sua canhestra noção de acordes e sonoridades. Andy parece apontar para um ritmo e um determinado encadeamento de acordes, mas os timbres e os ruídos não deixam claro se essa tendência se concretizará na música. Eis que Burham e Allen iniciam seu trabalho: estabelecem a base sobre a qual guitarras e vozes serão, enfim, sobrepostas. Para surpresa do ouvinte, esta base é funkeada e repetitiva: não apenas nega a tendência indicada na introdução como, também, está em “oposição” aos golpes da guitarra de Gill e ao canto de King. A letra acentua: as coisas não vão bem no mundo e a promessa de felicidade não é senão um engodo.

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Programei, para os próximos dias, posts (rápidos e similares a este) sobre bandas (mais ou menos obscuras) que assumiram posição à esquerda no espectro político.

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