Rock

Mister Eco

Legendary music producer Phil Spector (c. early 1960s), subject

Kent Hartman narra, no último capítulo de seu The Wrecking Crew: the inside story of rock’n’roll’s best kept secret (Nova Iorque: Thomas Dunne Books, 2012, 292 pp.), um evento interessante sobre a arte de produzir canções pop. Em uma noite de dezembro de 1992, Phil Spector reuniu sua velha gang de músicos no Studio 56, em Los Angeles. Havia muito que o lendário produtor não dava uma dentro; muitos, não sem razão, consideravam-no carta fora do baralho, ao menos em termos comerciais. Já à época, sua reputação de maluco armado (que foi, infelizmente, confirmada com o assassinato de Lana Clarkson, em 2003) prevalecia sobre o reconhecimento de seu talento.

Nos idos dos anos 1960, o usual, para o padrão da indústria fonográfica ocidental, era gravar a base da canção com todos os músicos tocando ao vivo. Gerava-se, assim, uma pista de gravação na fita magnética, à qual eram adicionadas outras (poucas) com os vocais e os eventuais solos. A busca por novas sonoridades, alinhada com o desenvolvimento tecnológico, determinou mudanças sucessivas nas técnicas de registro; a “filosofia de gravação”, por assim dizer, variou em um ritmo tal que, em pouco mais de dez anos, Spector – talvez o maior e mais bem sucedido produtor americano entre 1962 e 1965 – havia se tornado comercial e sonoramente irrelevante. Sua “técnica”, conhecida como wall of sound, consistia, grosso modo, em microfonar todos os instrumentos e colocar todos os músicos juntos para tocar o arranjo combinado, tudo de uma só vez. Isso exigia uma sala enorme, capaz de acomodar, no mínimo, uma dúzia de instrumentistas (mas, geralmente, mais), que, por sua vez, gerava uma pressão sonora impressionante nos então toscos microfones disponíveis. Ainda, com tanta gente envolvida, a dinâmica do arranjo ia se transformando ao longo da sessão, de modo que cada passada era, mesmo sutilmente, diferente. Para valer, a mágica acontecia no aquário, onde, durante a execução, Phil orientava cirurgicamente o movimento dos dedos do engenheiro até que os faders da mesa de som estivessem nos níveis que seus ouvidos desejavam. Até esse momento, o produtor realmente produzia: era ele mesmo um artista. A “parede sonora” que Spector criava (com muito reverb) era sinuosa, cheia de nuances e incrivelmente apropriada para os sulcos grosseiros dos compactos de sete polegadas que tocavam em hi-fi’s primitivos. Como “técnica”, o wall of sound era um trabalho artesanal, apoiado, sobretudo, no raro talento de Phil.

Melhores equipamentos, mais precisão. Mais pistas de gravação permitem detalhar minuciosamente cada som, singularizando-o. Os produtores passaram progressivamente a se preocupar com a possibilidade de gravar isoladamente um instrumento (ou um pequeno grupo de instrumentos) de cada vez, ampliando seu controle específico sobre o registro sonoro. O impacto das novas possibilidades foi brutal. Para começar, o nível técnico geral da execução musical se elevou consideravelmente; afinal, aparelhos de som mais sofisticados também tornavam imperfeições e limitações mais evidentes. Concomitantemente, engenheiros se tornaram mais importantes, porque as novas tecnologias demandavam maior conhecimento específico e, desse modo, viraram figuras-chave para que o produtor conseguisse alcançar o resultado imaginado. No modo de gravação pista-a-pista, o momento crucial passou a ser a fase de mixagem (em que os sons de cada pista são misturados e nivelados). Enfim, durante os anos 1970, na área fonográfica, o arquiteto se fundiu com o engenheiro – a beleza passou a ser milimetricamente gerada.

Naquela noite, Spector, uma vez mais, orientou os dedos do engenheiro. Durante três horas, a trama das guitarras, peles, teclados e sopros foi sendo moldada em configurações diversas. Quando Phil ouviu o que queria, ordenou: “valendo!”. A gravação transcorreu, aparentemente, como nos velhos tempos. Ao final, extremamente excitado, ouviu a fita com o take que alcançara seu padrão e quase teve uma síncope: para onde, diabos, havia ido o reverb que tão meticulosamente ele havia obtido? “Onde está o eco, porra!?”, berrou, na máxima capacidade pulmonar.O jovem engenheiro, displicentemente, nem coçou o cocoruto. Parecia a coisa mais evidente do universo: “ué, majestade, a gente só gravou os instrumentos ‘puros’. Os efeitos, a gente adiciona só na mixagem, correto?”.

Foi aí que Phil entendeu. Nem havia o que explicar ao menino. Derrotada sua filosofia, achou melhor bater em retirada. Pagou cada um dos envolvidos com cheques de seu talonário pessoal, um tapinha nas costas e recomendações ao pessoal em casa. Sem dar bandeira, reconheceu: o jeito era tocar um tango argentino.

 

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