Rock

O filho do homem

Há alguns meses, o Claypool Lennon Delirium vem fazendo barulho:

Formada por Les Claypool, do Primus, e por Sean Lennon, a banda faz uma curiosa mistura de psicodelia, groove e space rock. Monolith of Phobos (ao lado de Smash the clock, álbum que Bruce Foxton lançou uns meses atrás) tem sido o disco de 2016, para mim. Claro, Claypool exagera um pouco em certas passagens (e em certas letras, que me incomodam por conta do exaustivo uso da “fórmula Primus” de inventar personagens escabrosos com o intuito de assombrar menininhas católicas), mas seu baixo percussivo dialoga bem com as texturas limpas da guitarra de Lennon.

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Sean Lennon é um guitarrista talentoso e, acima de tudo, tem bom gosto; se há, em seu trabalho, alguma influência clara dos besouros de seu pai, ela está na inteligência musical. Seus licks são construídos com notas por vezes inusitadas, os efeitos de sua guitarra acentuam a beleza dos fraseados e há sempre alguma surpresa guardada na manga, algo inesperado para se ouvir. Não é um cara técnico. Sua escola, certamente, foi o vinil.

Para além da parceria com Les Claypool, Lennon co-lidera, com Charlotte Muhl, o Ghost of a Saber Tooth Tiger. É uma banda consistente – veja/ouça o vídeo abaixo – e o repertório é, de muitas maneiras, promissor. É rock e é psicodélico sem soar anacrônico. E é, também, despretensioso – tanto quanto sua herança lhe permite.

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A música de Sean prova o óbvio: talento não é genético; é uma virtude construída. Claro, a herança ajuda e muito – um berço cultural, acesso a bons instrumentos e estúdios, contatos -, mas, sem sangue, suor e lágrimas, ninguém desembarca na Normandia. O lance é que Lennon não copia Lennon e, nessa maldita escuridão desses tempos pós-vinil, isso é quase um atestado de qualidade.

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Grana com boa vontade dá samba.

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