Rasteiras

Três pontos…

Guitarras. Eu gosto de canções em que as guitarras estão na linha de frente.

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No ano passado, a australiana Courtney Barnett lançou seu primeiro álbum, o (bastante) bom Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit (Milk! Records). A estratégia comercial privilegia o lançamento regular de vídeos (engraçadinhos) interessantes, “quase” que emulando a relação que os artistas da antiga indústria fonográfica mantinham com o rádio (uso as aspas porque mídias como o YouTube e o Vimeo não são, nem de longe, similares às FMs, que foram tão vitais, nos EUA e Europa, para o rock).

O vídeo promocional de “Elevator operator” traz easter eggs legais. Esta canção é a que abre o mencionado LP e é um belo cartão de apresentação da musicista: sonoridade indie, apoiada em guitarras limpas (mas gentilmente saturadas em válvulas), bateria “reta e direta” (sob o comando seguro de Dave Mudie) e baixo rombudo (cortesia de Bones Sloane); o registro de estúdio conta, ainda, com o teclado que faz a cama, permitindo que o fio de voz soe confortável para contar a estória de “Oliver Paul, 20 years old/Thick head of hair worries he’s going bald”.

É só uma aposta, mas, ao que me parece, há um começo aqui. Para que isso não soe completamente gratuito, vale ver/ouvir este outro vídeo.

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Vem aí Head Carrier (previsto para setembro), sexto disco de estúdio dos Pixies (o primeiro sem Kim Deal, com Paz Lenchantin beliscando as quatro cordas). O aperitivo, “Um chagga lagga”, já era conhecida há pelo menos um ano e meio (Black Francis já havia disponibilizada uma demo da canção para alguns fãs no halloween de 2014 e a banda vem tocando sua própria versão desde meados do ano passado). Soa encorpada, com um contraste interessante entre as guitarras de Francis e Santiago; Dave Lovering desce a lenha nas peles dos tambores e os vocais de Paz não são nostálgicos.

Bem, bem, bem… Parece que eles conseguiram novamente.

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A “segunda melhor banda do mundo” (na avaliação de Noel Gallagher), o Teenage Fanclub lança novo single, “I’m in love”, anunciando o novo álbum (o décimo), Here (como Head Carrier, programado para setembro próximo). Na bela canção, estão presentes robustos power chords, extraídos a partir das guitarras saturadas de Norman Blake e Raymond McGinley, uma melodia etérea e vocais tratados cuidadosamente. Em uma palavra, powerpop. E dos bons.

https://soundcloud.com/theepema/iminlove

Inferno

Um mapa do inferno [parte 3]

Nunca, em nossos 180 anos de história, os EUA estiveram tão preocupados – ou tão confusos – com nossos adolescentes.
Bill Davies, revista Colliers, 1957

“Up in the morning and out to school
The teacher is teaching the golden role
American history and practical math
You study them hard, hoping to pass
Working your fingers right down to the bone
The guy behind you won’t leave you alone
(…)
Soon as 3 o’clock rolls around
You finally lay your burdon down
Close up your books get out of your seat
Down the halls and in to the street
Up to the corner and round the bend
Right to the juke joint you go in
Drop the coin right in to the slot
You gotta hear something that’s really hot
With the one you love you’re making romance
All day long you been wanting to dance
Feeling the music from head to toe
Round and round, and round you go
(…)
Hail! Hail! Rock ‘n’ roll
Deliver me from the days of old
Long live rock ‘n’ roll
The feeling of drums loud and bold
Rock! Rock! Rock ‘n’ roll
The feeling is there body and soul”
(excerto de “School days”, escrita por Chuck Berry e por ele gravada em 1957)

teens

Para muitos norte-americanos, os anos da administração Eisenhower (1953-1961) devem ser lembrados como uma verdadeira “golden age”. Superados os efeitos da depressão econômica dos anos 1930 e vencidas as agruras dos campos de batalha, era difícil, para o cidadão médio, não se orgulhar da condição de líder do mundo ocidental que seu país exercia naquele período. Pode-se, cinicamente, indicar que a destruição da guerra mundial se concentrou na Europa e no Japão, e que o território estadunidense se viu praticamente livre (exceção ao Havaí) do horror. Mas – venhamos e convenhamos –, um único homem morto em combate já é, sem si, uma tragédia. O que quero dizer é que não há que se duvidar do sacrifício humano assumido pelos norte-americanos naquela ocasião e, assim, o otimismo do homem médio àquela época era, inclusive, moralmente justificável. A oferenda de sangue elimina o pecado do prazer.

Os filhos daquela geração que foi perdida na luta contra o Eixo foram, compreensivelmente, bastante “mimados” a partir de 1945. O potencial industrial do país era monstruoso – cerca de 1/3 dos bens manufaturados no mundo à época eram made in USA – e assim também sua capacidade agrícola. No contexto de ações alinhadas com o (estertor do) New Deal e tendo à frente uma “cenoura” chamada URSS (de certo modo, a principal “vencedora” da guerra), o resultado foi um período de bastante fartura para a classe média norte-americana. Nesse ambiente, talvez seja possível sustentar que dois princípios se tornaram paradigmáticos no discurso patriótico estadunidense: um, a liberdade individual é o direito fundamental hierarquicamente mais importante; e, outro, o gozo da liberdade se expressa no consumo de bens materiais, ou, o que é basicamente o mesmo, no prazer sensual.

Na década que se seguiu à detonação de Enola Gay, os casamentos e os nascimentos se multiplicaram exponencialmente – um verdadeiro boom populacional, sustentado numa economia dinâmica e em um projeto de sociedade que confiava em valores protestantes, na universalização do ensino formal e em uma cultura industrial. Havia nos EUA, em 1956, mais de 13.000.000 de jovens (para uma população total de 155 milhões) e praticamente todos estavam matriculados em um estabelecimento de educação e confessavam alguma fé cristã. Havia, assim, uma linha comum e geral de formação de indivíduos: uma geração construída uniformemente, dividindo as mesmas expectativas, interesses e, sobretudo, pronta para consumir.

Assim, além de constituir um formidável auditório, donde se poderia construir uma unidade espiritual laica, à época, a juventude norte-americana também formava um exército capaz de movimentar – estima-se – coisa de US$7 bilhões (para um PNB da ordem de US$320 bilhões). Eram um público consumidor fabuloso, especialmente ao se considerar que o grosso desse potencial estava voltado essencialmente para os bens “supérfluos” e, evidentemente, para o entretenimento que fosse adequado ao balanço dos valores sociais transmitidos nos bancos escolares. Para se ter uma ideia superficial do que isso significava naquela época, um estudante da high school conseguia amealhar, entre salário e mesada, algo entre U$8 e US$10 semanais. Considerando os preços de um pacote de chicletes (5 cents), uma barra de chocolate (5 cents), um refrigerante (10 cents), um hamburger (30 cents), uma bola de sorvete em cone (15 cents), um ingresso de cinema (50 cents), é possível assumir que a indústria fonográfica estava à beira de uma verdadeira revolução. No que lhe respeita diretamente, um single de 7” e 45 rpm custava US$1 (um LP era vendido a US$3), um rádio transistorizado podia ser adquirido por US$15 e comprava-se um stereo hifi pela módica quantia de US$25. Mais que qualquer outra faixa etária, eram os jovens americanos que deveriam ser convencidos a gastar suas economias nesse ou naquele nicho.

Os teenie boppers estavam prontos para consumir qualquer tipo de mercadoria que lhes proporcionasse prazer. É, então, nesse momento que a cultura se torna pop: moda e design, literatura, seriados, cinema e, claro, rock’n’roll. A primeira promessa do novo tipo de música é rock’n’roll, uma expressão que poderia ser traduzida como “dançar e se divertir”, mas a “diversão”, nesse caso, era um conceito em aberto, ainda por ser construído. No imaginário adolescente da golden age, dançar, divertir-se e consumir eram as realizações mais palpáveis da liberdade. O sonho americano do adolescente branco, no mais, podia ser materializado em amassos quentes no banco de trás de um rabo-de-peixe, na penumbra segura de um drive-in, ao som de um Santo & Johnny tocado em volume capaz de fazer frente aos barulhos mais inconvenientes.

Esse cenário – que, para todos os efeitos, era um objetivo imediato “de vida” –, tornou-se, de certo modo, uma ferramenta muito importante no processo de naturalização do trabalho assalariado para aquela geração. Em outras palavras, encaixou-se perfeitamente na lógica econômica daquela sociedade e, desde então, não mais saiu de cena. A ideia, tão arraigada no imaginário da classe média norte-americana, de que o esforço pessoal é condição de liberdade, também revela um traço da religiosidade protestante, do sacrifício que purga o pecado e recompensa (materialmente) o fiel. “I’ve been working all the summer just to try to earn a dólar (…) when I went to my dad the other day/he said: ‘you can’t use the car ‘cause you didn’t work late’/sometimes I wonder what I’m gonna do/but there ain’t no cure for the summertime blues”, pontuava Eddie Cochran, provavelmente sem se dar conta do caráter “sisífico” do trabalho assalariado, similar à insatisfação essencial do sexo e do prazer sensual em geral.