Rasteiras

Impressões digitais

Eu tenho ouvido apenas MP3. Mal aê… Volume quase ensurdecedor, função random ativada.

*

Confesso outra fraqueza: se uma canção tem uma melodia assobiável, guitarras limpas, baixo pontuado e um baterista maneiro, vou gostar. Gostar, aliás, não: vou venerar. Esses dias, preso num trânsito infernal na Av. Nove de Julho, por volta das sete da noite, me dei conta disto. Você sabe – se não sabe, tudo bem, vou contar agora – eu ando por aí sempre com mais de 30 Gb de música; afinal, nunca se sabe o que se esconde na próxima esquina. Bom, na ocasião, calharam de rolar no player dois álbuns que fazem parte de minha formação moral: Remember Me, do Otis Redding, e Curtis, do Curtis Mayfield.

curtis

“(…) So keep on pushing/Take nothing less/not even second best/And do not obey/you must have your say/You can past the test (…)” (excerto da letra de “Move on up!”, faixa que abre o lado B da bolacha).

Curtis (Custom, 1970, produzido pelo próprio Curtis Mayfield) é das coisas mais inacreditáveis feitas pelo homem – daqui a uns séculos, quando escavarem nossos escombros, algum espírito iluminado há de ouvir esse petardo, coçar o queixo e esquadrinhar um argumento: “se eles já tinham alcançado esse nível nos idos de 1970 e, mesmo assim, destruíram-se quase que completamente nas décadas seguintes, então a sociedade moderna era realmente uma bosta”. Qualquer dia, escrevo especificamente sobre esse grande álbum.

Remember me, do Otis, é uma coletânea, meio picareta, lançada em 1992. Faz a festa do Santo Reis com várias sobras de estúdio e outtakes. Apresenta, entre outras 21 canções, “Try a Little Tenderness”, numa versão diferente da oficial. Cara, que música espetacular. Espetacular. A melhor de todos os tempos. Claro, com Otis na voz e Booker “T” & the MG’s como banda de apoio, a versão tinha que ser matadora, mas, o que me impressiona mesmo é que a canção é construída de maneira inusitada, melódica e harmonicamente. Possui uma métrica canhestra, que permite espaços entre os versos. Rimas ricas. Uma sucessão de acordes impressionantes. Uma melodia assobiável, mas fora do padrão. “Try a Little Tenderness”, em termos de arranjo, dá um banho em peso, coesão e ritmo. Imagine uma canção que some Rattus, Exodus, GBH, Slayer e Megadeth contra o som produzido por Steve Cropper, Donald Dunn, Al Jackson Jr. e Booker “T”. É pinto: “Try a Little Tenderness” é mais pesada. Muito, mas muito mais densa. A progressão final, com Otis Redding provando ser o maior vocalista da história, é impressionante, com o contraponto dos metais, com o pá-cum-pá-cum da caixa/bumbo martelados pelo Al Jackson, aquela guitarra LIMPA – deus, que dedilhado é aquele após o break? – do Steve “Colonel” Cropper… uma paulada, coisa de quem manja do riscado.

*

Eu me lembro dos dias em que eu ia ao Big Dário, que era uma loja de discos lá de Rio Claro, no interior de São Paulo. A loja não tinha lá uma grande variedade, mas, tudo bem; pelos idos de 1985-87, eu meio que não sabia nada e, então, gostava de tudo. Tentativa e erro; dias de luta. Fui de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü, até Kommander of Chaos, da Wendy O. Willians, passando, por exemplo, por PsychocandyDarklands, do Jesus & Mary Chain, por Some Girls, dos Stones, por Remain in the light, do Talking Heads, e por London Sessions, do Muddy Waters. Eu tenho esses vinis até hoje, embora não os ouça há muito tempo. Foi lá, também, que eu comprei o Face Dances, meu primeiro disco do Who.

Ah, a descoberta do poder do dinheiro! Tinha moleque que gastava tudo em doces; moleque que comprava manoplas para a Extra-Nylon; moleque que ficava enchendo a cara de Coca-Cola; moleque que ia à banca do Anésio e comprava gibis de catequese. A bem da verdade, a imensa maioria dos moleques sequer ganhava mesada. Eu, que ganhava, gastava em vinis.

Deu no que deu.

Anúncios