Rock

O presente dos Autoramas

fa[Quando criança, a gente aprende um jeito menos dramático de tirar esparadrapo: um puxão bruto, único e singular. É desse modo que começo esta pequena resenha.]

O futuro dos Autoramas (Hearts Bleed Blue, 2016) é um álbum ruim. Pronto.

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Quando você pega o CD na mão, nota, de cara, que a produção é primorosa: capa legal (a arte é de Paulo Rocker), encarte bacana, material de qualidade. Não há aí uma surpresa; puxando pela memória, tudo que leva o timbre oficial dos Autoramas é muito bem cuidado. É um combo que desbravou as estradas do Brasil e, nessas, meio que criou um circuito viável, independente de verdade. Há quase dez anos, os Autoramas podem ser vistos na Europa e em outras paragens gringas, tocando nos infernos internacionais com a mesma precisão e disposição que marcam as apresentações por aqui. Uma pesquisa rápida no YouTube revela quantas aventuras a dupla Lúcio Maia (empresário)/Gabriel Thomaz (líder) foi e é capaz de engendrar. Aliás, observando/lendo as várias entrevistas disponíveis na rede, é possível notar como Thomaz é meticuloso e fanático por, como diriam Strummer e Jones, complete control; afinal, reconheça-se, pouca gente veste a camisa do DIY como o cara.

Bom, daí que é estranho quando finalmente se põe para rodar esse que é o sétimo disco de uma carreira que já alcança quase 20 anos. É possível notar, já nos primeiros compassos de “Quando a polícia chegar”, que  O futuro… é uma obra apressada, que carece de unidade interna. Além da mencionada faixa de abertura, “O que que você quer?”, “What you mean to me” e “Jet to the jungle” soariam bem nos primeiros três álbuns da banda e isso não é exatamente um elogio. Indicam uma repetição de fórmula, uma busca pelo “som dos Autoramas”, um verdadeiro get back, no sentido beatleniano. “Problema seu” poderia ser uma faixa de Música Crocante (o LP anterior, lançado há longínquos cinco anos), assim como “Verão”, que, sobretudo, indica que não está tudo bem nesta nova fase do grupo. Talvez fosse melhor deixar as coisas fluírem para, no futuro, lançar um disco mais parrudo e inovador.

De um modo geral, as faixas parecem “catadas” – e, de fato, são, tendo em vista que “Rolo compressor” (que vem do repertório solo de Érika Martins), “Be my baby” (inicialmente lançada no final de 2014, pelo famigerado duo Érika & Gabriel, já com Fred descendo a lenha nas peles) e “Garotos II”, por exemplo, já haviam aparecido antes -, o que acentua a impressão de que as saídas de Bacalhau e Flávia Couri foram muito mais traumáticas que inicialmente pareceram. A produção, assinada ora por Lê Almeida, ora por Jim Diamond, é competente (principalmente em termos técnicos), mas entrega que o disco passou por várias fases e mãos, em tempos e humores distintos. No todo, o álbum soa como uma resposta – aos antigos baterista e baixista, claro, mas, também, à rapa -, como uma autoafirmação de que os Autoramas ainda são os Autoramas. A repetição das mesmas estruturas musicais e timbres, com efeitos já ouvidos à exaustão, pode até dar a impressão, em um primeiro momento, de que a fórmula vai funcionar, mas cansa.

Não é o fim do mundo, porém. Noves fora, nada está realmente perdido. Em primeiro lugar, a nova formação, com Melvin, Fred e Érika, é, de fato, robusta o suficiente; as apresentações ao vivo são a prova incontestável. Claro, não têm ainda a mesma força que antes; basta comparar as versões de “Telecatch” disponíveis no YouTube e no disco para saber que ainda há uns quilômetros a percorrer. Vai levar um tempo, por exemplo, para entender como aproveitar melhor a voz do novo baixista ou como incorporar as múltiplas possibilidades – principalmente, nas composições – que a esposa tem a oferecer. Aos poucos, aquela dinâmica vai se desenvolver. Segundo, Thomaz sabe melhor que ninguém os meandros da independência e o valor do erro. Aqui, neste O futuro…, deu ruim, mas, não há de ser um problema: afinal, oras bolas, nada pode parar os Autoramas.

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