Rock

Sheena is a punk rocker

psm[SMITH, Patti. Linha M. Traduzido por Claudio Carina. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, 216 p.]

No ideário punk, sob a flâmula do faça-você-mesmo, há uma aposta evidente na possibilidade de autonomia. A proposta do “movimento” (e as aspas, aqui, são necessárias filosófica e pragmaticamente) é a constituição de uma individualidade emancipada a partir dos dejetos da sociedade industrial; o lixo também é importante. Claro, isso talvez fique mais compreensível na urgência de três acordes de uma guitarra distorcida, mas não há em Linha M nenhuma singela nota musical – o que, no contexto, revela-se uma baita qualidade. Não há nostalgia barata ou apelo aos anos de glória. Afinal, para além de qualquer dúvida, Patti Smith é uma senhora punk rocker*.

Este não é um livro para ser apreciado pela excelência de sua forma ou, mesmo, pela relevância de seu conteúdo. É uma tentativa algo modesta de autobiografia, que não incorre, contudo, nos pecados típicos do gênero, como a autoindulgência ou um certo compromisso com uma linha temporal reta e aborrecida. O que sobressai, sempre, é a solidão; a ausência é, de certa maneira, a personagem principal da narrativa: o sujeito é o vazio da rotina tediosa da torrada-azeite-café do ‘Ino, é a casa em ruínas em Rockaway Beach, e, especialmente, é a imensa dor que a morte do marido Fred “Sonic” Smith (ex-MC5) provoca na autora. Mas, ao mesmo tempo, essa solidão é também o indivíduo punk, e a narrativa deixa isso bastante evidenciado. Afinal, é um vazio que passa pela casa azul de Frida Kahlo, que revela a adoração por autores suicidas (Dazai, Akutagawa, Plath), que visita o túmulo de Genet e reverencia Rimbaud (o “poeta roqueiro”, segundo Leminsky). Todas essas referências, que ainda incluem fantásticas experiências com uma sociedade secreta, a “Continental Drift Club” (supostamente criada para cultuar a memória de Alfred Wegener), e um “prazeroso” jantar com Bobby Fischer, não preenchem a vida de Smith; são eventos pelos quais ela trafega, um vagar por ruas que não segue um caminho claro. O indivíduo punk adulto tem formação, mas não abre mão de uma boa série policial na TV.

Tudo é narrado sem exibicionismo, sempre de olho na desmistificação de pessoas, lugares e ocasiões, em uma escrita econômica e, por vezes, seca. Ou seja, na prática, isso significa que, mais que estar antenado com as referências (e, para a maior parte dos trechos,”antenado” quer dizer “ter ouvido falar”), o leitor precisa compreender o contexto cultural de onde escreve Smith. É importante conhecer um pouco da música e, sobretudo, da cena punk/new wave americana – as pessoas, os grupos, as inspirações. É esta, assim, uma obra que faz os iniciados mais felizes e que oferece dificuldades para quem nunca dançou de pés descalços.


* Foi Lenny Kaye, guitarrista do Patti Smith Group, quem cunhou a expressão punk rock para designar um certo estilo de música – ainda que o tenha feito para apontar a sonoridade das bandas de garagem norte-americanas dos anos 1960 (nas notas da excepcional coletânea Nuggets: Original Artyfacts from the First Psychedelic Era – 1965-1968, Elektra, 1972).

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