Rock

Citações

Para referência futura, duas citações sobre um tema que muito me interessa.

“(…) Bowie was, once again, picking up on a massive shift within modern music. He felt that rock, as a statement, was over (…) ‘Rock’n’roll certainly hasn’t fulfilled its original promise’, he told Anthony O’Grady (…) ‘The original aim of rock’n’roll when it first come out was to establish an alternative media speak voice for people who had neither the power nor advantage to infiltrate any other media or carry any weight.” (BUCKLEY, David. Kraftwerk – Publikation – a biography. Londres (Inglaterra)/Omnibus Press, 2015, edição eletrônica (Kindle), posição 1707).

“Um dos grandes encantos de se ver e ouvir bandas No Wave no centro de Nova York era como a música soava propositalmente ausente e abstrata. De certa forma, era a coisa mais pura, mais livre, que eu já tinha ouvido – muito diferente do punk rock dos anos 1970 e do free jazz dos anos 1960, mais expressionista e superior a, bem, qualquer coisa. Em contraste, o punk rock parecia irônico, gritando, entre aspas: ‘Estamos brincando de destruir o rock corporativo’. A música No Wave era, e ainda é, mais como ‘não, nós realmente estamos destruindo o rock’ (…) No Wave abrangia de tudo, de filmes a vídeo-arte e música underground. Mas isso também o tornava indefinível. Basicamente, era anti-wave, razão pela qual, a rigor, o No Wave não pode ser sequer chamado de movimento e não deveria nem mesmo ter um nome”. (GORDON, Kim. A garota da banda – uma autobiografia. Traduzido por Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias. Rio de Janeiro: Fábrica 321/Rocco, 2015, edição eletrônica (Kindle), posição 1323).

Resto

Sobre a imaginação

Alertado por Rena, leio hoje uma nota do Thales de Menezes naquele jornaleco golpista: Banda inglesa The Who virá ao Brasil em 2017 para shows em quatro cidades. Ainda é boato – basta lembrar que, há pouco mais de três anos, chegou a circular na web um cartaz “oficial” de uma suposta turnê dos hooligans por essas terras.

Será o caso de cruzar os dedos?

Talvez. Mas, sinceramente, espero que eles jamais pisem por aqui. Se eles vierem, sei que o grilo falante me obrigará a investir uma puta grana para vê-los. E, certamente, será uma decepção. Prefiro deixá-los quietos em minha imaginação. Afinal, nela, eles são insuperáveis.


Anotação (débil) mental: enquanto o grilo falante é titereiro, Pinocchio é só um boneco de madeira. A questão é virar gente.

Rock

Über den Begriff der Rock Geschichte

I

Como manifestação popular, o rock é uma forma arraigada no campo musical americano: country & western, jazz e rhythm & blues. Entretanto, é, curiosamente, uma espécie de folklore industrial. Sua partícula mais simples, indecomponível, é o barulho – o elemento sonoro que expressa o sentimento de alienação, de individualidade (moderna). Uma história do rock é uma narrativa coerente que explica não apenas a constituição desta partícula, mas, também, a dinâmica de seus desdobramentos, de modo a articular em uma unidade de sentido as diversas possibilidades, tão díspares, que se consagraram ao longo dos anos: do glam ao heavy metal, do folk ao punk, do beat ao progressivo.

II

Embora possa ser pensada de modo isolado, na maneira essencialmente mentirosa de um conceito, a forma musical “rock” só existe a partir da articulação de diversos outros elementos que se autodeterminam em uma prática específica. Assim, a indústria fonográfica – síntese de todas as esferas que conspiram para a o estabelecimento desse padrão – é decisiva para a compreensão dessa música.

III

À falsa questão “o que vem antes, o riff ou o rebolado?”, deve-se ter em conta que a forma musical “rock” somente se autonomiza quando é passível de se reproduzir. Sua dinâmica própria, o motor de seu desenvolvimento, é a contínua radicalização do barulho. De um lado, isso significa explorar incessantemente os encadeamentos de acordes, as batidas e os andamentos. Mas, de outro, implica a busca permanente por novas sonoridades, que deem vazão a outros dialetos (que podem confirmar ou não a sintaxe da linguagem). Eis a idiossincrasia do barulho: ele é sintético.

IV

glam já era um sinal evidente de doença, mas foi com o punk que o inevitável se escancarou. A morte do rock deu origem a uma linguagem específica: no final, era o verbo. O que restou foi um quase-maneirismo. A crença nos power chords e no rugir das peles dos tambores revela um deísmo ou, o que é praticamente o mesmo, uma tendência fascista; é preciso deixar os mortos morrerem.

V

Os roqueiros, intuitivamente, têm apenas transformado a forma rock de diversas maneiras. A questão, contudo, é interpretá-la.

*

Em tempo 1: felicidades, mr. Townshend.

Em tempo 2: quanto à caça (queima) à(s) bruxa(s), a saída é à esquerda.