Inferno

Um mapa do inferno [parte 2]

[O horror da guerra mundial é, em certo sentido, impossível de ser apreendido racionalmente. Pode-se, é bem verdade, usá-lo abstratamente, como uma noção a partir da qual argumentos podem ser sugeridos. Mas, no campo estético, uma tragédia – como é a situação em que o extermínio de milhões se torna um feito socialmente necessário – é um limite intransponível; nada que se possa tentar construir em termos sensuais poderá jamais dar conta do aniquilamento que exsurge como síntese de um processo social específico.

A ideia de que a arte, de algum modo, possa ser uma espécie de alívio para as agruras da realidade carrega nas entranhas uma certa perversão. Ao mesmo tempo, se a instrumentalização de tudo é uma característica de nosso tempo, essa ideia possui um potencial de verdade, ainda que exatamente oposta à pretensão posta: é ela mesma parte dessa agrura.]

Alan Freed, estadunidense da Pensilvânia criado em Ohio, participou da II GM: trombonista amador, atuou como disc jockey para manter elevada a moral das tropas no intervalo dos combates. Após a vitória aliada, retornou para os EUA e logo conseguiu um emprego na WAKR, emissora de rádio sediada em Akron, Ohio, em meados de 1945. Seu programa noturno diário, “Request Review”, tornou-se um grande sucesso local, com um playlist composto por “jazz dançante” – moleza, para quem fazia as pessoas se divertirem com os compassos quebrados das explosões.

Leo Mintz não fora convocado para combater, mas, no início dos anos 1940, trabalhava como subgerente de uma loja de artigos de guerra usados, em Cleveland. A bonança econômica da América o encorajou a abrir seu próprio negócio, a Record Rendezvous: inicialmente, comercializava discos para serem instalados nos primeiros jukeboxes automáticos e, aos poucos, passou a vender diretamente para os clientes. Não foi preciso muito tempo para notar que as gravações de rhythm & blues faziam sucesso, especialmente com a garotada branca. Na comunidade negra local, um pequeno circuito musical havia se constituído, mas a barreira racial impedia a apreciação imediata da produção artística. Os acetatos, os jukeboxes e as rádios foram elementos decisivos para se contornar esse problema.

Um dos principais fornecedores de Mintz ficava em Columbus, Ohio, e, em uma das frequentes viagens de negócios, o lojista conheceu Freed – que, à altura, já mantinha reputação de “lançador de sucessos” – e o alertou sobre a preferência de seus clientes. Quando, em 1951, Freed se mudou para Cleveland (com o apoio da RCA, que era, ao lado da Columbia, o principal selo da época) para trabalhar na emissora WJW, a Record Rendezvous comprou um espaço em seu programa, “The Moondog House”, para que o DJ tocasse discos de R&B. O impacto foi imediato. Freed rapidamente se transformou em celebridade e, já conhecido como “Moondog”, chamou a atenção da indústria fonográfica e da mídia nacional, cujo quartel-general, à época, ficava em Nova Iorque. O formato do programa era inovador e a seleção musical era basicamente composta por singles de música negra, especialmente os mais dançantes. Freed também criara uma maneira de se aproximar dos ouvintes mais jovens (que, como já se fazia notar, estavam se tornando um nicho consumidor bastante atrativo e ávido por novidades): o DJ transpôs as gírias dos guetos para as avenidas centrais; a mais famosa: rock’n’roll. Na comunidade negra, “rock” era o termo usado para designar a “foda”, ou seja, não o ato sexual regulamentar entre cônjuges, mas a atividade sexual apaixonada. Para a juventude branca, passou a ser entendido como o “namoro quente” e agitado nos bailes que então pululavam.

Desde os anos 1920, havia, nos EUA, transmissões regulares de rádio. As principais estações privadas da época (algo diferente da maior parte do mundo, onde as emissoras eram públicas), a NBC e a CBS, logo perceberam o potencial econômico desse meio de comunicação – já no final dos anos 1930, ambas estavam sob vigilância do Federal Communications Commission, por conta da concentração de mercado publicitário. No final da guerra, cerca de 50 milhões de aparelhos receptores estavam presentes em mais de 30 milhões de residências estadunidenses, cobrindo todo o país. A importância do rádio na difusão de notícias e na área da educação era mais que reconhecida – a mídia era decisiva na democracia americana – e, no campo do entretenimento, embora Orson Welles já tivesse provocado grande confusão em 1938 pela CBS, as oportunidades ainda estavam abertas. A nascente indústria fonográfica foi, sem qualquer dúvida, a grande aliada do rádio, especialmente a partir do desenvolvimento dos compactos de 7 polegadas de vinil (mais práticos e muito mais resistentes que os acetatos), que giravam a 45 rpm (de qualidade de reprodução sonora muito superior às bolachas de 78 rpm), que começaram a chegar às lojas entre 1949 e 1950. Nesse sentido, é em 1951 que surge, nas rádios americanas, o Top 40 – a parada de sucessos baseada em vendas de discos: o sucesso de qualquer artista popular passou a estar irremediavelmente atrelado à execução radiofônica.

Quando Alan Freed foi contratado pela WINS, emissora de Nova Iorque, em 1954, os elementos industriais que viriam a dar no rock’n’roll como o conhecemos tomaram o alinhamento determinante. Nos quatro anos seguintes, o DJ promoveria shows, estrelaria filmes, apareceria suspeitamente como coautor de sucessos (como “Maybellene”, de Chuck Berry) e, finalmente, seria acusado de tomar parte no escândalo da payolla – recebia pagamentos das gravadoras para promover certos discos, “fraudando” o público por conta o impacto da prática no Top 40. Em 1959, foi demitido e, após perambular por emissoras menores na costa oeste, morreu de cirrose em 1965, aos 43 anos, na California, quase esquecido.