Inferno

Um mapa do inferno [parte 1]

Em que momento, especificamente, o rock’n’roll nasceu? Eu, como todo o resto do universo, sei que foi em algum momento da década de 1950, nos EUA. Há razoável literatura sobre isso, mas, de fato, pouco raciocínio sobre o assunto. Na falta de coisa melhor para fazer e não tendo nada a ganhar com isso, inculquei-me com a idéia de tentar, ao longo das próximas semanas, propor uma outra abordagem histórico-social – não-acadêmica, mas com alguma estruturação lógica –, na expectativa de apontar aspectos importantes, que, na minha opinião, normalmente passam batido pelos apreciadores do gênero.

[Como pode um fenômeno como o rock’n’roll “nascer”? O que isso significa? Gênese histórica e lógica do rock, a essa altura do campeonato? Enlouqueci de vez? Enfim, aqui vou eu novamente: mais um passo decisivo rumo ao fracasso.]

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Fosse eu um romântico, iniciaria toda essa conversa a partir de uma discussão sobre a música. Rock tem a ver com isso, certo? Sim, sem dúvida. Mas, no fim das contas, não é apenas pela combinação de determinados acordes ao longo de doze compassos que a coisa aconteceu. Na verdade, o que pretendo examinar é, justamente, como um grupo de elementos (acordes, escalas, compassos, ritmo, letras) se tornou um gênero e deu origem a uma tradição. E este “tornar-se um gênero” não ocorre porque exista uma harmonia natural que justificasse a concretização do rock’n’roll quando as condições materiais assim permitissem; quero dizer, a origem do gênero não ocorre porque a escala pentatônica ou a batida quaternária sejam “fatos”, no sentido de serem determinações estéticas necessárias, dadas pelo cosmos. É claro que a progressão de acordes presente em “Hound dog” soa bem aos ouvidos, mas a questão é que o ouvido tem de ser formado. Para ficar mais claro, o ouvido é socialmente formado – não é uma dádiva, não é uma idiossincrasia. Pois bem, o que me parece difícil e interessante é discutir como essa gênese se deu.

[Parto do pressuposto de que a história tenha algo a dizer sobre essa coisa toda, ainda que isso jamais possa ser empiricamente demonstrável. Não se trata apenas de concatenar alguns eventos e fazê-los corroborar a hipótese lançada; é preciso captar a relação que permite a elaboração do seu sentido histórico. Mas, chega de digressões: o negócio aqui é rock’n’roll.]

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“Great migration”, por Jacob Lawrence, 1941 (MoMA).

Entre 1910 e 1930, aconteceu o que os norte-americanos chamam de “great migration”: cerca de cinco milhões de negros abandonaram o “sul” [as aspas indicam que a referência não é propriamente geográfica, mas, sim, cultural – “sul”, aqui, não indica, por exemplo, o estado da Flórida, mas, propriamente, os estados onde grassava a escravidão, como a Virgínia, a Louisiana, o Alabama, o Texas, a Geórgia, a Carolina do Norte e a Carolina do Sul] em direção ao nordeste e ao meio-oeste dos EUA [concentrando-se, especialmente, nas cidades de Nova Iorque, Chicago, Philadelphia, Detroit, Cleveland e Pittsburgh]. A dinâmica desse movimento é dada na explosiva combinação entre a expansão do emprego industrial (que atraiu também hordas de brancos) [em detrimento da ocupação na agricultura (trata-se do declínio do cotton belt)], no contexto da guerra na Europa, e a questão racial: por lá, a segregação não apenas era aberta, mas, também, legal (as leis de Jim Crow estavam em vigor) e, sobretudo, brutal (a KKK foi refundada em 1915, a despeito do Klan Act, de 1871). Os centros urbanos do norte eram essencialmente brancos no início do século; estima-se que, em 1900, menos de 800.000 negros viviam fora da região sul (considerando uma população negra total de 10.000.000 de pessoas, em cerca de 76.000.000 de estadunidenses).

Esse é um movimento muito relevante para se compreender a composição rítmica trinitária do rock’n’roll – o country, o jazz e o blues. Afinal, embora um componente seja a música caipira branca, as outras duas partes, essencialmente negras, são, também, urbanas. O berço do rock é geograficamente localizado nas regiões onde a população negra se proletarizou. Alguns exemplos são muito significativos. Em Detroit, à época da Depressão, havia aproximadamente 120.000 habitantes negros. Ocorre, contudo, que a motor town [que, na década de 1960 será conhecida como Hitsville USA] contava 6.000 em 1910. Em Chicago, berço do blues elétrico e terceira maior cidade daquele país, durante os vinte anos da primeira grande migração, os negros, que no início do século XX eram quase inexistentes, se tornaram quase um terço da população local. No mesmo período, a população negra de Cleveland quadruplicou; foi na rádio WJW, lá sediada, que o DJ Alan Freed passou a usar a expressão “rock’n’roll” para designar aquele tipo de música que estava surgindo nos anos 1950.

O deslocamento de tanta gente em tão pouco tempo causou problemas sociais muito sérios, especialmente em um país que havia recebido, nas décadas finais do século XIX, muitos imigrantes europeus. O resultado foi o surgimento de guetos e a marginalização de parte da população. Mas, em um ambiente de mobilidade social, essa segregação surtiu efeitos culturais importantes, singulares. O “confinamento” permitiu que uma identidade musical surgisse, na medida em que os cantos típicos das plantações de algodão fossem esmaecendo ante o ambiente ensurdecedor das fábricas: os clubes sociais passaram a ser não apenas o local da descontração e da descompressão, mas também o meio pelo qual uma nova geração, nascida na cidade, tomou contato com a memória recente da pobreza rural. A vida urbana, por outro lado, também ofereceu acesso à vigorosa circulação mercantil – onde chegam tecidos e enlatados, chegam também instrumentos musicais. A cultura europeia havia legado ao mundo não apenas os instrumentos “nobres”, mas, também, as versões mais populares, em particular o piano “de caixa”, mais portátil, e o violão, que nas regiões industriais, ganhou cordas de aço (substituindo as de seda e de entranhas animais). Metais e percussão também faziam parte do cenário. Embora a educação nas cidades do norte fosse muito superior à da vida sulista, não havia, propriamente, uma formação “burguesa” em curso nas black metropolis. Não se assoviava Brahms no Harlem.