Rasteiras

Mais um pouco sobre o fim do mundo

Só para adicionar um pouco mais à discussão do post de ontem: álbuns antigos estão vendendo mais que lançamentos.

“Dados como esse colocam duas questões muito claras para os selos: as pessoas estão começando a consumir novos lançamentos apenas em serviços de streaming, em detrimento à aquisição do formato álbum? Ou estão cada vez menos impressionadas com os novos discos que chegam ano sim, ano não?” (tradução livre minha), propõe Tim Ingham, ex-editor da Music Week.

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A primeira questão, a de se saber se o declínio do formato álbum está realmente acontecendo, ao que me parece, vem sendo confirmada há alguns anos. Há indicativos muito interessantes, que precisam ser mais bem examinados (mas não hoje, ok?); só para enumerar alguns:

– a incrível concentração de renda em uma minúscula parcela de artistas, acompanhada pela multiplicação de pequenos selos e lojas especializadas entre as décadas de 1980 e 2000;

– o declínio do rádio como meio de promoção da música gravada, o que pode ser demonstrado a partir dos budgets e planos de marketing das grandes companhias;

– a considerável diminuição do ritmo de lançamentos por artista major, desde o final dos anos 1990 (a “regra” para os grandes nomes do rock, até uns 20 anos atrás, era, em média, de um disco a cada ano e meio ou dois);

– o fato dos shows e do merchandise (em sentido amplo, incluindo licenciamento para cinema e TV) terem se tornado as principais fontes de renda para os principais artistas – o formato single se presta muito mais para esse tipo de arranjo;

– e, finalmente, o fato de que o público parece cada vez mais incapaz de ouvir sem ver – esse é um ponto muitíssimo delicado, que demanda muito mais que um chute para ser aventado – mas o brevíssimo reinado dos DVD’s já tinha sido um indicativo desse movimento (que remonta mais ao surgimento dos megaespetáculos que ao da MTV).

A meu ver, tudo isso, por outro lado, tem de ser pensado considerando uma questão fundamental: de que modo essas transformações afetam a criação musical, a formação de bandas e o desenvolvimento artístico em suas carreiras?

O futuro brilha tanto que eu preciso usar óculos escuros.