Rock

Anamnese da gênese

Os Sonics acabam de lançar “Bad Betty”, single do álbum This is the Sonics, que sairá em breve (a previsão oficial da Revox Records é 31 de março). Trata-se do primeiro trabalho inédito do grupo em quase 50 anos (o último disco, Sinderella, de 1980, trazia apenas regravações).

The Sonics, circa 1965
The Sonics, circa 1965: o cabelo é um perigo.

Entre meados de 1964 e o fim de 1967, os Sonics estabeleceram um tipo de sonoridade que, nos anos seguintes, seria conhecido como garage: canções curtas, dentro do padrão de 12 compassos do blues, com letras cheias de gírias próprias dos jovens brancos de classe média estadunidenses, pontuadas com batidas aceleradas, guitarras distorcidas e vocais gritados; tudo isso envolvido em uma certa tosquice amadorística na timbragem dos instrumentos, nos arranjos e, finalmente, nas próprias gravações. No caso específico do combo de Tacoma (EUA), há tons de surf – acentuados pelo uso singular do saxofone – e os berros de Gerry Roslie. Em “Bad Betty”, a produção de Jim Diamond (que, entre outros, trabalhou com gente como Jack White e os Dirtbombs) traz à tona todos esses elementos:

Eu gostei. E, considerando os lançamentos de rock dos últimos meses, acho que o correto é dizer que eu gostei pacas. Tem peso, tem ritmo, tem a sexualidade tosco-velada dos anos 1960 (em oposição ao hiper-realismo da pornografia digital). Mas toda essa bossa é, evidentemente, um problema meu. Meus ouvidos, meu gosto; ou seja, essa avaliação não quer dizer absolutamente nada.

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The Sonics hoje: jaquetas de couro ainda são um símbolo de rebeldia?
The Sonics hoje: jaquetas de couro ainda são um símbolo de rebeldia?

Diferentes gerações de roqueiros saudam os Sonics. Ao longo dos anos, acabaram virando uma daquelas bandas que se tornaram relevantes e influentes depois que entraram em colapso. Vez ou outra, leio por aí que isso se deve ao fato deles estarem “à frente de seu tempo”, embora eu não consiga entender realmente o que isso quer dizer. De todo modo, o que agrada os connoisseurs está resumido naquela descrição da sonoridade dos Sonics que fiz linhas atrás. Por sua vez, esse conceito foi forjado tomando por base os Sonics que efetivamente existiam – quero dizer, a partir de como eles soavam quando eram um combo organicamente integrado em um contexto sociocultural específico. E, claro, a atual encarnação da banda, que conta com a autoridade e autenticidade dos setentões Gerry Roslie, o fundador Larry Parypa (guitarra) e Rob Lind (saxofone), conhece muito bem essa fórmula.

Imagino que deva ser algo triste ser prisioneiro de uma ideia (e, se essa ideia for a única, deve ser ainda pior).

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Embora seja óbvio, é sempre necessário perguntar: por quais razões “Bad Betty”, por mais Sonics que soe, jamais será tão relevante quanto “Psycho”, “The Witch” ou “Have Love, Will Travel”?

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