Blablablá · Rock

Pirro

Foi há algumas semanas. Eu estava em minha cama, com as costas apoiadas por travesseiros, e havia desembainhado minha velha Strato creme. Com a TV mutada, eu me divertia com afinações alternativas, construindo acordes estranhos e produzindo melodias pouco usuais (no rock). Observando-me sem que eu me desse conta, Renata calmamente me trouxe de volta à realidade: começou a me provocar com um inesperado interesse naquilo que se poderia chamar de trabalho de bastidores, próprio de roadies; queria saber sobre a manutenção de instrumentos, a preparação de amplificadores, pedais e microfones, a montagem do palco. Em certo momento, Michel Courton apareceu na conversa – era inevitável, em se tratando do assunto – e foi aí que um estalo me ocorreu. Em um primeiro momento, não era algo claro: eu não tinha certeza do que era, mas sabia que tinha aparecido e estava escondido em algum neurônio, à espera de uma nova sinapse.

Por essa época, eu estava entretido com o livro do [sociólogo sul-africano] Stanley Cohen sobre o conflito entre mods e rockers. Lendo-o, embora estivesse concentrado em seu argumento – próprio da teoria social -, eu tinha a impressão de estar aprendendo especificamente sobre os fatos e eventos tratados. Em outras palavras, enquanto procurava entender as implicações teoréticas propostas pelo autor, sentia que estava observando detalhes das brigas e confusões ocorridas em Brighton, 1962. Quando Renata começou a comentar meu post sobre Courton, disse-me que compreendera um pouco melhor a produção no rock, embora não tivesse entendido patavina sobre a vida do roadie e sua relação com guitarristas importantes, como Steve Marriott e Jeff Beck. Comentei que, quando escrevi sobre o suiço, estava interessado em retratar um momento e lhe perguntei se achava que tinha sido bem sucedido. Ela – como lhe é próprio -, astutamente, respondeu-me que “sim, já que, no fim das contas, o post está escrito; é o que fica para a posteridade”. Escrever já é uma vitória.

Muito do que faz/fez do rock uma coisa tão atraente para tanta gente poderia ser classificado, pura e simplesmente, como “mito”. Tratando de maneira mais direta e superficial, a aura roqueira é construída, no mais das vezes, sobre mentiras ou análises pobres dos fatos. Em geral, os próprios artistas, “as testemunhas oculares dos eventos”, não sabem avaliar muito bem sua própria participação na história e, quiçá, o contexto em que estavam inseridos. Isso não é, definitivamente, algo ruim. Aliás, para começo de conversa, essa estória de que o “eu estava lá” produz “mais verdade” que o “eu li sobre isso” é muito questionável. Para usar uma ideia já bastante discutida e que voltou à moda recentemente, talvez seja possível compreender o que há para ser compreendido sobre a vida francesa ou o english way oitocentistas a partir de Balzac e Jane Austen, embora isso também seja algo para ser tomado com o mesmo cuidado que se deve dispensar ao exame de números e estatísticas na teoria social e na história. Difícil? Algo vago? Ora, esse é o preço que deve ser pago para fazer a realidade caber dentro da cabeça – se é que isso é uma coisa a ser feita.

Noves fora, e com a devida precaução, penso que o que há de mítico no rock pode explicar muito sobre sua história e sobre a cultura anglo-americana do século XX. Que o “talento cósmico” de Jimi Hendrix, a “genialidade intrínseca” de Lennon e McCartney ou o “lirismo” de Jim Morrison, longe de constituírem verdades em si, são ficções que revelam uma verdade histórica. Que o terceiro acorde de “Louie Louie” seja um mi menor que indique o fim da juventude transviada da década de 1950 e o despontar de uma nova geração. Só assim – e isso é uma aposta diuturna -, escrever sobre tudo isso pode ser considerado uma vitória.

 

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