Rasteiras · Rock

Uma vírgula

smods“(…) So Mr. Williamson, what have you done to find gainful employment
Since your last signing on date?
Fuck all.
I’ve been sat around the house wanking
(…)
Mr. Williamson your employment history looks quite impressive
I’m looking at three managerial positions you previously held with quite
Reputable companies, isn’t this something you’d like to go back to?
Nah, I’d just end up robbing the fucking place (…)”

*

“Jobseeker” é um single, prensado em gloriosas 7″ de vinil, lançado há um ano por esse estranho duo de hip hop britânico/eletrônico/punk77, os Sleaford Mods, de Nottingham, Terra da Rainha. Embora estejam por aí há um bom tempo (mais precisamente desde 2006, quando se apresentaram como That’s Shit Try Harder), Jason Williamson (voz) e Andrew Fern (o resto) começaram a atrair a atenção da imprensa especializada em meados de 2013. De lá para cá, soltaram um disco muito, muito bom, Divide and Exit (Harbinger Sound, 2014) e feito muitos shows – a maior parte em festivais europeus.

É uma música do cacete.

*

O som dos caras é minimalista: um sample de bateria acústica para fazer a batida básica (acelerada e reta, sem viradas, ton-tons ou pratos – só caixa, bumbo e chimbau), uma linha de baixo sintetizado e dois ou três adornos. São sempre três notas (não usam acordes). O canto, “poético”, imediatamente remete a John Cooper Clarke, mas é mais agressivo; Williamson cospe, pragueja, não sorri. Alguém já disse que eles são uma banda punk rock sem rock, mas eu acho que eles são punk sem guitarras, o que, diga-se, é uma atitude verdadeiramente punk nos dias de hoje, em que qualquer cançoneta-de-abertura-de-enlatado-Disney-Channel usa fórmulas Nevermind the Bollocks.

Para além de “Jobseeker”, tudo nos Sleaford Mods sugere urgência. Sua música é boa por um momento, nada mais que isso. Parece ser uma bofetada na cara de alguém que não pára de gargalhar, mas, contextualizada, é, na verdade, uma risadinha na fila do sopão do exército da salvação. Com todas as possibilidades sonoras que a tecnologia permite, com softwares que permitem criar, editar e sequenciar sinfonias com apenas um dedo, Fern prefere (ou só consegue) produzir faixas repetitivas, primitivas; mas elas são, a seu modo, perfeitas para o “lirismo” de Williamson – são dançantes, anfetaminadas, robóticas. É o legado da geração de 77. Ouça o MP3 no volume máximo permitido pelo iPhone e faça uma selfie batendo cabeça, para postar no Instagram: “vai tomar no cu, sociedade de merda do caralho!”.

*

“Jobseeker” funciona precisamente porque sua estranheza hipnotisa, tal qual o barato provocado por uma droga sintética barata. O efeito dura uma noite e traz de presente a inevitável ressaca matinal. Pode viciar e o uso contínuo detona a massa cinzenta, mas qualquer criança sabe que a graça de brincar com fósforos é o risco de incendiar a cortina.

*

Não há futuro, para os Sleaford Mods.

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