Rasteiras · Rock

Memória do presente

oughtUma confissão: eu realmente queria ter gostado de Snapshot, álbum que os Strypes lançaram no ano passado. Mas os moleques irlandeses meio que se contentaram em copiar as fórmulas que fizeram as bandas britânicas dos anos 1960 algo tão explosivo e legal. Não lhes bastou timbrarem suas guitarras de maneira parecida, mas tiveram de usar as mesmíssimas estruturas sonoras, as mesmas rimas e, até mesmo, as mesmas gírias, para gravar seu disco de estreia. Cazzo, se for para ser desse jeito, convém esperar mais uns cinco anos para ver se eles lançam o Let it bleed ou o Sell out deles. Não basta vestir os mesmos ternos surrados ou usar as madeixas (cuidadosamente) desleixadas emoldurando os indefectíveis óculos escuros para soar como uma banda de rock autêntica.

Mas, com o Ought, é outro papo. É bem verdade que, de cara, você já reconhece as referências desses canadenses de Montreal: Television, Talking Heads, Velvet Underground, Strokes, Pixies, Sonic Youth. Lá e cá, ainda é possível ouvir guitarras tocadas à Andy Gill (Gang of Four). Contudo, para sorte dos ouvidos (os meus, ao menos), eles não se realizam decalcando os truques do punk novaiorquino, circa 1976, ou do “renascentismo” norte-americano do final dos anos 1980: estão preocupados em propor algo. “Pleasant Heart”, faixa que abre o bem bom More than any other day (Constelation, 2014), apresenta as credenciais e não deixa dúvidas quanto às intenções do grupo – trabalham no limite entre o palatável e o repulsivo, entre o ruído e o silêncio, entre o melodioso e a dissonância.

O lance do Ought, ao que me parece, é criar texturas e, para tanto, produziram um repertório onde cada instrumento tem um caráter muito bem definido. As guitarras de Tim Beeler são livres de saturações artificiais e usadas com acordes abertos e palhetadas retas, paralelas às batidas erráticas conduzidas por Tim Keen. Em “Clarity!” e “Gemini”, a dinâmica entre os dois fica mais clara, com os crescendos e os espaços que vão sendo intercalados. Os vocais – que, de longe, lembram David Byrne e, de perto, Gordon Gano (Violent Femmes) – alternam-se entre canto, grito e fala e transmitem uma sensação de sinceridade política idealista, uma espécie de desespero esperançoso que remete, efetivamente, ao punk norte-americano. “Today more than any other day” exemplifica bem esse clima, que só me ocorre agora descrever como o romantismo de quem passa o dia construindo catedrais barrocas de areia de frente para o mar revolto. Os teclados de Matt May, especialmente em “Habit” e “The weather song”, estão sempre em primeiro plano, adicionando um colorido diferente ao som da banda, ora inserindo leves tons de melancolia, ora funcionando como o lastro de delicadeza que impede a explosão violenta da guitarra e da bateria. O baixo de Ben Stidworthy pavimenta o caminho dos companheiros na tradição do pós-punk, sem grandes firulas, com linhas retas e sólidas. O Ought é uma boa banda de rock – o que, em 2014, não é, definitivamente, pouco. More than any other day entra fácil na lista de melhores lançamentos do ano (o que, por sua vez, não diz muito).

E, por fim, há duas coisas que não podem deixar de ser notadas. Primeiro, o trabalho de produção low tech (do grupo e de Radwan Ghazi e Harris Newman) adiciona um senso de urgência interessante às faixas; ambiência, ruídos, ecos distantes, tudo isso ajuda a dar um ar de autenticidade urbana ao som do Ought. Segundo, o fato de que as canções duram, em média, mais de 5 minutos: aqui, finalmente, reside a expectativa de que, para além da camisa de força do vinil e da pasteurização do jabá radiofônico, uma banda punk (ou, no caso, pós-punk) possa dizer coisas importantes sem se preocupar com falsos limites.

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