Discoteca Biográfica · Rock

Reminiscências, referências e influências

“The old laws of England—they
Whose reverend heads with age are grey,
Children of a wiser day;
And whose solemn voice must be
Thine own echo—Liberty!”

P. B. Shelley, “The masque of anarchy”

Este era para ter sido o primeiro post da série “Discoteca Biográfica”, mas, ao longo dos últimos meses, mexi tanto no texto que ele acabou virando algo mais. O objetivo inicial era falar sobre como Sound affects, o quinto álbum do Jam, lançado em 1980 pela Polydor, havia sido importante para mim, em um certo momento. Comprei minha cópia – prensagem original inglesa – na London Calling, no início de 1991; entretanto, já conhecia o disco alguns anos antes, por meio de uma desgastada fita cassete que havia sido gravada para mim pelo Flávio Telles, ex-Charts. Desde a primeira audição, eu já estava apaixonado pelo som do Jam e pelas guitarras de Paul Weller. As faixas sensacionais, que acompanharam o fim tardio de minha adolescência, ainda estão bem vívidas em minha memória, embora não ouça o disco há algum tempo.

A contracapa de Sound Affects (Polydor, 1980): o poema de Shelley está na lateral esquerda inferior.
A contracapa de Sound Affects (Polydor, 1980): o poema de Shelley está na lateral esquerda inferior.

Mas a verdadeira importância de Sound affects em minha vida não está relacionada, exclusivamente, aos sons gravados nos sulcos do vinil. Uma coisa que me intrigou ainda na loja – mesmo hoje me lembro bem da emoção que foi encontrar o disco à venda na prateleira – foi a contracapa da bolacha. Nela, no canto inferior esquerdo, sobreposta à foto dos artistas, há um excerto de um poema escrito por Shelley. Que diabos era aquilo? Quem é esse tal de Shelley? Por que, em um disco do Jam, havia versos seus? O que isso queria dizer? Será que eu deveria tocar o disco ao contrário?

[“The masque of anarchy” é um poema político, escrito por Percy Shelley, em 1819 (embora tenha sido publicado, postumamente, apenas em 1832). Fala sobre o massacre de Peterloo, ocorrido em Manchester, onde a cavalaria inglesa marchou sobre as mais de 60.000 pessoas (à época, metade da população da periferia da cidade) que haviam se reunido para protestar por reformas no Parlamento britânico.] O que Weller quis provar com a citação? Seria para atestar seu conhecido exibicionismo? Hoje, acho que sim, mas sei que não apenas por isso: os versos de Shelley foram enaltecidos por muita gente, inclusive por um outro heroi de Paul, Aldous Huxley; imagino que a referência tenha surgido de segunda mão, por aí. À época, Weller volta e meia dava pitacos sobre política e sociedade para os tabloides britânicos e estava engajado em um e outro movimento (anos depois, já no Style Council, assumiu, por um tempo, a bandeira do socialismo e da luta pelos direitos das minorias). De certo modo, o exibicionismo, aqui, é, digamos, moralmente “perdoável”. Paul teve problemas em seu tempo de escola – sua origem working class, em um momento em que irrompia a crise do petróleo, também não o ajudou muito – e não chegou a se diplomar. Abandonou os estudos em 1975, para se dedicar à música e à construção civil (seu pai, John Weller, era mestre de obras e, nas horas vagas, empresário do Jam); contudo, já em 1977, aos 19 anos, estava com dois discos nas paradas e era um dos nomes de ponta na new wave. Quero dizer, era quase natural que Weller buscasse, àquela altura, legitimar-se junto ao establishment e, em seu caso, isso aconteceu mostrando que fora capaz de se formar em sua própria cultura, mesmo que por vias não-institucionais. Suas letras, no mais das vezes, são quase uma apresentação de credenciais, um pedido para ser aceito entre os pares. Em “Sounds from the streets”, faixa de seu álbum de estreia, In the city (Polydor, 1977), esbravejava contra o preconceito que sentia sofrer por não ser natural da cena londrina (“I know I come from Woking/and you say I’m a fraud/But my heart is in the streets, where it belongs”). Já em “Standards”, faixa de This the modern world (Polydor, 1977), Weller alerta “You know what happened to Winston” (não o Churchill, mas o Smith, que trabalhava no Ministério da Verdade e se envolveu com Julia). De forma sintomática, no auge do sucesso do Jam, abriu uma editora e uma livraria.

“Bem” – você vai me dizer -, “daí a citar Shelley na contracapa de um disco… sei lá, parece picaretagem, não?” Talvez até seja, mas só em um sentido não maldoso. É mais provável que seja uma capa de ingenuidade sobre um comportamento meio obtuso. Eu, pessoalmente, não vejo nada de errado nisso, embora, certamente, não veja nada de muito bom na atitude. Esse campo moral, entretanto, não serve para examinar Sound affects e compreendê-lo como a obra que, bem ou mal, é.

Conceitualmente, o disco é uma espécie de scrapbook, um álbum de colagens. Por influência townshendiana, Weller dialoga com esse grande patrimônio inglês da arte sessentista (tomado pelos norte-americanos), a pop art. A vida se torna um objeto estético: tudo vira mercadoria, inclusive o belo. Há, de saída, um trocadilho com os LPs de “sound effects” que a BBC lançou durante os anos 1970, que eram compilações para sonoplastia – aspectos sonoros da vida cotidiana. O mundo do homem comum gravado em um pedaço de plástico – algo que é muito importante e Weller, parcialmente, tem isso em conta. Musicalmente, há referências explícitas aos Beatles, sim, mas elas vão muito além dos compassos iniciais da introdução de “Start!”. A inspiração está, precisamente, no que os quatro lads de Liverpool haviam feito de melhor: o caldeirão de influências da baixa cultura norte-americana. Minha hipótese, aqui, é que uma referência é fraca quando se trata de uma mera cópia de externalidades; quando, no entanto, a reflexão proposta por um artista é assumida internamente por outro e exsurge em novos termos, o bicho pega. De maneira mais clara, uma influência “válida”, real, não consiste em reproduzir os aspectos mais aparentes de uma inspiração – um timbre, um riff de guitarra ou uma sequência melódica, por exemplo. O problema é muito mais embaixo: é compreender o que está por baixo de uma certa proposta sonora, o que é que torna aqueles minutos algo tão legal e, a partir daí – da lógica da parada – tentar propor algo novo (novas texturas, outras batidas, novos sons). Quando os três rapazes de Woking se propõem a fazer uma canção como “Music for the last couple”, em que uma narrativa cotidiana é acompanhada de intervenções repentinas de ruídos e ecos, estão se apropriando de elementos superficiais de certos quadros de Roy Lichtenstein – ignoram o que, de fato, o cara está propondo e, aí, escorregam feio. [Quando uns alemães malucos criam uma faixa de 20 minutos em torno de um mesmo acorde, estão lidando, dentro da linguagem roqueira, com um problema similar ao proposto por um Rothko, por exemplo; o nível é outro.]

Mas, afinal, Sound affects possui essa qualidade de ser uma obra pop (no sentido forte)? Sim, possui. A alma é britânica – a citação de Shelley faz todo sentido – e, especialmente, a tratativa é essencialmente britânica, seja no lirismo (na linha inaugurada por Ray Davies), seja na referência sonora. Tome, por exemplo, “Man in the cornershop”, “Set the house ablaze” ou “Pretty Green”, cujas temáticas só podem ser compreendidas a partir do debate acerca do sistema de classes corrente naquelas paragens. Ou em “That’s entertainment”, em que a descrição da vida cotidiana na Inglaterra já assumiu, por lá, ar de “clássico”: a voz do observador distante e suas notas irônicas e sarcásticas pertencem a essa tradição da música popular. Em termos musicais, o caráter “tipicamente britânico”, nesses casos, consiste na dinâmica que abre mão do suíngue em favor das nuances criadas pela pressão sonora dos instrumentos; a “tensão” é criada pela aglutinação ou pelo volume. [Planejo, futuramente, um post sobre “dinâmica”. Nos termos esboçados aqui, é preciso relevar que existem várias maneiras de se resolver musicalmente as questões que são suscitadas nos arranjos das canções e, no rock, algumas delas, por razões diversas, acabaram sendo mais usuais nos EUA e outras na Grã-Bretanha. Não é algo taxativo, evidentemente. Entre os grupos norte-americanos, pode-se notar, em muitas situações, que a solução passa pela trama do baixo e da bateria (não necessariamente na “quebrada de cintura”, própria do blues e do jazz, embora isso seja também usual; pense, por exemplo, em como as bandas de hair metal normalmente trabalham: a divisão de notas do baixo é dobrada em relação àquela do bumbo da bateria, fazendo a “cama” para que as guitarras e os vocais tenham papeis mais enfáticos e determinantes na canção).] A lógica da tradição em que o Jam se insere também está internalizada em faixas como “Monday”, “Scrape away” e “Dream Time”, todas elas nubladas e melancólicas como os dias chuvosos costumam ser – não poderiam ser californianas e nem tratar sensualmente do corpo (têm muito mais a ver com a tratativa inglesa do sexo na cultura popular). Além disso, o disco lida com o contexto musical – o punk e o pós-punk (canções estruturadas no formato verso/refrão, variações simples de três ou quatro acordes, arranjos executados sem grandes firulas técnicas e andamentos acelerados) – e a cena de seu momento: o conflito presente na formação cultural de classe na Inglaterra está escancarado em Sound affects.

É precisamente aí que a citação a Shelley faz todo o sentido. O que Weller parece não se dar conta é que ele jamais autorizaria que sua obra fosse parcelizada – a carreira fonográfica do Jam, com a valorização dos singles e lados “b”, é a maior prova disso. “Onde já se viu dividir uma obra de arte para usá-la oportunisticamente!?”, haveria um irado Weller inquirir. Ele, contudo, não vê nenhum problema em usar apenas três das muitas estrofes do poema político: é mais um “sound affect” de sua compilação da vida cotidiana. “The masque of anarchy”, que, por si, já é um sinal de um novo mundo, onde a musa está nas ruas, talvez pertença mesmo ao disco de um jovem curtido em uma nova tradição, onde a erudição está no prosaico; talvez faça mais sentido aí que em um tomo empoeirado, perdido em uma biblioteca que não é mais frequentada.

Tudo muito bem, tudo muito bom. Seria fácil demais fazer um exame externo dessa questão e simplesmente denunciar a superficialidade de Weller e seu desespero para soar “inteligente” e bem formado. Não creio que ele domine literatura inglesa moderna e, a julgar por sua prosa e produção musical até aqui, não penso que seja um intelectual; no fim das contas, é um bon vivant com pretensões morais dignificantes, uma celebridade com culpa. Mas, se eu o tomasse apenas dessa maneira, também seria esta uma crítica parcial e mal conduzida. Seria a mesma coisa que julgar meus posts pelo mesmo canvas de minhas leituras e influências. Weller é inteligente por ter notado um aspecto crucial da sociedade em que vive. Sound affects é um disco bom porque aponta, nessa sociedade, para muito mais coisas que seu próprio autor imaginou fazer.

*

Mas, eis que a edição em CD não traz a contracapa com o poema – há, no lugar, uma triste ficha técnica, com várias lacunas, inclusive (o que também parece reforçar a lógica da coisa).

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