Rock

Sobre o tempo (e outras anotações)

Os Beatles gravaram “Help” em abril de 1965. Em fevereiro de 1967, estavam em estúdio finalizando “A day in the life”.

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Não vou discutir aqui as bases de uma filosofia da história, mas não é preciso refletir muito para perceber que há uma grande diferença na “evolução artística” das bandas de rock americanas e britânicas da década de 1960 e na dos grupos atuais. Soa quase sobrenatural pensar que a carreira toda de Jimi Hendrix tenha transcorrido em pouco mais de três anos, especialmente se você levar em consideração que os Arctic Monkeys já estão na estrada há mais de dez (ou que o U2 esteja por aí há 35 longuíssimos anos). Alguém pode argumentar – com toda a razão – que há uma diferença de categoria gritante entre Hendrix e Alex Turner (ou Bono, tanto faz) e que, assim, os vinte meses que separam a adolescência e a maturidade dos Beatles se devem ao talento “natural” dos quatro rapazes cabeludos. Pode ser – e é provável – que a capacidade de fazer músicas relevantes realmente seja determinada por esses aspectos mais pessoais, mas, por outro lado, é preciso levar em consideração que, em termos de rock, não há “moscas brancas” sem que exista uma estrutura comercial/industrial adequada. Nesse sentido, o que quero dizer é que não é necessário (ou possível) explicar o “tempo” artístico exclusivamente pela genialidade dos envolvidos.

Por que?

Em primeiro lugar, a paga do pioneirismo é, de certa forma, um leque maior de opções. Não quero, com isto, dizer que a vida dos compositores e arranjadores era, então, mais fácil apenas porque ninguém ainda havia feito muita coisa na seara rock. É claro que houve muito trabalho, dedicação e fracassos envolvidos. Mas, ao menos no que diz respeito às soluções musicais mais “evidentes” (como as estruturas e andamentos que decorriam diretamente dos standarts de bluescountry), era, efetivamente, mais simples criar naquele contexto. Até meados da década de 1970, ainda havia espaço para se explorar na dimensão dos três acordes e doze compassos. E, sem dúvida, o pós-guerra e a polarização política permitiam um ambiente, no ocidente, onde uma certa “liberdade cultural” reinava. [A reação neoliberal iniciada com o choque de 1973 foi a pá de cal sobre esse panorama.]

Mas também é importante ter em conta que o mundo do showbizz era consideravelmente menor nos anos 1960. Para começo de conversa, talvez o rock ainda não fizesse, àquela altura, parte do mundo cultural – a própria noção de cultura pop estava sendo criada naquele momento. Então, as bandas tinham, basicamente, dois mercados a atingir: EUA e Grã-Bretanha [Anotação mental para um post futuro: na Europa, nos anos 1960, o rock teve maior penetração na Alemanha Ocidental e na Itália, já que acabou entrando no roldão do desmanche ideológico do aparato fascista (em França, Benelux e nos países escandinavos, também teve alguma presença relevante, mas mais tímida). Talvez seja por isso que, na década seguinte, o rock progressivo tenha se tornado algo muito importante justamente nesses dois países.] Para se ter uma ideia, nos dois primeiros anos de atividade, o Led Zeppelin havia cumprido cinco muitíssimo bem-sucedidas tournées americanas (e lançado três belos álbuns). O tempo na estrada era mais curto, com menos palcos e quilômetros a serem percorridos. Se a própria estrutura dos shows de então, hoje, seria considerada amadora e precária, imagine você que as viagens eram cumpridas em carros alugados e vans, com estadas em moteis e hospedagens de segunda categoria (isso só começa a mudar, para valer, na década de 1970, com a consolidação de um stardom roqueiro). Além disso, a exposição das bandas em rádio/TV/jornais e revistas era muito menor e, para os padrões atuais, muito pouco efetivas, comercialmente falando – poder-se-ia dizer quase ingênuas. Circulavam pouquíssimas fotos dos artistas e vídeos eram ainda mais raros. A cobertura das publicações especializadas era fragmentada e, por vezes, pouco crível (foi a era de ouro dos boatos). Isso também se refletia nos ganhos dos envolvidos. O cachê médio de Page e seus asseclas, em 1969, não passava de US$1.500,00. O Who, com quatro álbuns nas costas, recebera cerca de US$10.000,00 para se apresentar em Woodstock (embora, é bem verdade, tenha sido negociado no espírito “paz e amor”).

Mas o que, de fato, parece-me fundamental é que, entre 1960 e 1990, a principal fonte de receitas de toda essa brincadeira era o disco. Para ser mais específico, durante todo esse período, o que interessava era a comercialização dos mágicos pedaços de plástico – os shows das bandas eram peças promocionais da música gravada. Os Beatles abandonaram os palcos no meio de 1966 e passaram a se dedicar exclusivamente ao trabalho em estúdio. Assim, o tempo “físico” foi ocupado artisticamente, em composição, arranjo e produção. De um modo geral, os artistas deveriam se ocupar mais em criar e menos em reproduzir. [Não há, aqui, uma ode à criatividade ante uma certa mediocridade ínsita à “reprodução”. O que quero dizer é que os músicos dispunham de mais meios para arriscar, para experimentar, já que gravavam quase incessantemente durante longos períodos. Não é de se estranhar que, em meio a tanto esterco, uma trufa branca ou outra aparecessem. Por outro lado, com a precariedade mencionada, a estrada não era um ambiente particularmente adequado para a produção de material de qualidade (embora existam, claro, exceções). Hoje, o processo é o inverso: a grana está nos shows. O tempo “físico” é gasto com o ensaio exaustivo de repertório, com explosões, com figurinos e quetais. A estrutura de empresariamento e produção das bandas está dedicada à agenda das excursões. [Anotação mental para outro post futuro: por isso, os avanços técnicos mais relevantes ocorreram no campo da execução “ao vivo”e na sonorização de eventos, ao passo que, no estúdio, a tecnologia tenha avançado mais claramente na mecânica de gravação.]

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