Rasteiras · Rock

Big Star

bigstarVi, há algumas semanas, o documentário Big Star: nothing can hurt me, dirigido por Drew DeNicola e Olivia Mori. Como fã da banda, gostei; em termos objetivos, o filme, contudo, pareceu-me fraco, quase ruim. [Aqui, contudo, é preciso explicar: eu não entendo lhufas de cinema. Para falar a verdade, apreciar películas não é, definitivamente, das minhas atividades favoritas. Meu julgamento, como tentarei mostrar, não diz respeito aos aspectos técnicos; no fundo, tem a ver com uma questão estética, mas, ante minha burrice na área, está focado no argumento que os diretores tentam desenvolver. Na verdade, acredito que, se você, como eu, gosta do trabalho de Alex Chilton, Chris Bell, Andy Hummel e Jody Stephens, deve investir duas horas na diversão.]

O Big Star foi uma banda americana, formada em Memphis, em 1971. Senso melódico apuradíssimo, harmonizações inventivas, guitarras radicalmente limpas, baixo sinuoso, bateria (cor)reta, arranjos vocais bonitos e precisos: powerpop. Às vezes, soa como se fosse uma banda britânica sessentista, mas, para mim, as referências presentes no som do Big Star não poderiam ser mais americanas: há um quê de country e folk, em pequeníssimas doses, é bem verdade, que podem ser percebidas em audições mais detidas. Outras vezes, soam-me como se fossem uma improvável banda de acompanhamento para Nick Drake, se ele tocasse rock e tivesse pendores elétricos. Enfim, encurtando o papo, o grupo gravou três discos – todos eles excelentes -, fracassou em vendas e acabou em 1974; uma história como tantas outras.

No correr dos anos, contudo, sua reputação foi se tornando lendária. Os poucos que tinham ouvido a banda haviam se convertido em fãs quase fanáticos; a maior parte deles, aliás, ou trabalhava no jornalismo cultural ou era músico (às vezes, os dois casos). Depois do punk, com o surgimento de uma nova cena nos dois lados do Atlântico, o Big Star transformou-se em objeto de culto e as poucas cópias de seus vinis em circulação alcançavam preços estratosféricos no mercado alternativo. Em 1993, sem Chris Bell (morto em um trágico acidente automobilístico em 1978), voltaram aos palcos e cumpriram pequenas e regulares agendas de shows até a morte de Alex Chilton, em 2010 (poucos meses depois, o câncer levou Andy Hummel; Jody Stephens, vez por outra, ainda pode ser visto em pequenos palcos, lembrando as glórias passadas).

Pois bem, blablablá, a película, Nothing can hurt me. É bem feita, as imagens são bonitas e a narrativa é quiçá agradável. O argumento do documentário é que o Big Star fracassou sobretudo por conta dos problemas relacionados à indústria. A relação entre a Ardent Records (selo que os mantinha sob contrato) e a Stax (a dois passos da falência) teria posto tudo a perder. Seria, assim, o caso de uma grande banda prejudicada pelo negócio da música – no fundo, tenta-se mostrar que não há uma relação necessária entre o sucesso de um grupo e sua qualidade musical e que a relevância de um artista não pode ser medida apenas por seus trunfos comerciais. Em minha humilde opinião, DeNicola e Mori acertaram a mão ao evitar as lágrimas fáceis; o documentário não constitui nenhum dramalhão, embora tenha um tom choroso, oxalá triste. A meu ver, essa melancolia, tendo em vista uma certa característica sonora do Big Star, é, no fim das contas, bem-vinda, até.

Mas eu disse que tinha achado o filme fraco. Por quê? Por uma razão tragicamente simples: não se mostra que o Big Star era uma grande banda. Isso mesmo, faltou provar a premissa. Em outras palavras, se você não conhece o grupo, não é aqui que vai descobrir a grandeza de sua sonoridade. DeNicola e Mori, provavelmente cegos por sua afeição, esqueceram-se de mostrar o quão talentoso era o combo, quão única era sua fórmula. Claro que os depoimentos todos mencionam isso, propalando a genialidade de Chilton ou a sensibilidade de Bell quase incessantemente. Contudo, não é possível ouvir uma canção inteira que seja ou uma explicação clara e objetiva sobre os motivos do grupo ser tão bom. Ou você acredita no que estão falando ou não tem papo. Não há relatos sobre as performances no palco (já que não há gravações ou vídeos profissionais), ignoram solenemente o processo de composição e arranjo das canções. No fim, fala-se muito sobre uma espécie de injustiça cósmica, mas não se sabe ao certo de onde ela surge ou sequer se ela realmente ocorreu. Claro, se você já ouviu #1 record mais de uma vez, talvez aceite tudo de modo mais tranquilo. Talvez entenda, efetivamente, o argumento proposto e, somente no caso de ser um iniciado, não estará diante de uma clara petitio principii.

Evidentemente, DeNicola e Mori podem alegar que seu público-alvo era o de seguidores da banda: tudo bem, tudo certo. Mas, cá entre nós, esse povo, por certo, já conhecia esse papo de vilania do mercado de trás para frente e de fora para dentro.

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