Rasteiras

Aos vivos

Hoje, só um pequeno comentário.

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Eu nunca fui muito fã de discos “ao vivo”. Sempre achei que as versões em estúdio soam melhores, mas não propriamente por serem feitas com mais recursos e supervisão. O problema, ao que me parece, é similar a querer enlatar o mar: como capturar um show de rock em sua essência? Imagino que não precise demonstrar a absurda impossibilidade – deve-se, desde logo, abandonar qualquer expectativa de reproduzir a experiência de estar em um concerto. Assim, a saída mais evidente seria caprichar no som, mas eis que se coloca a questão em um outro nível: como encontrar o ponto correto de equilíbrio? Digo, em um evento ao vivo, o impacto sonoro não é homogêneo, de modo que, como dito, não se pode fiar no acontecimento mesmo para recriá-lo. Logo, a única saída é criar um disco ao vivo. O que quero dizer é que, na minha opinião, os melhores álbuns dessa natureza são aqueles produzidos como obra autônoma. Então, nesse raciocínio, um disco “ao vivo” o seria do ponto de vista da produção técnica, mas não da perspectiva artística – por isso, é especialmente importante considerar se o tipo de esforço requerido efetivamente acrescenta algo à discografia do artista.

Bom, tudo considerado, imagino que poderia elaborar uma lista com uns sete ou oito favoritos, mas, por qualquer motivo, resolvi elencar quatro, sem ordem específica de preferência (e sem muitas explicações):

:: Ao vivo no Mosh (1984), do Smack. Um dos grandes discos do rock brasileiro. Pós-punk, climático, poético até (a despeito das letras ruins). A banda era quase um “supergrupo” do underground paulistano, contando com o baixo de Sandra Coutinho (das Mercenárias), Thomas Pappon (do Fellini) na bateria, Edgard Scandurra (do Ira!) e Pamps nas guitarras e vocais. Sem grana para registrar o repertório e sem um contrato com uma grande gravadora, optaram por gravar o disco ao vivo, no lendário estúdio Mosh, em São Paulo. “Clone”, “Desespero Juvenil” e “Faça suas compras” são canções inspiradíssimas e a execução é ultra afiada. É interessante como soam tão únicos, tão distintos das outras bandas da época. [Esse álbum vale um post específico. Volto a ele em breve.]

lahsc63:: Live at the Harlem Square Club’ 1963 (1985), de Sam Cooke. Perfeito, do início ao fim. Comprei-o em 1987 – completamente por acaso – e, de vários modos, mudou minha vida. O genial Cooke não gravou nada parecido com este disco – suas gravações oficiais, na verdade, são muitíssimo tímidas, no sentido de que são domesticadas, açucaradas demais e lascivas de menos. As faixas registradas aqui são exatamente o oposto: o que chama a atenção é justamente a diferença entre o que o cara se propunha a fazer (nos shows) e o que acabava fazendo (no estúdio).

:: Live at Leeds (1970), do Who. Tenho três cópias deste disco (dois CDs e um vinil). A melhor demonstração do que seja a “dinâmica” de banda: os músicos sabem trabalhar a intensidade da execução em diversos níveis, modulam o peso, improvisam desvairadamente. Três faixas são “originais” (nunca tinham sido lançadas antes, mas as aspas indicam que se trata de versões para músicas de outros artistas) e viraram clássicos do catálogo da banda (“Young man blues”, “Shakin’ all over” e “Summertime blues”). É a prova empírica de que uma faixa de 17 minutos (“My generation”) pode ser consistente e proporcionar ondas de prazer durante a audição.

:: Dig the new breed (1982), do Jam. Não é um grande registro e, a bem da verdade, não passa de um souvenir para os órfãos do heroico trio mod. Contudo, existem certas coisas que você tem de parar de ouvir, porque as memórias acabam se tornando melhores do que o disco mesmo. Para mim, este é o caso – aliás, há alguns bons anos eu desisti do Jam e preferi deixá-los tocando nas minhas ocasionais lembranças. Nelas, eles são sensacionais.

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