Rasteiras · Rock

Pensando a anarquia

O que ainda há para ser dito sobre “Anarchy in the UK”?

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Não sei se você já pensou sobre isso, mas o fato é que compor uma música não é algo assim tão complicado. Na verdade, em se tratando dos formatos populares, é uma tarefa razoavelmente simples. E não estou aqui me referindo a coisas ruins ou mal-feitas: estou afirmando, com todas as letras, que escrever uma canção popular é uma tarefa que não requer cola e nem pilhas. Prática e dedicação, claro, são muito bem-vindas e, se você tiver “talento”, seja lá o que isso for, também ajuda. Tente, um dia desses – é divertido, prazeiroso e, o que é melhor, ninguém precisa ficar sabendo.

Algo muito mais complicado, entretanto, é criar um sucesso. Centenas de milhares de pessoas se lançam a essa tarefa todos os anos e apenas uns poucos conseguem alcançá-lo. São zilhões de fatores envolvidos e a maior parte deles não tem absolutamente nada a ver com arte. Mesmo os caras mais experientes, “talentosos” e que contam com orçamentos polpudos não podem garantir um hit, muito embora todos os hits sejam, sem exceção, fabricados. Quero eu dizer, então, que “Anarchy in the UK”, esse glorioso hino punk, é uma produção como qualquer outra? Bem, não e sim.

“Não”, porque, antes de mais nada, era preciso que a matéria-prima fosse boa, realmente boa. E, para todos os efeitos, “Anarchy” é incrivelmente ganchuda, melodiosa até. A letra é provocativa – “eu sou um anticristo/eu sou um anarquista” – engraçada e, surpreendentemente, inteligente. E, como a maior parte das canções populares legais, pode ser sustentada no violão numa boa. Além do mais, os Sex Pistols foram uma das maiores bandas de rock de todos os tempos: guitarra-baixo-bateria arro-com-feijão, intuição, bom humor e fome de bola. No contexto da época, o back to basics era algo realmente inovador e refrescante e ninguém representou isso melhor na cena inglesa que Joãozinho Podre e seus asseclas. Reza a lenda que o grupo foi formado alquimisticamente por Malcom McLaren, mas isso é conversa fiada: eram um combo de verdade, à moda britânica. A julgar pelos covers que faziam (“No fun”, dos Stooges; “Substitute”, do Who; “Roadrunner”, dos Modern Lovers; “Watcha gonna do about it”, dos Small Faces), sabiam muito bem o que queriam e conheciam o campo de jogo. Eram garotos da classe trabalhadora, forjados nos bons colégios públicos mas ejetados da sociedade em função do desemprego estrutural que abateu a Europa dos anos 1970. “Your future dream is a shopping scheme!”, bradava um raivoso Johnny Rotten.

Contudo, “sim”, “Anarchy”, o single, não foi obra do acaso. Muito pelo contrário. Basta comparar uma versão “original”, ao vivo (como esta aqui), com o resultado acabado (abaixo).

A começar do próprio título, tudo nesta faixa é uma grande contradição: a única coisa que não existe em “Anarchy in the UK” é, precisamente, anarquia. Ao contrário, tudo o que se ouve foi meticulosamente pensado, desenvolvido e encaixado. O trabalho de Chris Thomas e Bill Price, produtor e engenheiro de som, é primoroso. Alguém já disse, com razão, que, musicalmente, “Anarchy” é uma sinfonia de guitarras. De fato, são várias camadas que se sobrepõem ao longo da faixa. Nas estrofes, a base é a guitarra com o usual phaser de Steve Jones; em certo ponto, é até possível ouvir linhas de baixo (por exemplo, em 2:13), tocadas por Glen Matlock (salvo engano, “Anarchy” é a única faixa de Never mind the bollocks, here’s the Sex Pistols em que ele aparece). Entretanto, bem diferente do trabalho de um Johnny Ramone (em que todos os overdubs são pura e simplesmente somados em um único bloco sólido de cordas e distorção), as guitarras em “Anarchy” são dobradas em pontos específicos: por exemplo, na passagem F/Em do riff nos versos, nas duas pontes (em 1:11 e 2:00) e no refrão final (a partir de 2:42), em que todas elas (quatro, cinco; sabe-se lá quantas!) aparecem juntas, funcionando monoliticamente, com um peso absurdo, para explodirem em cortantes feedbacks no final. O que Chris Thomas conseguiu aqui foi domar a fúria de Jones e usá-lo para criar sinuosidade na faixa – em minha opinião, essa é justamente o que a torna particularmente interessante e, sobretudo, pop. Tudo isso se adere perfeitamente à solidez da bateria de Paul Cook (e, nesse caso, a mágica foi operada pelas tesoura e cola precisas de Bill Price).

Mas o que faz de “Anarchy in the UK” um verdadeiro clássico é o vocal de Johnny Rotten. Jamais um vocalista convencional, fez de suas limitações técnicas seu principal trunfo: a voz esganiçada, monocórdia, é usada como se fosse uma guitarra. Isso deve ter sido forjado diretamente nos ensaios e nos palcos precários, onde, provavelmente, não era possível competir com os outros instrumentos senão por meio do grito e da fúria. Revela, por outro lado, uma grande presença de espírito, na medida em que adiciona a necessária tensão à gravação – as palavras “cantadas” ora parecem transmitir ódio, ora cinismo. Thomas se aproveita bem dessa característica – note como a voz dobrada no refrão final (a partir de 2:55) se incorpora ao “crescendo” dal coda al fine. “I get pissed”, reconhece Johnny. A solução? “Destroy!”.

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Never mind the Bollocks, here’s the Sex Pistols é um disco fabuloso, imprescindível na formação moral de qualquer pessoa. Expressa, a seu modo, o ápice do rock como forma artística – o caos, a frustração e a esperança coexistindo em uma ordem que lhes é, simultaneamente, própria e externa. “Anarchy in the UK”, a grande faixa desse petardo, é também o canto do cisne – não é genial que os Pistols tenham durado tão pouco?

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