Blablablá

Sísifo vulgarizado

Estava tocando uma velha canção, mas o bar estava cheio de pessoas que não davam a mínima. Era Muddy Waters, “Rollin’ Stone”. Alberto encheu o copo pela enésima vez e me fitou. “Sabe”, começou sua estória, “Ela não era, definitivamente, uma pessoa polida. Falava pelos cotovelos, como se as palavras tivessem o condão de salvar almas. Mas, naqueles dias, eu só conseguia achar graça – especialmente quando, meio entorpecidos, nós terminávamos nos atracando naquele colchão lamentavelmente velho que me servia de cama. Não éramos amigos, propriamente – por causa de dois créditos que fazíamos juntos na faculdade, estávamos nos mesmos grupos de trabalho. Fora isso, nada. Quer dizer, nada além de um pouco de sexo e muita, muita conversa fiada”.

Eu, pela enésima vez, ouvia o mesmo papo. Já não prestava a menor atenção, mas, pela amizade, fingia algum interesse. “Rollin’ Stone”, se bem me lembro, é do finzinho dos anos 1940. Acho que foi a primeira gravação do Muddy Waters, mas não tenho certeza. Alberto continuava me olhando e falando sem parar. “Um dia, ela me disse que estava lendo um livro legal, mas eu não tenho a menor ideia do que era ou de quem o escrevera”, contou-me, com certa excitação. “E parece que tinha um lance interessante, que era narrado por um cara, no meio da estória do livro!”, exclamou, quase exaltado. Eu não sabia bem como deveria reagir – só conseguia pensar na pilha de provas que me esperava em casa -, mas Alberto já estava tomado pela empolgação.

“No livro, o cara está preso e lê um pedaço de jornal antigo que estava em algum lugar da cela. É uma notícia. Um sujeito tinha saído de sua aldeia ainda muito jovem, para procurar oportunidades melhores em outros lugares. Ninguém soube dele por muito, muito tempo. Um dia, depois de ter enriquecido, resolveu voltar para casa e dividir a fortuna com a família. Como chegara tarde da noite, resolveu se hospedar em uma pequena taberna local, que era tocada por uma viúva e a filha solteirona. Causou certa estupefação quando chegou, porque, naquela aldeia, todos eram realmente pobres. Durante a madrugada, recolhido no quarto que lhe alugaram, foi assassinado pelas mulheres, que desejavam lhe roubar os pertences. Quando o crime foi apurado, a polícia descobriu que as duas eram, na verdade, mãe e irmã do falecido…”, narrou-me, tentando conferir dramaticidade com gestos e modulações na voz.

Uma vez mais, fiz-me de assombrado. Brindamos. A letra de “Rollin’ Stone” foi inspirada em Publílio Siro? Ou teria sido em Erasmo? Planta quae saepius transfertus non coalescit. Muddy Waters sabia latim?

Minutos depois, despedimo-nos: amanhã, o trabalho nos espera.

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