Rasteiras · Rock

Be lucky

O Who acaba de lançar sua nova faixa, “Be lucky”, para promover mais uma tournée, “The Who hits 50” – “o início de um longo adeus”, segundo Roger Daltrey – e a indesculpável nova coletânea (a banda possui quase 20 compilações oficiais, em uma carreira de apenas 11 álbuns de estúdio!). Ouça aqui.

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Be-LuckyAnos atrás, em uma entrevista, Townshend reclamava dos die-hard-fans da banda, que ficavam no canto do palco gritando “be the Who!”. A bem da verdade, o Who foi o primeiro zumbi do rock, adquirindo esse status ainda na década de 1970, antes mesmo da morte de Keith Moon (em 1978). Perderam o “espírito animal” mais ou menos à época da malfadada tournée de promoção do excelente Quadrophenia (Track/Polydor, 1973), quando passaram a se concentrar muito mais no catálogo glorioso que em criar novas pérolas. Mas esse é um assunto para um post futuro.

Por agora, o que dizer desse novo single? Para mim, é uma clara tentativa de ser-o-Who. Não chega a ser patético, mas é perigosamente caricato: há uma fórmula em curso, que consiste em uma bateria “forte” (com Zak Starkey se esforçando para não acentuar  o óbvio e trabalhando bastante nos tons e nos pratos), rápidos fraseados de baixo (ainda que o timbre característico de Pino Paladino não seja, nem de longe, parecido com o furacão sonoro proposto por John Entwistle, falecido em 2002), power chords – tão manjados que aparecem no acorde A (lá maior), tipicamente townshendiano – e vocais no limite (de um surpreendente Daltrey, do alto de seus 70 anos). Não me parece patético porque essa fórmula, vá lá, ainda funciona minimamente: é uma marca distintiva, ninguém soa assim. No geral, acho que é melhor que tudo que apareceu em Endless wire (Universal, 2006), último disco da banda, o que significa que “Be lucky”, provavelmente, é o melhor Who desde “You better you bet” (de Face dances, 1981) ou “Eminence front” (de It’s hard, 1982). Sem demagogia: é pouco, muito pouco.

A canção começa com arpejos no violão que parece emular os célebres sintetizadores de “Won’t get fooled again”, mas logo os backing vocals se encarregam de mostrar o campo de jogo: as harmonizações são mais típicas dos trabalhos solo de Townshend, com vocais em registro mais baixo (no contratempo) e múltiplas vozes (mais altas) dando a melodia. A seguir, o power-chord típico indica que se trata do Who, embora o timbre da Fender Stratocaster seja bastante distinto dos sons encorpados que o guitarrista extraía das SG e Les Paul que ficaram registradas nos vinis clássicos da distante década de 1970; aliás, depois de Who are you (Polydor, 1978), Townshend deixou de gravar os pequenos solos que adicionavam um certo “drama” ao seu talentoso trabalho rítmico – uma pena. Daltrey, por sua vez, parece muito confortável na faixa e sua voz é o ponto alto de “Be lucky” (a expressão, por sinal, é seu mantra pessoal); sobretudo, por adicionar peso ao trabalho, mas também por fazer, com a usual competência, a linha de frente da batalha sonora. Eis que, do nada, uma “novidade” (para os iniciados chatos, claro): no verso “you wanna travel across the great divide/you really gotta have some luck on your side”, a estrutura harmônica foge do padrão townshendiano (indo do A para F#). Funciona bem para contrabalançar o auto-plágio (certamente inconsciente) da melodia da ponte de “Bell boy” (faixa de Quadrophenia). A letra, por sua vez, é uma vergonha, especialmente em se tratando do Who. Que a música popular esteja apoiada em rimas pobres vá lá, mas a verdade é que faz tempo que nosso compositor parece preferir saídas fáceis como “it’s gonna be fine”. E, entre nós, que são aquelas referências idiotas ao Daft Punk (com direito a vocoder) e ao AC/DC (e a menção a “Highway to hell”)?

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Acho que o Who é a única banda que permaneci ouvindo continuamente desde a minha adolescência. Para mim, “Be lucky” soa como zumbis fazendo troça com minhas memórias sentimentais. Mas, do alto de quase 30 anos de devoção, eu me sinto, infelizmente, obrigado a escutá-la e a gastar meus combalidos neurônios com essa bobagem imensa. Se esse não for o seu caso, nem se dê ao trabalho.

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