1973 · Rock

[1973] O topo da forma (3a. parte)

1963, Inglaterra. No início, não havia nada – o skiffle, talvez. Aí, os Beatles inventaram a pólvora (ok, “Love me do” é de outubro de 1962) e fez-se a luz. Simples assim? Quaaaaaase…!

*

Em dez anos, toda uma nova tradição cultural foi criada e estabelecida nos dois lados do Atlântico. Embora esse fenômeno envolva muito mais que barulho – a bem da verdade, talvez seja o rock que esteja inserido em um turbilhão que se convencionou chamar de “cultura pop” -, o que interessa aqui é a maturidade da forma musical. E, nesse sentido, é preciso, de saída, observar um aspecto intrigante. Os norte-americanos tinham o jazz, o blues, o folk (específico, evidentemente distinto do folk bretão) e o country – os elementais do rock -, haviam construído uma indústria fonográfica fabulosa e, inclusive, possuíam meios de comunicação de massa sofisticadíssimos. Nos EUA, a classe média branca endinheirada estava livre para consumir a felicidade em pedaços de plástico preto e o fazia com fevor, embevecida com os novos cometas que iluminavam o stardom da música popular local. Contudo, entre 1963 e 1973, de algum modo, os americanos estavam sempre um passo atrás dos britânicos (no rock, claro). O que explicaria a pujança dos súditos da rainha? Seria consequência da ingestão regular de peculiares tortas de enguia? Ou, quem sabe, fosse algo relacionado com as águas (então) fétidas do Tâmisa. Bom, a questão é que o rock’n’roll, inventado na América em meados dos anos 1950, em quinze anos, passou a ser medido pelo padrão ditado por os artistas da ilha.

Vários motivos podem ter contribuído para tanto (como o fato de o fenômeno ter sido tratado como uma “moda dançante” nos EUA ou porque ele lidava com a conturbada questão racial), mas, na minha opinião, dois fatores, extremamente imbricados, são mais determinantes: em primeiro lugar, o amadurecimento tardio da indústria fonográfica britânica; e, em segundo, o fato de que os artistas ingleses eram bandas. O que penso é que a juventude britânica, em função das condições do pós-guerra, desenvolveu-se como importante faixa consumidora (de maneira similar ao ocorrido alguns anos antes na América do Norte) em dessincronia com o rock’n’roll original; contudo, exposta à influência cultural direta (a ligação umbilical certamente foi importante aqui), capturou ruídos distantes do big bang. Na falta de uma estrutura específica para o consumo – é importante lembrar que a execução mecânica de música ainda não havia se disseminado em massa por lá (e, praticamente, em nenhuma outra paragem) -, o jeito era criar: por isso, penso eu, foram bandas – e não artistas solo – que aconteceram na Inglaterra. Do it yourself! Em dois ou três anos, muitos jovens amadores se envolveram com a música e armaram seus próprios grupos. Um circuito de shows surgiu – em espaços improvisados, que iam desde antigos abrigos anti-aéreo até bares de hoteis decadentes, e em alguns das centenas de pubs. Clubes de apreciação (algo quase ininteligível em tempos de redes sociais) surgiram em torno das poucas e disputadíssimas cópias de vinis norte-americanos (de blues, jazz e rock’n’roll) e, rapidamente, tornaram-se o público-alvo dos jovens grupos de rock que começavam a despontar. Nos EUA, o negócio era virar estrela (e, para isso, havia toda uma estrutura de músicos e produtores profissionais), enquanto, na ilha, a coisa era se virar com os colegas mesmo. Daí que quando os Beatles puseram fogo no rastilho, a explosão aconteceu porque havia, ainda que tímido e imaturo, um pequeno circuito capaz de compreender exatamente o que estava sendo proposto. Levou mais de um ano para que se tornassem febre na América, mas, quando isso aconteceu, não apenas o Fab Four estava prenhe de grandes realizações, mas também havia toda uma cena lotada de promessas. Por isso, a expressão “invasão britânica” é exata, muito exata.

É sintomático observar que, dos dez álbuns que mais venderam na história norte-americana, seis são de rock e, desses, cinco são britânicos. Foi a beatlemania que recolocou o gênero nas luzes e o transformou no principal veículo para as manifestações da juventude da época – na minha opinião, a invasão (entre 1964 e 1967), inclusive, estragou a carreira cinematográfica do rei e o impeliu à música novamente (vide o comeback de 1968). O sucesso das bandas britânicas abriu espaço para que os grupos norte-americanos mais experimentais se destacassem: como a competição estava acirrada no nível mais popular, com Beatles e Stones, além de bobagens como Herman’s Hermits e quetais, o jeito era a “vanguarda”. Os principais combos norte-americanos da época surgiram no oeste, na cena de ‘Frisco e LA, sob a tutela das drogas (especialmente as sintéticas) e embalando um certo clima utópico: “paz e amor”, clamavam os hippies (na expectativa de que a conversa e os bons fluídos fossem capazes de resolver as mazelas daquela sociedade). Pode ser uma baita viagem minha, mas me parece claro que a psicodelia americana é especificamente sensorial e, assim, precipuamente hedonista e voltada à expressão física: tensiona os costumes sociais. Em termos sonoros, corresponde às tentativas de grupos como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Big Bros. Holding Company e dos Doors. Expressa a pílula, o contato interracial e o questionamento do consumo como realização pessoal, mas o faz de maneira completamente instintiva e desordenada (por isso, assemelha-se ao esperneio que, não raro, é resolvido, alguns anos depois, com o assalariamento, o casamento e a televisão e realizado na calvície, no ganho de peso e, eventualmente, no infarto). Já a psicodelia britânica é muito mais “mental”, dada a “cabecismos”, e diz respeito às possibilidades “discursivas” do rock. Não está, como os pares americanos, ligada a “atitudes” – na ilha, isso só vai acontecer com o punk. Por isso, o legado sonoro britânico é muito mais consistente e relevante, embora o americano esteja mais firmemente arraigado na cultura popular.

Em um certo sentido, talvez seja possível dizer que, nos EUA, o rock foi mais misturado com aspectos mais “fisicamente prazeirosos” de outros gêneros, em especial com os ritmos dançantes e/ou estimulantes -, ao passo que, na Inglaterra, o gênero começou a ser apreciado por plateias sentadas, “mais viajantes”. Seria demais afirmar que a história da formação tradicional europeia impactou a cena roqueira? Penso que não, embora não consiga, aqui, traçar as determinações que expliquem esse impacto. Posso, contudo, oferecer um exemplo claro: o rock progressivo – que, diga-se, nunca aconteceu de verdade na América do Norte (aliás, o que aconteceu foi que o sub-gênero acabou se tornando uma relevante expressão europeia continental nos anos 1970, em especial na Alemanha!); não à toa, o circuito universitário inglês se tornou muito importante para as bandas naquele momento. No mesmo sentido, é importante notar que a situação da cena americana está diretamente determinada pela presença negra e isso leva a uma importante cisão interna: de um lado, o rock redneck, cada vez mais hard e “cintura dura”, e, de outro, o funk e soul (vide as eletrizantes experiências do Funkadelic em Maggot brain (1970) e de Sly & the Family Stone, com Stand! (1970)) cada vez mais próximos ao pop. No limite, a partir de 1974/5, essa distinção será eternizada com a explosão da disco music, cromossomo mutante que gerou a linhagem ancestral da atual música popular norte-americana. E, com seus próprios méritos comerciais, o rock “farofa”, que desembocará no hair-metal oitentista e nos clipes da MTV, fará a América branca ainda mais branca – por isso, o punk terá de nascer nas entranhas sujas e podres do underground novaiorquino na mesma época.

Do outro lado do Atlântico, a resposta foi o heavy metal. O gene original é tipicamente britânico, criado na maneira que as bandas tocavam o blues americano. Isso é assunto para um post autônomo, mas, por agora, quero dizer que a dinâmica musical específica desses grupos, que consiste em tensionar ao máximo uma nota (usualmente no baixo) pelo “crescendo” na bateria e com power chords de guitarra – os melhores exemplos são os Yardbirds e o Who -, não era apenas para ser “dançado”, mas, sim, sentido como uma estrondosa liberação de energia. No final, ante os problemas de gênero na sociedade moderna, acabou virando, mais e mais, música “para macho”. Ingleses que não dançavam e não estavam interessados nas viagens mentais acabaram, aos poucos, migrando para o lado pesado da coisa (primeiro com o Experience e o Cream e, depois, com o Deep Purple e o Sabbath). O sucesso do rock progressivo e a construção de um mainstream caracteristicamente britânico – vide o comentário que fiz sobre os discos dos Stones, Who e Led Zeppelin na parte anterior deste post -, inicialmente, abafaram o metal. Só quando o punk abriu as portas da percepção é que uma new wave of british metal pode fazer o sub-gênero, de fato, virar algo relevante (e ganhar a América).

*

Ufa! [Eu sei que tomei alguns atalhos mas] Como se vê, na evolução da forma, a questão, então, é o punk. É punk.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s