Blablablá

Michel Courton

O rumor, até onde eu sei, começou em Londres, na 17ª Small Faces Convention realizada há quase um ano. Na “mesa” dedicada à apreciação do álbum epônimo de 1966, Kenny Lynch declarou, à certa altura, que o disco teria sido um verdadeiro desastre não fosse “a precisão suiça de Michel Courton”. Pelo argumento apresentado, se Steve Marriott tivesse insistido em usar Telecasters ao longo das sessões, jamais teria conseguido o som distintivo que se tornou o verdadeiro diferencial da genial banda mod. Courton, então um jovem vendedor de instrumentos musicais em uma pequena loja no East End, em Londres, e já um fã de primeira hora dos Small Faces, havia apresentado ao guitarrista a inusitada Gretsch 6119 Tennessean, uma guitarra então muito pouco conhecida na Inglaterra. O detalhe crucial é que Courton, que havia fechado a venda por telefone, dispôs-se a atravessar a cidade até o Pye Studios, na Chandos Street, sob chuva intensa. Queimando de febre, fez questão de entregar a encomenda pessoalmente a Steve e, operada a traditio, desmaiou. Marriott prestou-lhe os primeiros socorros e, após certificar-se do bem-estar de Michel, gravou, em um take, “Shake” (cover do hit de Sam Cooke), a primeira faixa do disco em questão. O resto, dizia Lynch, era história. Não seria necessário acrescentar que os connaisseurs presentes imediatamente concordaram com a tese.

Courton havia emigrado de Winterthur (cidade próxima a Zurique) para Londres em 1964, com 18 anos recém-completados. A timidez atávica, acentuada por um inglês carregadíssimo de sotaque, impediu que se tornasse um músico, mas a habilidade nas seis cordas, prontamente reconhecida por gente do ramo, colocou-o no cenário. Inicialmente, fez grande fama entre os jovens guitarristas britânicos, por sua especial capacidade de adivinhar as necessidades específicas de cada instrumentista e lhes fornecer valiosas e disputadas dicas de equipamentos. Só para se ter uma ideia, Courton foi o sujeito que convenceu Chas Chandler (ex-baixista dos Animals), então empresário de Jimi Hendrix, que o lendário guitarrista deveria usar um pedal wah wah Vox Clyde McCoy. Não é pouca coisa, considerando que isso aconteceu ainda em 1966 – Jimmy Page e Eric Clapton imediatamente entraram na fila para comprar o aparelho. Também foi um dos maiores divulgadores das famigeradas Rickenbacker, atendendo clientes como Lennon e Harrison. Vendedor muitíssimo bem-sucedido, tornou-se um dos primeiros roadies especializados da história. Em 1967, após inúmeros convites negados (de todas as partes, inclusive dos Beatles), foi Jeff Beck quem finalmente conseguiu seduzi-lo – “havia oferecido a Michel metade do que eu ganhava com os Yardbirds – para os nossos padrões, na época, era um dinheirão, talvez mais do que o dono da loja onde ele trabalhava conseguia lucrar em um mês de boas vendas, mas ele me impunha uma condição que, para mim, era quase um insulto: que eu abandonasse minha amada Tele e passasse a usar uma Gibson Les Paul Standart. Foram semanas de discussão. No final, ficou claro que era a única maneira de poder trabalhar com Courton. Não teve outro jeito, senão ceder”. Michel trocou todo o equipamento do guitarrista e passou a supervisionar detalhadamente a montagem de seu palco. Desenvolveu técnicas que ainda hoje são usadas por roadies de artistas dos mais diversos gêneros: da “segurança elétrica” até o isolamento de plugs com películas de ouro, muito do que Courton tramou acabou virando padrão no showbizz, embora seu nome seja largamente ignorado pelas novas gerações.

Por outro lado, foi acompanhando Beck que Michel descobriu o submundo. A primeira tournée, reza a lenda, foi reveladora, em um sentido “quase místico”, como contaria mais tarde: o LSD era a contra-senha da cena e Courton logo entrou para a festa. “De repente, foi como ter encontrado um sentido na vida”, afirmou certa feita, “foi como se um chamamento do universo tivesse acontecido: ‘Michel, sua missão é fazer a cabeça das pessoas!'”. “Em pouco tempo”, Beck conta, “Courton passou a usar a sua metade para comprar as melhores drogas possíveis e a distribuí-las, de graça, para certos ‘protegidos’. Mas nunca descuidou das minhas guitarras – e nem das de ninguém”. Evidentemente, Michel passou a ser uma espécie de celebridade das celebridades, mas era muitíssimo reservado. Parecia, realmente, determinado a distribuir heroína de altíssima qualidade apenas para guitarristas escolhidos a dedo – Hendrix, em particular, recebia porções generosas, além de Clapton e, um pouco depois, Page. O americano morreu de overdose, em setembro de 1970, embora ninguém nunca tenha especulado, de fato, algum tipo de culpa atribuível a Courton, já que o problema de Hendrix fôra com barbitúricos. Mas o suiço havia sido uma influência, no mínimo, inconveniente – isso, todos os que conheciam Jimi mais proximamente eram unânimes em atestar. E, àquela altura, Clapton parecia seguir firmemente para o mesmo destino. Ao que parece, foi a interferência de Patty Boyd que mudou o rumo das coisas: a então esposa de Eric denunciou a atividade ilícita de Courton às autoridades londrinas. Preso, recusou-se a oferecer resistência e a se defender no tribunal. Os advogados de Beck gastaram uma montanha de dinheiro e conseguiram que o suiço fosse deportado para Zurique, onde foi, finalmente, condenado a 8 anos de prisão por tráfico internacional de drogas. Nunca mais se ouviu falar de Michel Courton.

Mas, dizia eu, o rumor havia começado há quase um ano: Courton estaria dirigindo o palco de uma banda major e, talvez, fornecendo-lhes “fortificantes mentais”. Ninguém sabia ao certo de quem se tratava – havia muita gente apostando nos moleques dos Strypes. Mas a recente polêmica envolvendo o Tame Impala e o improvável Pablito Ruiz acabou resolvendo o mistério. O site chileno Ratla.cl, que, após a dimensão do caso, teve de se retratar, recebeu a “dica” por meio de um repórter que alega ter conversado com ninguém mais, ninguém menos, que… Michel Courton, o “técnico de palco” da banda – e, sim, os australianos adoram viajar em suas Rickenbackers.

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