Discoteca Biográfica

[Discoteca Biográfica] White Light/White Heat

White Light/White Heat (Polydor, 1968)Artista: The Velvet Underground

Selo/Ano: Polydor, 1968

Produção: The Velvet Underground

Notas pessoais: circa 1989. Havia viajado a Londres e descoberto algumas coisas (entre elas, esse disco). Montei minha primeira banda; em junho ou julho, fiz o primeiro show. Acompanhei, com muito interesse, a campanha presidencial. Comecei a ler umas coisas importantes na minha formação, especialmente autores brasileiros. Além de Ira!/Scandurra, Who/Townshend e Beatles, ouvia muito dois álbuns do Jam (This is the modern worldDig the new breed), Marquee Moon (Television, 1978), The best of the Stranglers (The Stranglers, 1987).

*

Idealização à parte, lembro-me que a primeira coisa que me veio à cabeça ao ouvir esse disco foi “ué, isso vale?”. Foi um soco no estômago. Já tinha lido sobre o Velvet Underground e estava curiosíssimo – todo mundo só tinha elogios para a banda -, mas quase não podia acreditar no som que saía das caixas acústicas. “White light/white heat”, a faixa-título, estava me impressionando pela pressão sonora até a passagem por volta dos 2:15, quando o baixo saturadíssimo de John Cale ostensivamente sai do andamento. Como um músico profissional deixara aquele erro aparecer em um disco? Será que ninguém havia notado aquilo? Mas a estranheza não pararia lá, evidentemente. De “The Gift” – cuja letra fez mais maravilhas para o meu inglês que um ano todo de estudo no Yázigi – à “Sister Ray”, porrada ultrasônica de quase 18 minutos – o filler mais inspirado da história da indústria fonográfica -, que até hoje me intriga, esse álbum confirmou todas as minhas expectativas, mesmo as mais românticas: pensando bem, eu já queria gostar do disco antes mesmo de ouvi-lo. Profecia auto-realizada.

Na minha opinião – e sei que muitos devem dela discordar -, o Velvet Underground é a única banda norte-americana que realmente esteve à altura do que os ingleses fizeram de melhor. No limite, acaba sendo essa uma questão pessoal e, nesse caso, deve ser tomada como tal; mas o que quero dizer é que o Velvet era um combo mais em sintonia com o rock britânico que com seus colegas nativos. Embora sua sonoridade e abordagem estética estivessem ligadas claramente à cena novaiorquina – mais propriamente ao underground -, a tensão na instrumentação e a disposição para transgredir, que, no fim, são dois aspectos formais muito importantes no rock, eram mais tributários das bizarras possibilidades abertas pelos Beatles que da dinâmica sonora da psicodelia californiana, com as longas viagens instrumentais, ou da cena blues-rock da costa leste. Olhando hoje, penso que esse álbum levou ao limite a disputa interessante entre os egos de Reed e Cale, algo que somente estava sugerido no primeiro disco (em The Velvet Undergound & Nico, a esquisitice está mais contida, dando espaço para uma certa beleza dramática que caracterizou parte importante do repertório do grupo). Ao mesmo tempo em que alternam trechos inspirados e espontâneos com barulhos no limite do suportável (Cale), conservam uma certa familiaridade pop (Reed), melódica – “Lady Godiva’s Operation” é o exemplo mais claro, embora o mesmo possa ser dito de “Here she comes now”.

No fim das contas, um disco para destemidos ou iniciados. [A propósito, eu era, na minha ignorância, um destemido. Hoje, a maturidade me põe medo de muitas coisas, mas sou, definitivamente, um iniciado.]

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