1973 · Rock

[1973] O topo da forma (2a. parte)

Como escrevi antes, o rock, em sua forma “clássica”, amadureceu como gênero por volta de 1973. Minha hipótese é que sua expressão artística completou-se nesse momento; o “barulho” e as principais possibilidades que podiam ser desenvolvidas a partir dos elementos iniciais (por exemplo, os três acordes baseados no blues de 12 compassos; o ritmo ditado pela batida 4×4, originárias do country; as harmonias vocais em quintas e terças; os temas juvenis etc.) haviam, a essa altura, sido exploradas. [E, claro, algumas tendências apenas se anunciavam, enquanto outras já estavam devidamente esgotadas.]

A ideia deste post e dos próximos desta série é demonstrar esse argumento a partir de álbuns-chave. Começo com Quadrophenia, do Who, Goats head soup, dos Rolling Stones, e Houses of the holy, do Led Zeppelin. Os três são lançamentos de 1973 e os escolhi, basicamente, por duas razões: eram discos de três das maiores bandas da época (em termos comerciais, artísticos e de carreira) e, cada qual ao seu modo, expressam aspectos da maturidade do rock como forma artística.

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Quadrophenia, The WhoQual o significado de Quadrophenia em 1973?

Quadrophenia é mais que uma ópera-rock: é a quintessência dessa excrescência. É claro que “ópera-rock” foi, sobretudo, uma jogada de marketing. Não tenho certeza, mas acho que o termo foi cunhado por Kit Lambert, ex-empresário do Who, em 1966, para motivar Pete Townshend a escrever “A quick one (while he’s away)”. De fato, o compositor inglês enxergou nisso uma possibilidade artística; assim também os Beatles, os Kinks, os Small Faces e, claro, os Pretty Things (que “estrearam” o formato com SF Sorrow, em 1968). O que quero dizer é que, a partir das experiências psicodélicas, muitos tentaram expandir os horizontes artísticos do rock. Em outras palavras, buscava-se uma espécie de superação da forma, “elevando” o gênero a um Olimpo mais honroso. Nessa toada, o álbum se tornou o objetivo primordial das bandas, em detrimento do single, e a criação de narrativas mais longas e elaboradas, que se desdobravam musicalmente, foi uma das realizações mais claras do período. Talvez fosse mais razoável dizer que o que estava acontecendo era a consolidação do disco conceitual: os grupos estavam interessados em ultrapassar o limite-tabu de três minutos da canção popular. E, certamente, conseguiram. Quadrophenia, com seus longos temas auto-referentes (as faixas têm, em média, mais de cinco minutos), é essa conquista. Como o crítico Robert Christgau notou, não se trata de um disco fácil de se ouvir – não é imediatamente digerível, não traz nenhum hit instantâneo, é propositalmente confuso, exige certo conhecimento de causa – e, ainda assim, consegue justificar a agulha nos sucos do vinil. Em minha opinião, o álbum alcança vários limites: entre o clássico e o progressivo, entre o agressivo e a violência, entre a experiência e a repetição. E, mais importante, é um exemplar notável do desenvolvimento da sonoridade britânica no rock – as raízes sessentistas do som inglês estão todas expostas.

Por fim, cumpre notar que este disco marca o auge artístico do Who: revela o ponto de chegada dos idiomas musical e lírico da banda (a dinâmica do power trio, o uso inteligente de sintetizadores, as letras que evocam as dúvidas e o desajustamento juvenis, por exemplo) e ajusta as contas com o próprio seu passado mod. Depois de Quadrophenia, o Who viveria (como até hoje vive), basicamente, de festejar os dias de glória. É, de certo modo, o fim de uma geração.

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Goats head soup - Rolling StonesPara Tom Erlewine, do Allmusic.com, Goats head soup marca o fim da “era de ouro” dos Stones. Concordo plenamente. Imagino que pouca gente discordaria que se trata de um disco inferior a Exile on main street (1972), mas, em meu ponto de vista, isso acontece, fundamentalmente, porque Exile é quantitativamente superior. Quero dizer, em termos artísticos, Goats head soup me parece estar no mesmo nível, mas não traz faixas tão diversas quanto seu antecessor. Em suma, é um álbum menos ambicioso e, como tal, representa o modelo para os discos de rock que se seguiram: em suas dez faixas, oferece baladas (em especial, o mega-hit “Angie”), elementos da tradição (“Dancing with Mr. D”), momentos dançantes (“Doo Doo Doo Doo Doo”) e auto-referências (“Star Star”). É, a meu ver, um bom exemplo do processo de downsizing que se seguiu no cenário e que se tornou padrão para as carreiras das superbandas mainstream. À época, os próprios Stones passaram a frequentar mais as colunas sociais que as resenhas críticas dos tabloides musicais.

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Houses of the holy - Led ZeppelinEu, particularmente, acho risível a cintura dura de John Bonham tentando tocar reggae. O quinto álbum do Led Zeppelin, Houses of the holy, porém, mostra a maior banda da época (sei que esse “título” é discutível e eu mesmo tendo a contestá-lo; uso-o, contudo, reconhecendo a capacidade de gerar dinheiro que o Zep tinha durante os anos 1970) extrapolando seus próprios horizontes originais. A banda havia torcido e retorcido o blues de todas as maneiras possíveis nos quatro discos anteriores e, sem dúvida, tinha estabelecido um novo padrão de produção fonográfica para as bandas (méritos de Page, que, normalmente, é reconhecido – injustamente – apenas por seu talento como guitarrista). Além disso, com a “domesticação” do peso, tornaram o heavy metal possível (sem diminuir a importância do Deep Purple e do Black Sabbath, embora fossem estas bandas “menos importantes” que o Zep nesse sentido). Mas o segredo está na incorporação das texturas de teclados (“No quarter”), da aposta em elaboradas camadas musicais (“The song remains the same”, “The rain song”) e na busca de diálogo com outras linguagens (“D’Yer Mak’er”, “The crunge”): até onde vejo, a banda aponta para o limite pop do rock clássico, forjando uma espécie de “elo” entre a sonoridade dos anos 1970 e a da década seguinte. Quero dizer, com a incorporação de elementos diferentes, o Led Zeppelin mostrou que era possível montar um repertório que equilibrasse a tradição, o peso e um caráter mais acessível; nesses mesmos termos, talvez Physical graffiti, o álbum seguinte, seja tão ou mais bem-sucedido.

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