Rock

Passagens

Quando eu era adolescente, gostava muito do Ira!. Acompanhava a carreira dos caras, conhecia cada detalhe das contracapas, estava apaixonado pela guitarra de Edgard Scandurra. Após o sucesso comercial de Vivendo e não aprendendo (WEA, 1986) – muito em função do Plano Cruzado e, especialmente, por conta de “Flores em você” ter sido escolhida como música de abertura da novela das 20h na Globo -, o Ira! lançou Psicoacústica, um álbum ambicioso (e, talvez por isso, desigual), que anunciava a banda como uma espécie de “promessa artística”. Talvez fosse possível, pela primeira vez na história do “rock brasileiro” (aquele que começou pós-verão de 1982 – e isso é assunto para ser melhor tratado depois), que um grupo nacional criasse algo realmente consistente. [Confesso que, ainda hoje, gosto do disco – e também de Mudança de comportamento (WEA, 1985) e o mencionado Vivendo.]

Valentina, por Guido Crepax

Como está claro agora, foi apenas mais uma promessa. Mas, em 1989, quando Edgard lançou Amigos Invisíveis (WEA, 1989), a bola ainda estava rolando. Nunca vi ninguém comentar isso, mas, para mim, o guitar hero tupiniquim modelou seu primeiro disco solo a partir de Scoop (Atco, 1983), terceiro álbum de Pete Townshend. O inglês havia reunido várias de suas demo tapes (gravadas entre 1965 e 1982) e criado um panorama excepcional de sua própria obra – até hoje, é um dos meus discos de cabeceira. Scandurra produziu suas faixas de maneira similar à de Townshend: tocou praticamente todos os instrumentos, fez referências expressas ao Ira! e mostrou coisas que não transpareciam em seu trabalho mais comercial. Para coroar, gravou uma belíssima versão de “Our love was” – veja só -, sexta faixa do magnífico The Who sell out (Track, 1967). O disco de Scandurra, a meu ver, também era uma luz no fim do longo túnel que separa homens e meninos.

*

Pictures of Lily - The WhoNoves fora, meu ponto aqui é o seguinte: Amigos invisíveis é um ritual de passagem para Scandurra, assim como Sell out havia sido para o Who. Para muitos – eu também -, o terceiro disco dos britânicos é sua verdadeira obra-prima (esqueça Tommy ou Who’s next: o Who realmente fabuloso está aqui); foi o petardo que os credenciou à eternidade, aquele que os fez banda de verdade (e não apenas um grupo de singles). Lançado em 1967, obteve resultados comerciais bastante discretos. E é dessa mesma época, apesar de não ter entrado no disco, a bela canção “Pictures of Lily” – claramente, o último single da fase sessentista do Who. Envolvida em uma doce melodia (alicerçada pela execução robusta do trio Townshend-Entwistle-Moon), a letra conta uma estória sobre… masturbação.

I used to wake up in the morning
I used to feel so bad
I got so sick of having sleepless nights
I went and told my dad

He said, “Son now here’s some little something”
And stuck them on my wall
And now my nights ain’t quite so lonely
In fact I, I don’t feel bad at all

Pictures of Lily made my life so wonderful
Pictures of Lily helped me sleep at night
Pitcures of Lily solved my childhood problems
Pictures of Lily helped me feel alright

(…)

E daí que, em “Amor em BD“, a faixa de abertura de Amigos invisíveis, Edgard escancara seu próprio ritual de passagem. A seu modo, trata do mesmo tema proposto por Townshend:

Adéle, Paulette, Branca-Flor, Shemer, Valentina, Justine, Barbarela, Terna-Violeta, Shena das selvas, Linda adora arte
Raios!
Nosso caso de amor
nosso louco, doentio caso de amor
todo dia um tormento
toda noite uma despedida

(…)

*

Adolescência, quadrinhos, rock’n’roll. Uma passagem liga um lugar a outro, o que pode fazer supor, de um lado, que existam permanências e continuidades, embora indiquem, de outro, rupturas e contingências. Mas, ademais de filosofia da história de araque, o que quero dizer é que, claro, o rock, de vários modos, representa uma espécie de passagem na vida de alguns. Você terá doze anos apenas uma vez – para sempre.

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